Amor Antigo

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Shopping não é lugar para passear, pelo menos é o que penso. Shopping é para compras, consumo às vezes necessário, na maioria das vezes, porém, desnecessariamente.  Entretanto, muitas pessoas entendem que este é o lugar tipo “faz-se de um tudo”: compras, almoços e/ou lanches, cinema, vai-se ao banco, enfim…

Sábado, estou no shopping pertinho da praça de alimentação esperando alguém e fico olhando o vaivém da multidão que se aglomera em frente aos balcões de comida. Pessoas de todos os tipos usando variadas modas passam diante de mim. Olho sem ver, ouço sem escutar, apenas espero perdida em meus pensamentos enquanto os minutos escoam numa lentidão quase secular…

De repente um par de saltos altos tipo agulha, azul celeste, chama minha atenção.  Levanto a vista e vejo um jovem casal suburbano. Ela trajando uma saia longa branca, blusa vermelha, bolsa tiracolo azul celeste comprada em camelô (com certeza by China) combinando perfeitamente com o sapato. Cabelos longos maltratados. Ele calça jeans surrada, camisa de malha com uma estampa enorme na frente, tênis branco sujo. De mãos dadas, olhos brilhantes e cheios de sorrisos de felicidade lá vão eles alheios a tudo, alheios a todos. No mundo só os dois, só um perder-se no olhar do outro. Não carregam sacolas e tampouco embrulhos. Apenas desfilam um amor de outrora, um amor fora de moda onde basta  dar as mãos e caminhar sonhadoramente, trocando segredinhos, juras e promessas em sussurros transbordantes de amor.

Confetes

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Subindo a ladeira ia aquela mulher franzina, arrastando um saco de aniagem velho, meio puído, com alguns buracos pequenos por onde saiam fiapos coloridos. Parecia ser pesado, uma vez que o suor escorria pela testa e ela arfava provocando um ruído de animal que rosna quando vê o perigo. Aqui e ali parava deixando o saco pender molemente no chão, enquanto recuperava o fôlego e as forças. As poucas pessoas que passavam ao seu lado olhavam-na de soslaio, mais ninguém oferecia ajuda.

A ladeira íngreme era comprida e a pobre mulher não estava nem na metade. Fiquei com pena e resolvi ajudá-la. Assim que fui me aproximando, percebi que o saco era maior do que vira de longe e parecia também mais volumoso e, portanto, mais pesado. Notei também que de alguns buracos saía uma espécie de luz amarelada e fiquei bastante intrigada com isso. Imaginei que talvez fosse algum desses bastões de led ou pulseirinhas que usam em festas, uma vez ser impossível que dentro daquele saco houvesse alguma fonte de energia. Outra coisa que me causou espanto também é que a mulher tinha uma aparência cansada, porém tranquila, estava bem vestida e apesar de transpirar muito por conta do esforço, dela exalava um suave perfume.

­- Vou ajudá-la a carregar isso.

Ela recuou espantada, olhando-me atentamente:

– Não, obrigada! Esse é um fardo que só eu posso levar. Agradeço sua delicadeza, mas não posso aceitar sua ajuda.

– Mas falta ainda um bom pedaço para chegar lá em cima! Isto é, se a senhora for até o alto da ladeira, ainda…

– Sim, vou até o final. Mas está tudo bem. Entretanto, aceito sua companhia, porque conversando o tempo passa mais rápido e o esforço parece ser menor.

– É verdade. Vou acompanhá-la sim. Ah, e podemos conversar sobre o que a senhora quiser.

– Ótimo! Você mora aqui perto?

– Sim. Mas não me lembro de tê-la visto por aqui em nenhum…

– Não, não moro aqui. Pelo menos não nesse bairro. Estou aqui só por causa da ladeira. Onde moro é tudo plano. Essa é a ladeira mais alta da cidade, a mais inclinada também, perfeita, portanto, para o que tenho a fazer.

Nem de longe eu imaginava o que ela iria fazer. Por mais que pensasse não atinava com nada! Aliás, começava a achar que aquela mulher era meio amalucada. Onde já se viu sair arrastando um saco velho ladeira acima?!

– Pronto! Chegamos!

Lá do alto as casas e os prédios ficavam pequenos. Os bancos da praça eram pontinhos escuros em meio ao verde dos canteiros. As pessoas pareciam formiguinhas na sua azáfama de trabalho ininterrupto. Durante um breve momento esqueci o motivo que me levara até ali. A voz da mulher ao meu lado tirou-me dessa abstração.

– Sabe, durante minha vida toda carreguei comigo muitas coisas. Passei por situações de todo tipo que se possa imaginar. Tive momentos de alegria e de tristeza como todo mundo. Sonhei um monte de coisas! Muitos desses sonhos consegui realizar, outros não. Consegui sucesso em várias empreitadas e fracasso em outras tantas. Chorei, ri, amei, desamei, fui amada e desamada também… Fiz milhares de amigos, se fiz inimigos não sei, provavelmente deve ter muita gente que não gosta de mim, não vai com minha cara. Nem Jesus agradou a todos, portanto… Contudo, aprendi que nossas escolhas determinam o que somos. Há gente que opta pelo sofrimento e vai passar a vida sendo a pobre coitada ou o pobre coitado. Outros optam pela celebração da vida, mesmo quando está lhes passa a perna em duras rasteiras. A gente pode até ESTAR triste e deprimida, mas SER triste e deprimida é opção. Por isso, quando começo a ficar chorosa, entristecida, amargurada, escrevo tudo que atrai sentimentos negativos em papeis coloridos, nomeio todas as minhas tristezas, dores, raivas, frustrações em tiras de papel, pego um furador e transformo tudo em bolinhas miúdas, pequenos confetes. Coloco tudo num saco velho, procuro um lugar bem alto e jogo fora. Por isso não aceitei sua ajuda. O que tem aqui dentro são meus sentimentos ruins. É hora de me desfazer deles, deixá-los ir embora.

Ela se inclinou para o saco, abriu-o e dele voaram pequeninos confetes coloridos. Num minuto não havia mais nada. Aliás, o próprio saco desintegrou-se. Apenas uma luz suave pairava no alto da ladeira. Sem dizermos mais nenhuma palavra, fizemos o caminho de volta.

 

 

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