Trocando alhos por bugalhos

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A língua portuguesa possui 435.000 verbetes e em torno de 606 mil palavras se considerarmos os termos técnicos e todos os sinônimos dos principais vocábulos. Por sua vez, cada região apresenta particularidades linguísticas próprias e palavras de amplo uso, porém nem sempre dicionarizadas. Uma coisa interessante é que apesar da imensidão do nosso país, falamos uma única língua de norte a sul, de leste a oeste.

 A língua apresenta um caráter social, pois é por meio dela que há entendimento entre as pessoas e, além disso, ela faz parte do patrimônio cultural e social de cada povo. Como um organismo social, a língua se modifica com o passar do tempo. Novas palavras surgem, outras vão caindo em desuso, algumas adquirem sentido novo. Entretanto, considero que as modificações mais interessantes surgem pela influência popular. A gramática normatiza, cria regras, mas o povo desconstrói a seu bel prazer.

 Falar um português correto, sem dúvida, é muito bonito. Creio, aliás, que é obrigação da escola instrumentalizar este aprendizado de tal forma, que os alunos/alunas saiam do Ensino Médio sabendo se expressar, mediante a linguagem oral ou escrita, com correção. Contudo, não sou xiita a ponto de colocar-me contra a espontaneidade da linguagem popular.  Entretanto, não compreendo o uso indiscriminado de determinadas expressões, quando a pessoa que a emprega concluiu Ensino Fundamental, Ensino Médio e até faculdade.

 Sempre que escuto alguém falar: “Nossa fiquei tanto tempo com as mãos dentro d’água que meus dedos enjiaram/engiaram!”. O verbo usado (enjiar/engiar) não é sequer parente da jia! Na verdade os dedos da criatura engelharam, porque o verbo dicionarizado é engelhar, cujo significado é enrugar.

 Aliás, por falar em engelhar, com a idade chegando, cada vez que me olho no espelho sinto engulhos ao ver minha pele cada dia mais engelhada… Sim, engulhos e não inguios e, se tem engulhos, também há de ter o verbo engulhar (enjoar).

Pegando a carona no engulhar… Como os tempos estão difíceis é hora de economizarmos um pouco e para isso nada melhor do que providenciarmos um mealheiro e colocarmos nossas moedinhas. Esqueça o miaeiro, isso não lhe pertence mais… Mealheiro deriva-se do substantivo mealha, moeda de cobre comum em Portugal há alguns séculos. Ainda derivado do mesmo termo temos o verbo amealhar (juntar mealhas). O miaeiro jogue fora no lixo para sempre!

Outra coisa importante, o verão vai se aproximando do final e março bate à porta, com ele, espero em Deus, as chuvas virão. Como sou prevenida já chamei um pedreiro para dar uma olhadinha na algeroz aqui de casa, não quero saber de goteiras de última hora. Caso ele me diga que a geroz está boa, ficarei em dúvida, pois se ele engoliu o al de algeroz, é bem capaz de ter passado batido por alguma rachadura e aí, haja panela aparando pingo de chuva.

A Linguagem nossa de cada dia…

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Falar é um privilégio reservado aos seres humanos. Quando pensamos em comunicação, a primeira coisa que vem à cabeça é o ato de falar, apesar de a comunicação abranger outros meios como desenhos, palavras escritas, símbolos, cores, gestos, expressões corporais. Entretanto nenhum deles é tão significativo quanto a linguagem oral e a prova disto é a transmissão de culturas ao longo dos séculos, realizadas tão somente por meio da oralidade e de vestígios materiais, como no caso dos índios brasileiros, por exemplo.
Entretanto, a comunicação estabelecida entre as pessoas não se limita apenas à transmissão de mensagens relacionadas ao mundo exterior. Na teia das relações sociais a fala é o meio pelo qual expomos nossos sentimentos, estado de espírito, receios, alegrias, permitindo assim que os outros nos conheçam, ao passo em que também conhecemos os nossos pares a partir do momento em que essa troca é realizada. Portanto, é necessário que a linguagem seja rica e elaborada para cumprir de forma ideal esse compartilhamento.
Os leitores não se assustem, pois não tenho intenção de desenvolver um “estudo” acerca da fala, linguagem, comunicação e etc. Na verdade, pretendo dividir um pouco da minha ansiedade e preocupação em relação ao modo de falar de uma parcela significativa da sociedade e que vem diluindo a civilidade antes presente na comunicação. Sim, porque havia uma civilidade nos diálogos de outrora, civilidade esta que vai sendo substituída pelo uso indiscriminado de palavras grosseiras e termos chulos.
Ultimamente sempre que entro no Facebook leio todos comentários que se encontram na página principal e passo no mínimo quinze minutos lendo e “peneirando” o que fica e o que deve ser ocultado. Todas as mensagens que contêm palavrões eu oculto. Todos os textos com mensagens preconceituosas também. Não sou santa e conheço muitos palavrões, mas quando criança disseram-me o seguinte: “Palavrão a gente aprende, mas quase nunca deve ser dito”. Claro que falei uns bons palavrões no meu tempo de criança – sempre em momentos de raiva – e, da mesma forma os usei quando jovem. Na fase adulta eles entram até hoje inseridos no contexto de uma piada, de uma situação engraçada e mesmo assim entre amigos íntimos. Contudo, o uso indiscriminado de palavrões na comunicação oral e escrita causa-me espanto, principalmente porque na maioria das vezes a coisa é feita de forma gratuita, ou seja, sem nenhuma necessidade, sem que o contexto justifique. A língua portuguesa contém seiscentos e seis mil vocábulos, portanto quem opta pelo nome feio o faz por livre escolha e não por escassez de palavras.
Tenho firme convicção que nada substitui a boa educação e o emprego de uma linguagem amável. Excessos sempre são perigosos. Excesso de nomes feios configura um retrocesso que deve ser evitado. Vamos analisar, por exemplo, a origem de dois termos: comunicação e comunidade. Comunidade vem do latim COMMUNIS, “comum, geral, compartilhado por muitos, público”. Comunicação, do latim COMMUNICATIO, “ato de repartir, de distribuir”, literalmente “tornar comum”, de communis, “público, geral, compartido por vários” é parente de “comunhão. Comunidade e comunicação, portanto, são palavras irmãs, ambas remetem a COMPARTILHAR. Não será melhor então compartilhar uma linguagem mais civilizada, mais bonita? O mundo já está tão de cabeça para baixo, a violência vem se instalando de forma sorrateira em todos os setores de nossas vidas e não podemos permitir que ela contamine a nossa comunicação.
Eu poderia terminar essa matéria fazendo a seguinte reflexão:  “Quem quiser falar grosseiramente que fale, não estou nem aí! Eles que se lixem!”. Como acho que contemporizar sempre é bom e surte o efeito desejado, prefiro conclamar a todos que reflitam sobre a linguagem que estão utilizando, que procurem detectar o que precisa ser abolido, o que pode ser melhorado e que, por fim, sejamos agentes transformadores da nossa linguagem no sentido de aprimorá-la, nivelá-la por cima.
 

No meio da pagodeira a mulher desce a ladeira

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Durante séculos a mulher viveu à margem da sociedade e para elas só havia dois caminhos possíveis: ser mãe e/ou dona de casa. Estudar, trabalhar fora, lutar por direitos de qualquer espécie eram coisas impensáveis e, absolutamente, proibidas. O que qualquer menina deveria aprender era bordar, cozinhar, lavar, passar, enfim, tarefas domésticas e ponto final. Mulher não precisava ter cérebro, precisava apenas ser obediente.

Ao longo da história, porém de forma muito lenta, foi aparecendo uma mudança aqui, outra ali, mas sempre após muita luta e, não raras vezes, derramamento de sangue, para que nós, mulheres, fôssemos reconhecidas como pessoas inteligentes, capazes, empreendedoras. Nada chegou de bandeja, a tarefa foi árdua! A mexicana Sóror Juana Inés de La Cruz, por exemplo, que viveu no século XVII, para frequentar a universidade, disfarçava-se de homem. Já a francesa Olympe de Gouges morreu na guilhotina por ter escrito uma peça teatral que falava de democracia.  Se fosse para fazer uma lista, teríamos milhares de nome tais como: Maria Montessori, Hannah Arendt, Marie Curi, Rosa de Luxembrugo, Golda Meir, Virginia Woolf, Benazir Bhuto e outras centenas de pensadoras que mudaram a trajetória feminina.

Entretanto, somente após a Segunda Guerra é que saímos da redoma doméstica para sermos trabalhadoras, médicas, advogadas, engenheiras, arquitetas, juízas e tantas outras profissões antes exercidas apenas pelos homens. Conseguimos nosso lugar ao sol e não à toa, a Alemanha, maior potência européia, tem Angela Merckel com chanceler desde 2005. A Argentina reelegeu Cristina Kirchner para presidenta e nós colocamos em Brasília Dilma Rousseff.

Poderíamos dizer que, aleluia! a mulher venceu! Afinal conseguimos impor respeito, cobramos a criação de uma Lei que pune os nossos agressores e ela vigora, graças a Deus! E quando falamos de agressão estão incluídos os três tipos: física, verbal e psicológica. Porém, o que dizer quando centenas de mulheres deliram nos shows da banda Mastruz com Leite quando os vocalistas cantam: “Jogaram uma bomba no cabaré…/ Voou pra todo canto pedaço de mulher/ Foi tanto caco de puta voando pra todo lado./ Dava pra apanhar de pá, de enxada e de colher”! Isso tem nome: violência simbólica. Se as mulheres dançam e aplaudem músicas como essa, são coniventes com esse tipo de violência e para elas a Lei Maria da Penha não vigora.

Enquanto Chico Buarque compõe: “Eu vou guardar uma rosa/ Parecida com você / Só pra matar a Saudade / No dia que eu não lhe ver “, o Black Style desce o nível para “”Me dá, me dá patinha/ Me dá, sua cachorrinha” ou “mulher é igual a lata/ Um chuta e o outro cata” e a mulherada rebola até o chão, entrando nesse jogo do absurdo e deixando-se nivelar por baixo, aceitando e enfatizando essa “objetificação do corpo”, conforme assinala o professor Clebemilton Nascimento. Aliás, essa desqualificação da mulher nas letras das músicas, foi o tema da dissertação de mestrado do referido professor. Em suas pesquisas ele observou que o tema mulher está presente em 75% das músicas de pagode na Bahia. Conforme matéria publicada na Muito, Clebemilton declarou que a abordagem das músicas é centrada no comportamento da mulher e a maioria das  letras é “desqualificadora, exigindo uma atitude submissa e demonizando as conquistas feministas, o que, como uma onda, vai penetrando nas camadas populares”.

Fico imaginando qual será a “pérola musical da vez” nesse carnaval. Desmoralizar mais as mulheres não tem como, porque já se chegou ao fundo do poço nesse quesito e com o aval delas mesmas. Se foi para isso que mulheres de fibra, idealistas, pensadoras lutaram e sofreram, coitadas! Pelo menos aqui no meio da pagodeira e do arrocha foi em vão. Começo, portanto, a pensar que nós, independente das questões de gênero, estamos regredindo na escala evolutiva. Não ficarei nada admirada se amanhã ao abrir a janela do meu quarto, avistar alguns humanos pendurados nos galhos da minha castanheira…

Obs: Text escrito em fevereiro de 2012

Bombas de Primavera

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Há séculos, na época em que a civilização romana e o Latim correram o mundo, não se falava em quatro estações do ano. Havia apenas duas assim denominadas: ver[1], veris – tempo bom que tanto podia estar cheio de frutos gostosos como de flores lindas e perfumadas. Era o tempo da cor e do sabor; e hibernus tempus – o tempo mau, tempo do frio, das água abundantes, da chuva intermitente, da neve. Era o tempo em que o mundo mergulhava em brumas cinzentas e frias. Por outro lado, cada um destes dois tempos ou estações, foi dividido em três partes onde primo vere, portanto, seria o começo da boa estação, a primavera tão cantada em prosa e verso. Não à toa o termo primavera é associado a primeiras coisas, a inícios.

Hoje é a primeira manhã de setembro, mês da primavera, início do que seria a boa estação. Manhãs de setembro, por obrigação, deveriam ser coloridas e festivas, trazendo boas novas e sorrisos. Manhãs de setembro teriam que ser cheias de música e de sol. As manhãs de setembro eram para ser tomadas pelo perfume suave de começos onde as flores dão o tom e a cor.

Hoje é a primeira manhã de setembro véspera de uma primavera que se anuncia triste. A promessa que se tem não é de flores em abundância, não é de perfume no ar, não é de tardes de céu azul.  O que existe é a promessa de uma guerra no Oriente Médio. Será o terror para combater o terror. As mídias irão mostrar crianças e mulheres, velhos e jovens mortos em nome da paz. Mata-se para que haja paz. Tortura-se para que haja paz.

Triste primavera a do Hemisfério Sul que irá acompanhar tudo isso. Triste outono do Hemisfério Norte que viverá isso. A paz é o ideal supremo de qualquer povo. Ou pelo menos deveria ser assim. Mas onde ela se encontra? Em cidades cuja violência mata mais que uma guerra? Em países cujos habitantes morrem torturados pela fome? Em nações cuja corrupção avilta e empobrece o seu povo?

Não há paz. E já faz tempo que ela deixou de existir. As flores de primavera são artigo de luxo, caras demais para o bolso de menos de todos nós. As flores de primavera enfeitarão palácios e casas de cores variadas cujos donos brincam de deuses e ordenam guerras para selar a paz.

 



[1]Informações sobre origem da palavra primavera encontradas em http://informaraprendersaber.blogspot.com.br/2010/09/origem-da-palavra-primavera.html

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