O Menino

 

Início da noite. Apesar da brisa que soprava, fazia muito calor. Sentados à mesa a mãe e os três filhos comiam um biscoito barato de padaria molhado no café preto. A última refeição do dia era tão pobre quanto tinham sido as outras duas. Os tempos eram de vacas magras. Ninguém falava nada. Não havia o que falar. A mãe levantou-se levando consigo a caneca vazia que foi colocada na pia. Saiu para tomar um ar na frente da casa.

– Estou com fome – o menino de olhos grandes resmungou olhando para as irmãs.

Havia ainda um resto de biscoito no saco, dois inteiros e um partido. Era um biscoito comprido feito artesanalmente nas duas únicas padarias da cidade.

– Coma esse restinho.

– Mas meu café acabou e seco assim é ruim…

As duas entreolharam-se e despejaram o restinho de café que havia em suas xícaras na caneca do irmão. Ele riu, mas mesmo assim resmungou:

– Ainda vou ficar com fome.

– Fique quieto, se mãe ouvir você reclamando a sandália canta na sua bunda.

A irmã do meio assentiu com a cabeça e falou baixinho:

– Ele é um menino de nove anos, isso não sustenta ninguém!

O garoto sorveu a última gotinha do café fazendo um barulhão.

– Não faça furrote que é feio!

– Oxe, feio é ficar com fome e eu ainda estou com minha barriga roncando.

Essa semana eu acordei no meio da madrugada e não sei por qual motivo lembrei dessa cena. Recordei das noites em que dormíamos com a fome falando alto. Na verdade, nunca ficamos sem ter o que comer, mas houve ocasiões que tínhamos muito pouco para dividir por quatro pessoas. Chorei lembrando daquele menino de olhos grandes resmungando que café e biscoito era quase nada. Chorei lembrando que aquele menino se foi há alguns anos. Partiu assim sem aviso prévio, sem um até breve.

Consolou-me saber que quando adulto, sua família conheceu a fartura, seus filhos nunca precisaram dormir apenas com uma xícara de café e um punhado de biscoitos. O tão pouco da meninice foi o muito do depois.

Nessa madrugada de recordações dolorosas, pensei em minha mãe e entendi que por trás daquele mutismo, do olhar duro, escondia-se a dor de ver seus três filhos cheios de fome e ela com quase nada a oferecer-lhes. Sair da mesa e deixar-nos sozinhos, era poupar-lhe os olhos e o coração de saber que a situação era dura, triste, mas naquele momento era o que se tinha.

Em muitos outros momentos como esse, despois eu percebia os olhos vermelhos de minha mãe, mas não pensava que ela chorara. Sentia raiva porque achava que passávamos por tudo aquilo e ela não se importava e por qualquer coisa brigava com a gente. Desculpe, mãe. Hoje entendo que se foi duro para nós, para você foi muito pior.

Nenhuma mãe deveria passar pela angústia de não poder encher o prato de seus filhos.

 

 

Rota sem fuga

birdcage-454467__340As cercas passavam rápidas, apenas uma sombra borrada envolta pela neblina do dia prestes a amanhecer. Quantas vezes fizera aquele mesmo caminho? Quase a vida inteira. Sempre saindo do ponto A para o ponto B, vendo as mesmas paisagens, as mesmas curvas, os mesmos morros recortados ao longe.

Dessa vez faria diferente. Na primeira parada do ônibus pegou a mochila, foi ao guichê de passagens interestaduais. Uma hora depois ela estava sentada em outra poltrona de ônibus indo para outro estado. Doze horas a separavam do seu destino. Doze horas a separavam da vida que levara até aquele momento.

Chovia quando desembarcou na maior cidade do país. Pelo celular descobriu uma pensão perto do terminal rodoviário. Era pequena e limpa. Dormiu quase dez horas seguidas e ao acordar pensou no que faria dali para frente. No celular dezenas de mensagens. Não leu nenhuma. Deixou que o aparelho descarregasse.

No dia seguinte, comprou um chip novo. Aliás, comprou também algumas poucas mudas de roupa, inclusive roupas íntimas. Não queria nada que a fizesse recordar de sua antiga vida. Durante seis meses viveu naquela pensão e trabalhou como diarista. Juntou o que ganhou com o que já tinha no banco, tirou passaporte, comprou passagem para outro país.

O avião aterrissou numa manhã fria de inverno. Tudo ao redor era branco. A neve fina caía em pequenos flocos. Comprou um mapa na livraria do aeroporto. Para onde iria? Não importava. Qualquer lugar serviria. Não queria mais saber de rotina, horas marcadas, obrigações repetitivas. No passaporte estava escrito “turista”, mas ela sabia que ali era apenas o começo. Nunca mais levaria aquela vida severina de angústia, tristeza, dor.

Mudou o nome, a cor do cabelo, passou a usar lentes verdes. Ninguém a reconheceria se a vissem. Cortou a comunicação com os que ficaram para trás. Não mandou SMS, nem recadinho no Face ou no WhatsApp. Sumiu da vida de todo mundo. A única pessoa de quem não conseguiu fugir, apesar de tudo, foi dela mesma.

Fazendo Hora

DENSA NEVOAPasso as madrugadas remendando a minha alma puída pela saudade, mágoas e tristezas, sentimentos masoquistas e tão humanos. No decorrer das horas mortas tento cerzir espaços menores, antes que se transformem em feridas incuráveis. Há um luto em mim que não finda, uma melancolia amarga que brinca de esconde-esconde.

Os que estão de fora elucubram não-razões através de afirmaçõezinhas idiotas: não há motivo pra isso, a vida dela é tão boa!  Quem poderá jamais penetrar no coração e mente de alguém para saber o que ali se passa? São searas impenetráveis aos forasteiros, mundos cujas margens são desconhecidas ao próprio dono.

Quem sabe palavras não ditas, beijos não dados, amores não declarados, flores não recebidas, sonhos irrealizados, projetos inacabados, desculpas não ouvidas, convites não recebidos, quem saberá o quanto, ao longo do tempo, esgarçaram o tecido da alma até rompê-lo? Quem sabe?

Dentre a névoa rala do alvorecer vou dando os últimos nós frágeis em fios invisíveis de pensamentos costureiros, mas é impossível juntar todos os retalhos desse eu que vai se perdendo aos poucos, em pequenas doses letais de amargura e tristeza. O tempo, locomotiva célere que não faz paradas, breve chegará nesta estação e dar-me-á o bilhete só de ida para um mundo sem dor.

 

Palavra

 

 palavras

A palavra me move.

Às vezes em direção à linha do infinito,

aonde derramo meus sonhos coloridos

pelo sol que se põe em raios iridescentes.

Outras vezes, leva-me ao abismo

cujas sombras densas, escuras refletem

minha dor e desengano.

Palavras têm vida, são prenhes de representações.

Há quem encontre doçura ou rudeza em adjetivos,

Vida e morte nos substantivos.

Dúvida e tempo nos advérbios.

Ação e imobilidade nos verbos.

A palavra me move.

A vida se manifesta em meu ser

pela palavra.

Sou palavra em forma humana.

Ah! Palavras ao vento, palavras…

 

A capa de Harry Potter e as estrelas de Ana Luz

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Ana Luz olha para o céu e explica:

– Mamãe, sabia que se uma estrela cair na Terra, a gente morre?

– Sim, sabia.

A pequena de cinco anos, muito compenetrada a mirar o espaço, pergunta:

– Mamãe, como é que as estrelas ficam assim penduradas no céu?

– Ah, é que elas ficam amarradinhas num fio de nylon…

– Não é nada! O céu não tem fim…

                …

Li os sete livros de Harry Potter porque foi a forma mais fácil que encontrei de convencer aos meninos da 7ª série (era assim que se chamava na época) a lerem. Um deles comprava o livro a cada lançamento – era fã ardoroso do bruxo de óculos redondos – lia, emprestava-me e depois era feito uma espécie de rodízio entre os colegas. Deu certo o estratagema.

Harry  Potter tinha a capa da invisibilidade. Há pessoas que dariam tudo para ficarem invisíveis ao menos por alguns minutos, isso é uma fantasia que já passou pela cabeça de quase todo mundo. Entretanto, uma coisa é fantasiar a invisibilidade, outra, é vivê-la de forma diária e quase obrigatória, o que vem ocorrendo no mundo de hoje, para alguns segmentos da sociedade. Poderia falar da invisibilidade imposta às relações homoafetivas que não podem externar publicamente o amor através de pequenos gestos como abraços, beijos, mãos dadas, sem que isso acarrete uma reação preconceituosa descabida. Poderia falar da invisibilidade racial uma vez que ainda se questiona a capacidade intelectual dos negros e negras, e o direito a circularem de forma igualitária em qualquer ambiente. Poderia falar destes dois assuntos sim. Mas tratarei de outra invisibilidade por ser um tema que domino melhor.

Eu não uso a capa da invisibilidade do Potter, mas sou invisível. Sou cadeirante, portanto sou invisível quando chego, por exemplo, em determinadas lojas e o balcão é tão alto que a vendedora não me vê e eu tenho que bater a mão no balcão para chamar sua atenção. Ou quando a porta de um banheiro é tão estreita que não posso usá-lo. Ou ainda, quando as rampas estão bloqueadas por carros ou motos, ou nem existe rampa quando é essencial que ela esteja ali. Também não sou enxergada quando escadas são o único acesso a um segundo ou terceiro andares de prédios públicos. Quando as companhias aéreas usam a força braçal de dois funcionárias para me colocarem ou me tirarem da aeronave.

Quando falo sobre essas questões, critico, denuncio, esbravejo, de modo algum é para desestabilizar entidades, pessoas, órgãos ou seja lá o que for. Não é para bancar a coitadinha e sim para chamar atenção para algo que, por Lei, tem que ser solucionado. É para me colocar no mundo e deixar claro: “Olha, eu existo, okay? Você tem que olhar para mim e atender as minhas necessidades pois sou cidadã e ser humano como qualquer outro”.

Além do mais, assim como as estrelas de Ana Luz, não há fio de nylon que possa me trazer suspensa e assim dar conta dos meus problemas de acessibilidade. A invisibilidade não dói naqueles que não me enxergam, mas dói toda vez que não sou vista.

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