Lua Vermelha

 

Da janela do avião avisto uma lua esplendidamente vermelha. Profundamente admirada, olhei fixamente e lá estava aquela lua escarlate saindo por entre nuvens.  Já ouvira falar em lua azul, mas lua rubra nunca! No entanto ali estava ela desfilando sua luxúria diante de meus olhos. Linda! Lasciva! Fêmea que passeava como quem não quer nada, mas querendo tudo, num céu de poucas estrelas. Nuvens rosadas pelo reflexo escondiam-se tímidas, envergonhadas ante a dama de vermelho. Luma* que deixa acarminada a noite em que retorno para casa, após a terceira conexão em aeroportos desse Brasil sem tamanho. Eu ali pálida de medo, pensando que talvez aquela aparição singular fosse o começo do fim, mas ela serenamente vai alonjando, até perder de vista. O negrume lá fora faz meu rosto refletir-se no vidro da janela. Percebo minhas rugas, as olheiras sob os olhos, a pele mais flácida no contorno do queixo. Vem-me o desejo de voltar o tempo, tempo em que eu também desfilava paixão, respirava paixão, amava com paixão. Tempo em que vermelho era meu rosto ardente de amor, tempo em que beijos lascivos se faziam necessários. Fecho os olhos com saudades e sinto meu rosto arder, quem sabe, envergonhado por tais pensamentos. Quando vejo novamente meu reflexo no vidro da janela, noto que minhas faces estão coradas. Aquela lua inusitada, única, inexplicável, por alguns instantes devolveu-me um pouco o passado.

Luma: o mesmo que lua ((Brasileirismo, NE)

 

 

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