Fim de Jogo

 

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Assim que a porta bateu a mãe indagou:

­ ­- É tu, Roniesley?

– Sou eu, mãe.

– Tu vem do campinho?

– Fiquei lá até umas três hora, depois fui no Dado pra fazer as tarefa da escola mais ele. Tô vindo da casa dele.

– Mas teve jogo?

– Hum-hum.

– Quantos gols tu fez

– Cinco.

– Algum de falta?

– Só um. De pênalti.

– Hum… Ói, não esqueça o que eu te digo sempre. Treina muito pra fazer gol sem ser de falta. Tu tem de fazer é muita jogada limpa, drible maneiro, dar chapéu, pois assim corre menos risco de se machucar. Filho, tu tem que fazer de tudo pra não quebrar perna, romper ligamento, essas coisa acaba com os jogador.

– Eu sei, mãe, mas tem horas que tem que dividir mesmo, marcar em cima, não tem jeito! Não vou dar uma de frouxo não!

A mãe colocou a cabeça no vão que dava para a cozinha:

– Roniesley, tu vai ser jogador de futebol! Tem coisa mais macho do que isso? Eles andam tudo cercado de mulher, carrão, mansão! Nunca ouvi ninguém dizer que jogador seja frouxo dividindo bola ou não. Pior é receber cartão vermelho e ficar suspenso!

O garoto ficou calado. Desde que se entendera como gente que a conversa em casa era essa: ele seria jogador de futebol. Filho mais velho num universo de sete irmãos, passara a infância sendo levado pra escolinha de futebol de uma ONG que atendia meninos da favela. Aos catorze anos, era um menino bem desenvolvido para a idade, boa musculatura. A mãe, diarista de segunda a sexta, tirava do dinheiro que ganhava uma boa fatia para que o primogênito tivesse uma alimentação diferenciada, afinal um campeão tem que ser bem alimentado. Os outros sete filhos não sabiam o que era comer verdura, fruta, leite, iogurte, essas coisas todas. Feijão com farinha e de vez em quando um frango e mais de vez em quando ainda um pedaço de carne, era o suficiente. Estavam todos investindo no futuro, cada um com sua parcela de sacrifício. À noite, quando todos se deitavam para dormir, a fome era minimizada pelo pensamento geral de que dali a poucos anos estariam todos refastelados em alguma mansão de Pinheiros, Higienópolis, Barcelona, Madri…

– O técnico já te falou quando é que vai ser a peneira do Corínthians?

– No sábado de manhã.

– Como? Sábado de manhã? Mas é daqui a três dias!

– É.

– E tu vem me dizer isso agora? Tu não vai pra escola daqui até lá pra treinar o dia todo! Seu Martins falou que você com certeza vai ser chamado pro Juniores e só agora tu me diz que a seleção já é sábado! É treino, treino, treino até lá tá me ouvindo? Nada de aula!

– Mas tem avaliação de matemática quinta-feira, não posso perder!

-Pode perder sim! O que não pode perder é a seleção. Depois tu faz na segunda chamada.

No dia seguinte logo após o café reforçado, o ‘futuro’ ídolo do futebol sai de casa vestido não com a roupa da escola, mas com a chuteira, camisa do Corínthians, bola debaixo do braço. Com olhar perdido, ele pensa na escola, na Marina, colega de sala de olhos pretos amendoados, sorriso bonito, na aula de português e no trabalho sobre poesia que ele não entregaria. Pesquisara sobre Mário Quintana, gostara tanto das poesias dele… Copiara uma num pedaço de papel que planejara colocar na mochila de Marina… “Se tu me amas, ama-me baixinho/Não o grites de cima dos telhados/Deixa em paz os passarinhos…” *. De repente sentiu que alguma coisa quente o atingira no peito, o forte impacto joga-o para trás. Sentiu que estava caindo como se estivesse em câmara lenta. Gritos, correria, vozes atropeladas…

– O menino foi atingido! Chamem o SAMU!

Ele não entendia o que acontecera, mas sabia que estava morrendo.  Não tivera oportunidade de colocar o poema na mochila de Marina, não havia mais tempo, nem oportunidade… “Deixa em paz a mim!/Se me queres, enfim,/tem de ser bem devagarinho, Amada”… Não fora para a a escola, perdera a aula para treinar no campinho… Lágrimas mornas começaram a rolar pelo rosto já pálido… Desculpa, mãe, não vou poder te dar uma casa… nem segurança… irmãos, perdoem o que era também de vocês e só eu tive… Não vou mais jogar bola… Não queria ser jogador mesmo… Ah, Marina! Não terei tempo de colocar o bilhete na sua mochila…  “que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…”. Bala perdida… sonhos abortados… vida… morte…

* O poema registrado no texto de Mário Quintana é Bilhetes e na seção Outros Autores desse blog encontra-se na íntegra.

Aonde a voz do povo não é a voz de Deus

mudaDesde menina ouço o provérbio “A voz do povo é a voz de Deus”, que vem do latim “Vox Populi, vox Dei” e era usada por gregos e romanos na Antiguidade.  Tito Lívio, por exemplo, emprega a expressão em sua obra Livros Desde a Fundação da Cidade de Roma (séc. 25 a 27 a.C). No século XVI Maquiavel a usa no livro O Príncipe, afirmando que a opinião pública é tão poderosa que se os governantes querem manter o poder nas mãos, devem ouvir a voz do povo porque ela mais sábia. Por outro lado, em O Contrato Social (séc. XVIII) Rousseau proclama o direito do povo não aceitar as determinações de seus governantes e usar a sua voz para expressar essa vontade.

Lembro-me de dois momentos em que manifestações parcialmente populares tiveram êxito no cenário nacional. O primeiro movimento foi Diretas Já idealizado pelo senador Teotônio Vilela, em 1983, após a o Congresso ter rejeitado a Emenda Constitucional Dante Oliveira que propunha eleições diretas. A sociedade civil apoiou maciçamente o movimento. Em todas as capitais praças eram lotadas por milhões de pessoas desejosas de, pela primeira vez em mais de vinte e cinco anos, poderem escolher seu presidente pelo voto direto. O segundo grande movimento foi o Caras-pintadas que exigia o impeachment de Collor, o que acabou ocorrendo em setembro de 1992.  Jovens com rostos pintados de verde e amarelo deram o tom ao movimento exitoso. Entretanto o impeachment aconteceu porque no meio político havia uma insatisfação geral e a pressão popular veio mesmo a calhar. Digamos então que nos dois casos a voz do povo (e dos políticos) foi a voz de Deus.

De lá para cá o povo perdeu a voz, tanto é que com a escolha de Renan Calheiros para presidência do Senado, houve uma gritaria geral. A revolta popular foi intensa uma vez que é inconcebível que um homem que esteve envolvido em escândalos e falcatruas (Renangate do laranjal, caso Mônica Cardoso, caso Schincariol e golpe do INSS0), duas vezes julgado pelos seus pares em plenário, afastado da presidência da Casa, retornar agora a despeito de a Pesquisa Ibope (encomendada pela  Avaaz) revelar que 74% da população era contra. A Avaaz levantou mais de 300.000 assinaturas numa petição online, mas o Senado manteve-se alheio a tudo isso.

Agora vivemos mais uma onda de manifestações contra a escolha de Marcos Feliciano, fundador, presidente e pastor da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, homofóbico confesso (para ele a “Aids é o câncer gay”), racista (declarou em seu twiter que os africanos são amaldiçoados porque a África é o berço da maldição), responder a uma ação penal e um inquérito no STF, ser escolhido para presidir a Comissão dos Direitos Humanos. O povo foi às ruas em dez capitais e sete cidades, tem petição do Avaaz em andamento, movimentos nas redes sociais, manifestação da OAB contra essa escolha, mas nada! Será este o homem que vai tratar de assuntos que dizem respeito às minorias (LGBT e negros dentre outros). Mais uma vez o povo perdeu a voz.

Chego, pois, a triste conclusão que o Brasil é o lugar aonde a voz do povo não é a voz de Deus. Se não temos voz, de certa forma, fomos destituídos de uma parcela da nossa humanidade, já que falar é uma característica humana! Entretanto, podemos dar o troco a esses mesmos políticos que se encastelam em Brasília e ficam surdos aos nossos apelos: vamos também emudecer a nossa outra voz, aquela voz que ergue, mas também derruba: nosso voto! Se o voto é a única voz audível para os políticos que em seu leque de escolhas incluem Renan Calheiros e Marcos Feliciano, fiquemos mudos então! Não votemos neles, coloquemos para fora todos os surdos à voz do povo e, portanto, surdos também à voz de Deus.

Questão de tempo


Quando você me perguntou: “Já vai?”, respondi que sim sem a mínima noção que seria nossa última tarde juntos. Saí tão feliz, fazendo planos, pensando em como aquele edredom primaveril ficaria lindo no meu novo quarto, as almofadas combinando, o papel de parede dando um tom moderno e sóbrio ao mesmo tempo. Seria interessante mudar também o piso, aquela lajota estava tão gasta já! Quem sabe também trocando a posição da cômoda, a chaise longue ficasse mais perto da janela e, portanto, teria mais luz natural para minhas leituras.


Cheguei em casa com a cabeça fervilhando de ideias e o coração amuado de saudade e olha que só fazia um pouco mais de duas horas que estivéramos juntos. Mulher é assim mesmo, bicho bobo. E apaixonada então! Apaixonada perde a noção das coisas, fica cega perante às evidências, acredita em tudo que a pessoa amada fala, acha graça em toda piada sem graça que ouve. Pois foi prenhe dessa bobajada toda que entrei cantarolando como se tivesse visto um milhão de passarinhos verdes.

Precisava checar se minha colega do trabalho mandara a planilha que o diretor pedira e liguei o computador. Foi só então que descobri. Havia uma mensagem em meu e-mail de apenas uma linha e meia: “Sei que você nunca vai entender e nem me perdoar – nem espero que faça isso – mas pra mim não dá mais”. Como assim? Como não dá mais? Então aquele “já vai?” na verdade era uma despedida? Era um já vai tarde? Era um ponto final sem explicação? Era uma despedida sem adeus? Li, reli… reli mil vezes.

Não procurei saber os motivos daquele lacônico término. Começou sem aviso e assim findou. Aliás, a gente passa o tempo todo esperando por isso: que acabe… seja por nossa decisão ou por decisão da outra pessoa. Mas dói! Como dói! O pior é que não tem analgésico para mal de amor. A gente tem que aguentar até que um dia ela vai diminuindo, diminuindo, até passar de vez. Infelizmente essa é uma experiência que não deixa lição, não proporciona aprendizado. Quando chega um novo amor começa tudo de novo, é apenas uma questão de tempo.

Postado em 03/03/2013

O Susto


A BR-116 acabara de ser aberta e muitas fazendas da região foram cortadas ao meio pela “federal”, como era e ainda é chamada até hoje. Não tinha sido diferente com a Fazenda Grotão da Serra, tanto que a fonte onde pegavam água para as necessidades gerais da fazenda, lavar roupa e tomar banho ficou muito próxima à rodovia.

Por aquela ocasião, corria à boca pequena pelo sertão que o fim do mundo estava próximo, a Besta-fera com o número 666 na testa correria a Terra matando o povo, destruindo tudo. A besta apocalíptica fazia tremer até os mais valentões. Na maioria das casas havia uma cruz pintada por detrás das portas de entrada, ou então, feita com as palmas da missa de Ramos pendurada num prego. Na Grotão, para maior segurança, havia os dois tipos de cruzes, afinal seguro morreu de velho…

Na fazenda moravam, além dos empregados, as proprietárias – duas “moças velhas”, nome que se dá às mulheres que nunca casaram e que, se presume, permaneceram virgens –, alguns parentes e agregados que completavam o clã familiar.

Certo dia, como de costume, as duas senhoras saem à tardinha para o banho na fonte. Já haviam se despido quando ouviram um barulho.
— Tonha, que é isso
— Sei lá! Um barulho esquisito… Parece um ronco de algum animal!
Maria arregalou os olhos:
— Animal! Valha-me Deus! Se foi isso mesmo então é um monstro!

Resolvida a tirar a limpo o tal barulho, Tonha – nua como nasceu – sobe na cancelinha da fonte e olha ao redor. No lusco-fusco da tarde ela avista aquele animal imenso, dois olhos monstruosos brilhantes como fogo numa carantonha enorme. Trêmula ela faz soar a trombeta do juízo final.
— Acuda-me, meu Pai do Céu! Maria, é a Besta fera! Vamos correr!

Histéricas, totalmente apavoradas saem as duas em desabalada carreira, peladinhas, peladinhas e ganham a estrada. O motorista do caminhão, veículo praticamente desconhecido por aquelas bandas, tomou um susto enorme ao ver as duas em disparada. Primeiro ele pensou que eram loucas, depois percebeu que as coitadas estavam apavoradas mas era com o veículo. Resolveu ajudar colocando a cabeça para fora da janela, gritando:
— Não corram, não corram que é um automóvel!
Ao que Tonha virando-se para a irmã informou:
— Tá vendo!? A Besta tá gritando: “Sebo nas canelas, corram se não morrem!

Maria saiu da estrada completamente desorientada e Tonha sem aguentar mais caiu desmaiada. O motorista assustado para o caminhão, enrola a velha numa toalha, põe na boleia e ruma para Tucano. Ali o médico local reconhece a vítima e trata de medicá-la. Maria foi encontrada dois dias depois encolhida numa moita de espinheiro, olhos esbugalhados em estado de choque. Só veio se recuperar quase um mês após o ocorrido.

Postado em 21/02/2013

Nota: Escrevi esse texto, e alguns outros que publicarei aqui posteriormente, em 1994. Durante todos esses anos ficou guardado num envelope esquecido no fundo de um baú. O fato narrado foi real, tanto que o médico que atendeu as protagonistas foi Dr. Theotônio Martins, ilustre tucanense, cujo nome está inscrito na história do nosso município.
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