O Amor de Serafina

 

Olimpo

Nasceu numa família de anjos. Isto é, todos os quatro irmãos tinham nomes de anjos ou de palavras que a eles se referiam. Pela ordem cronológica vinham: Arcanjo, Samuel, Rafael e Gabriel. O pai torcia para que viesse mais um menino que seria chamado Serafim. Veio menina. Ficou Serafina.

O problema é que a criança nascera com uma perna torta. Talvez não andasse e se conseguisse andar, arrastaria a perna num movimento grotesco. Como dar duas notícias tão ruins ao pai? Era uma menina e, além disso, aleijada. Não poderia ter nome de anjo! Imagine seres tão belos e perfeitos…

─ Vai se chamar Serafina. Ninguém sabe mesmo que é nome de anjo fêmea… Serafim é o macho, mas se Des me deu uma menina mulher, vai ser Serafina e pronto.

A mãe cheia de amor olhava para aquele bebezinho com os olhos cheios de água que teimavam em descer em dois filetinhos salgados pelo rosto.

─ É tão linda! Nossa filhinha é tão linda!

─ O diabo é essa perna troncha! Essa daí a gente vai ter que ficar com ela a vida toda. Vai ficar encalhada. Casa não.

O coração da mãe virou um grãozinho de ervilha de tão apertado! Como alguém pode viver sem conhecer o amor, casar, ter filhos.  Com certeza haveria de aparecer um homem que não ligasse pra essa coisa de aparência e se apaixonaria por sua linda filhinha.

Quando Serafina estava maiorzinha, levaram-na para a capital. O médico que a examinou encheu os pais de esperanças. Fazendo algumas cirurgias e muita fisioterapia, a menina poderia andar, mas com sequela.

─ É uma menina perfeitamente saudável, bonita, alegre. Pode levar uma vida absolutamente normal, com algumas limitações, é claro. Faremos os procedimentos necessários e, na medida do possível, haverá uma grande melhora.

Durante alguns anos foi aquela via-crúcis: hospital, cirurgia, fisioterapia. Hospital, mais cirurgia, mais fisioterapia. Aos seis anos a menina começou a andar com ajuda de uma muleta, mas mesmo assim ainda capengava bastante.

Foi à escola como toda criança. Gostava de estudar, de ler, era esperta, viva. Melhor aluna da classe. Alegre, espirituosa, brincalhona. Fazia amigos com uma facilidade incrível. Serafina estava em todo canto, falava com todo mundo, todos adoravam-na.

Ficou mocinha. As amigas já falavam em namoradinhos, paqueras, suspiravam. Ela começou a gostar do menino mais bonito da escola. Contou para algumas coleguinhas mais próximas e elas incentivaram para que mandasse um bilhete se declarando.

─ Mas e se ele não gostar de mim? Se não quiser nada comigo?

─ Que nada! Ele disse outro dia pra mim que você é uma gracinha! Escreva o bilhete que eu levo e entrego.

Lá se foi aquele pedacinho de papel com uma linha contendo seis palavras e toda a esperança da menina apaixonada:

 serafina1

Veio a resposta no mesmo papel:

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A garganta apertou, as lágrimas começaram a inundar os olhos, mas ela engoliu tudo. Pegou o papel amassou, fez uma bolinha e jogou no lixo.

─ Quer saber? Eu nem gosto dele mesmo, foi só por impulso e brincadeira que escrevi.

Meteu outra conversa no meio e deixou para chorar toda dor, mágoa e tristeza de noite quando todos estavam dormindo. Nunca mais ela disse a ninguém aquelas duas palavras: Eu amo você.

O tempo passou, teve dois namorados, se é que se podia chamar namorado, pois eram do tipo que não iam para porta de casa, não falavam com os pais dela, nem diziam a ninguém que namoravam  Serafina. Passavam o tempo apenas, foi o que ela soube depois que eles falavam, só para ver como era que uma garota manca namorava, se dava tesão, se beijava bem, se dava pra namorar em pé…

Todas suas amigas, primas e conhecidas casaram, tiveram filhos, algumas descasaram. Ela não teve mais ninguém além daqueles dois. Buscou na leitura, no conhecimento tudo o que a vida não lhe dera. Virou uma espécie de enciclopédia ambulante. Tudo sabia e se não sabia ia pesquisar, fuçar nos livros até encontrar as respostas que queria.  Era elogiada, acarinhada, recebida com deferência e referência de ser humano culto e inteligente.  Porém jamais foi amada como mulher.

Um belo dia Serafina deita e não acorda mais. Morreu durante o sono. Serenamente, conforme foi dito por todos.

Ela abre os olhos e se vê no alto de um monte verde e florido, ao seu lado o homem mais bonito que seus olhos já vira, fita-a embevecido enquanto segura-lhe as mãos. Ele a toma nos braços delicadamente e a leva para um templo de mármore branco, cuja entrada é um pórtico sustentado por duas colunas trabalhadas. À entrada ela avista Eros com seu arco e flecha inseparáveis. Sente uma flechada em seu peito, mas não dói, pelo contrário, é invadida por um sentimento inebriante que a enche de felicidade. O homem lindo a coloca num leito macio, perfumado. Baco chega até eles com duas taças de vinho:

─Tome, Apolo, para você e Serafina. Saúdo o amor de vocês.

O casal bebe o vinho servido em taças de ouro. Apolo reclina-se sobre Serafina e a beija de uma forma que nenhum humano é capaz. Levada ao Olimpo, Serafina vive pela primeira vez na vida e na morte sua grande noite de amor. Os raios de Zeus clareiam a noite. Do orgasmo de Apolo e Serafina nasceram as estrelas que brilham no céu do sertão, por isso em nenhum outro lugar elas brilham tanto.

Dizem que em toda a história da humanidade nenhum outro homem e nenhuma outra mulher viveu momento igual.

Suicídio de Piriguete

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O telefone toca insistentemente às cinco e meia daquela manhã de domingo chuvoso e frio. A moça enrolada num edredom florido, cheia de sono esticou o braço para alcançar o celular.

— Alô!

Uma voz estridente e chorosa explodiu do outro lado:

— Pat, vou me matar! Vou me matar e vai ser hoje!

— Eu não tô acreditando que você me acordou a essa hora pra falar isso! Semana passada você falou a mesma coisa e está viva até hoje! É sacanagem! Poxa!

— Desta vez é sério! O Zeca me abandonou e sem ele não posso continuar vivendo?

— Zeca? Mas seu namorado não é o Dado?

— Que Dado nada! Tá por fora! Faz três dias que eu tô ficando com o Zeca. Aquele amigo da Fê, lembra?

— Não lembro e nem quero lembrar, quero é voltar a dormir! Até…

— Não, amiga, não desliga! Tô desesperada!

— Sério? Quem diria… Mas o que houve?

— Tipo assim, ele não quis ir pra balada comigo e eu fui com as meninas. Agora quando cheguei em casa não tinha mais nada dele aqui! Levou tudo! Roupa, tênis, tudo! Só deixou os cedês do Luan Santana…

 — Pelo gosto musical dele, querida, você não perdeu grande coisa não… Luan Santana… ninguém merece…

— Quero morrer – dizia a abandonada entre soluços. – Espere aí…

De repente, ouve-se na maior altura uma voz de taquara rachada entoando: “Se existe amor entre nós dois, não me deixe aqui no chão /Não me deixe aqui no chão, no frio da solidão”…

— Pri, sua louca, baixa esse som! Aliás, deixa tocando. Deixa tocando que aí não precisa você se matar, os vizinhos se encarregam disso, porque acordar ouvindo Pablo às cinco e meia de um domingo de chuva é tudo o que a pessoa quer pra cometer um crime!

— Ai, amiga! Não fala assim não… É sério, viu? Resolvi me matar de verdade. Aliás, liguei pra pedir sua opinião. É que eu fiz uma listinha de tipos de suicídio e tô na dúvida de qual escolho…

— Não tô acreditando, juro por Deus!

— Primeiro pensei em me atirar da janela, mas aqui é primeiro andar, muito baixo, né. Vai que eu não morro e fico em cima da cama toda estropiada, mexendo só a cabeça e comendo tudo por canudinho, igual aquele cara do filme Mar sem Frio…

– Sem Fim! Mar Sem Fim! Mas olha, o viaduto aí da avenida fica a uma quadra… Lá não tem erro. Se atirou, morreu…

A outra nem escutou o comentário sarcástico da “amiga”.

— Pensei também em colocar a cabeça dentro do forno e ligar o gás. Mas eu li uma vez que quem morre assim fica azul. Pô, eu linda maravilhosa do jeito que sou morrer e ficar parecendo a Smurfete não tem graça, né?

— Qual o próximo item da lista? Rápido aí com isso que eu quero voltar a dormir, ok?

— Outra possibilidade era me afogar na banheira aqui de casa. Mas, pô, ia acabar com a progressiva que eu fiz anteontem… Ia ficar parecendo galinha de despacho depois de uma noite toda na chuva… E eu quero estar linda maravilhosa no caixão que é pro Zeca ver o que ele perdeu… Mas se você me prometer que faz uma chapinha depois…

— Pó Parar! Me tira fora disso! Fazer chapinha em defunta nem pensar! Tá doida!

— Bom, também posso pedir uma arma ao vizinho e dar um tiro na cabeça! Tá aí…

— Seu vizinho tem arma em casa?

— Sei lá.

— E como você disse que ia pedir emprestado…

— Ah, eu ia perguntar pra todos eles, né? Que pergunta mais besta essa! Do jeito que essa cidade tem tanto tiro, algum há de ter um revólver, ué!

— Ai, meu Pai! Quero morrer!

— Você também! Ah, amiga! Tô toda arrepiada aqui! Eu sabia que você era minha amiga mas não desse jeito! Então a gente pode fazer tipo Telma e Louise! Aí! Vai ser lindo! Posso até pedir pra Fê filmar a gente se jogando lá do alto da Serra da…

— Cala essa boca, ô doida! Não é nada disso não!

— Pat, péra aí que tem alguém ligando no outro telefone.

A “amiga”, a essa altura completamente desperta, ouviu gritinhos de alegria e muitos “Ah!”, “Oh!”, e um: “Fechado! Vou sim!”.

— Pat, era a Fê dizendo que vai passar aqui mais tarde pra gente ir almoçar na casa da prima ricaça dela, aquela que mora naquele condomínio dos sonhos! Ai! Vai ser demais!

— Ah, tá. E o suicídio?

 —Que suicídio? Olha, depois a gente se fala. Vou dormir um pouco que não quero chegar lá no meio daquele povo chique cheia de olheiras parecendo um urso panda… Beijos! Depois te conto como foi lá… Boa noite, totosa!

A “totosa” levanta cheia de raiva resmungando:

— Deixa eu ir aqui no vizinho, vai que ele tem uma arma…

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