Entre linhas

solidao
Segui a linha da calçada, um pé na frente do outro. Não podia cambalear. Não podia cair. O segredo era seguir linhas.
Tentei seguir a linha da vida em minha mão. Era muito curta. Não tinha graça
Segui a linha do pensamento sano, insano, desvairado, retraído, pudico, imoral, com e sem sentido.
Segui a linha da obediência cega, temente, apavorante, libertadora e escravizante.
Segui a linha da paz e amor. Perdi a paz e com ela o amor.
Segui a linha da pauta musical, mas não produzi sonatas, blues, tampouco samba, nem sequer o de roda.
Segui a moda que estava em moda. Todas ou quase todas.
Segui a linha dos fios elétricos pela janela do ônibus. Segui a linha das cercas que passavam rápidas pela janela do trem.
Segui a linha de olhares apaixonados e a linha de contorno de lábios que beijei ora com doçura, ora com sofreguidão.
Segui a linha do horizonte colorido pelo sol que se escondia num exibicionismo exageradamente lindo, até meu olhar não enxergar nada mais.
Passei a vida seguindo linhas, traçando linhas e de quase todas dei conta. Algumas até apaguei. Mas há uma linha que sufoca e lacera a alma tirando a alegria e a vontade de viver que é a pior de todas, é a linha da solidão.

Tempo sem dono

tempo

— Quando crescer, vou ser o Homem de Ferro, mamãe!

O garotinho sorridente, de mãos dadas com a mãe, saía do cinema cheio de desejos e “certezas”. Olhei para aquele rostinho inocente e sonhador e lembrei de mim mesma e do tempo em que quis ser bailarina, psicóloga, morar em Ponderosa 1,, ser vizinha dos Beatles em Liverpool, namorada de Che Guevara e por aí vai. Quando se é criança e adolescente o mundo é tão pequeno! Tudo está praticamente ali na esquina mais próxima e conseguir realizar os desejos é apenas uma questão de tempo.  Talvez dentro de alguns dias, semanas, no máximo, dentro de alguns meses. Quem é que pensa em anos e décadas aos oito, dez, catorze anos?

“Vou ser o Homem de Ferro”… A gente cresce e uma metade dos sonhos a gente até esquece que sonhou. Da outra metade, a que a fica viva na lembrança, trinta por cento faz parte de tudo que começamos e não deu certo. Os vinte por cento que restam é a vida real – quase sempre inimaginável –, mas real. “Vou ser o Homem de Ferro”… Quem vai ter coragem de falar para aquele menino cheio de desejos e expectativas que o Homem de Ferro sequer existe?!  Abortar um sonho é como tirar de quem tem fome o pão que vai diminuir aquela dor aguda de estômago vazio. Esse acordar para o mundo real deve ser algo pessoal e intransferível.  Acelerar ou retardar o processo não é obrigação de ninguém.

Se há uma coisa nesse mundo que o ser humano jamais conseguiu controlar foi o tempo.  Ainda bem! Não consigo imaginar o que faríamos – ou deixaríamos de fazer – caso o tempo dependesse da nossa manipulação.  Ficaríamos aprisionados em mundos loucos sonhados alhures e algures por fanáticos poderosos, pois com certeza os senhores do tempo seriam os detentores da fortuna e do poder. E lunáticos que possuíam essas duas coisas a História registra vários, de Átila, rei dos Hunos, a Hitler a Bin Ladem, só para citar um trio de arrepiar. Graças a Deus que o tempo passou e eles também.

“Vou ser o Homem de Ferro”.  O que aquele menininho não sabe é que para dar conta de toda dor e alegria de viver, para lidar com o lado negro e o lado bom da vida só sendo mesmo de ferro. Atravessar o caminho que pertence a cada um de nós é como abrir portas de uma casa que nos deram de presente e não a conhecemos. Ao abri-las, tanto podemos encontrar o Jardim Encantado quanto o Inferno de Dante.  O duro é que jamais vamos saber o que nos espera sem que abramos as tais portas… Se nossa natureza humana fosse forjada no cristal, bastaria um o leve sopro para nos trincar e  virar caco em segundos. Porém formos forjados no ferro e só por isso suportamos esse caos e essa delícia que é viver.

 1. Rancho que aparecia no seriado Bonanza, série de sucesso nas décadas 60 e 70.

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