Sem medo de entristecer

440919412_01d988bf1c_b

Quando olhei para trás, até onde a vista alcançava, só pude ver uma bruma acinzentada encobrindo as montanhas. O vento frio balançava os galhos da frondosa casuarina que se dobrava num lamento triste. Assim como o tempo à minha volta, eu também me encontrava triste e lamentosa. Buscava entender o sentido das coisas e o sentido da vida. Quanto mais indagações fazia, menos respostas encontrava.

Essa matemática inerente a perdas e ganhos em que muitos dizem que a perda às vezes é um ganho e o ganho, ao contrário, pode significar infinitas perdas, embora meu lado racional entenda, meu emocional não processa dessa forma. Perder sempre será ruim, não importa que benefícios traga, haverá ali aquele vazio. Naquele momento, principalmente, lições de vida, moral da história e todas essas frases feitas eram apenas isso: frase feita de pouca valia. Era meio aquilo que minha mãe sempre dizia: “Com banana e bolo se engana os tolos”.

Parada naquela estradinha sinuosa, refleti que se estou desiludida e quero chorar, deixem! Não digam nada! Chorar copiosamente é como tempestade em tempo de seca, quanto mais cai, mais molha o chão, mais carrega a poeira, mais vida traz. Um “toró de lágrimas” lava a alma e carrega as mágoas para longe, para algum lugar aonde não nos causam mais nenhuma dor. Naquele momento percebi que ficar triste também é preciso. Em meio a tristeza avaliamos melhor as coisas e as pessoas. A tristeza é criativa, a dor de cotovelo é inspiradora. Não sei de nenhum grande poema surgido em meio à alegria extrema.

Por que as pessoas temem tanto a fossa, a tristeza, a desilusão? A vida não é um carnaval, um oba oba infinito onde o riso e a felicidade têm que ser o carro-chefe, portanto dias cinzentos, tempos de desesperança estão incluídos nesse pacote que recebemos ao nascer. Mas sempre haverá um amanhã e com ele o prenúncio de mudanças que, se Deus quiser, serão para melhor.

Mudanças

 

Nostalgia_by_nighty

A semana passou tão rápido que levei o maior susto ao constatar que hoje já é sábado! Não me dei conta que o tempo havia corrido assim. Ainda há pouco era domingo e já será domingo novamente amanhã… Tenho ouvido as pessoas falarem que hoje os dias passam mais rápido. Há uma urgência nas coisas, que faz com que andemos igual ao Coelho Branco da história de Alice, no País das Maravilhas, repetindo a cantilena: “Oh
puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado!”.

Não se para mais para apreciar o voo das borboletas em torno dos canteiros. Nem sequer percebemos se há canteiros… Ninguém nota o suave murmurar da brisa sobre a copa das árvores, nem céu cheio de nuvens que se parecem com carneirinhos. Céu pedrento… Quando menina eu ouvia os adultos dizerem: “Céu pedrento chuva ou vento, ou qualquer outro tempo”. O céu de hoje é outro e de lá não vem apenas chuva, ou sol. Vêm bombas. Caem aviões.

Lembro que bem pequena ia sempre à praia. Era delicioso sentar ali na beirinha da água e ficar fazendo castelinhos de areia. Uma onda mais forte derrubava tudo e entre gritos e muitas risadas, nós crianças, refazíamos tudo. Os adultos, sob os guarda-sóis, ficavam conversando ou simplesmente aproveitando o momento. Vez por outro éramos convocados a tomar um sorvete, chupar um picolé.

A praia de hoje tem futivôlei,  cachorros, vendedores de todo tipo, pessoas que comem desesperadamente e comem de tudo: do pastel ao queijinho assado; da água de coco ao uísque; do peixe assado ao cachorro-quente. Um festival gastronômico regado à brisa marinha e muito lixo deixado na areia e no fundo do mar.

Ia-se às pracinhas, ao Jardim Zoológico, ao cinema do bairro nas deliciosas matinês de sábado. Os cinemas colocavam cartazes anunciando o vesperal do fim de semana e corríamos para ver qual seria a nova fita a ser exibida. E cinema tinha lanterninha. Oh, céus! Estou me sentindo um ser jurássico! Sou do tempo do lanterninha, dos beijos trocados no escurinho do cinema! Beijos hoje dão-se em shoppings, nas praças públicas às claras, sem pudores nem temores. O amor virou artigo raro, ninguém namora mais: “fica”. Não há sensualidade, há sexo.  Antes sexo era uma das consequências naturais do amor entre duas pessoas. Hoje primeiro se faz sexo e, se der sorte, pode até “pintar” o amor depois, mas é difícil acontecer. E como não há um sentimento forte unindo as pessoas, as relações são descartáveis.

Amanhã será mais uma vez domingo… Não foi só a semana que passou célere não, os anos dourados também se foram rápidos demais e não se pode ao menos pedir bis.

Poder despudorado

caos 550_88d9b5ced65634e7e7486066846db850

Depois de vários dias trancada em casa por conta da chuva, ao aparecer um sol pálido desço para o jardim do prédio a fim de aproveitar o calorzinho gostoso. Olho distraída para as palmeiras viçosas do playground. Das mangueiras, do outro lado rua, chegam o canto de passarinhos num alarido festivo. De repente uma vozinha infantil confunde-se com os piados das aves. A voz é infantil, mas a música está longe de ser!

“Prepara, que agora é a hora
Do show das poderosas
Que descem e rebolam
Afrontam as fogosas”
(…)

A garota deve ter uns cinco, seis anos. As amiguinhas, na mesma faixa etária, acompanham-na. Tudo devidamente coreografado e sob os olhares das mães e babás que riem achando muito interessante aquele “show”. Esta cena fez-me lembrar outra. Eu devia ter uns nove anos e estava debaixo do chuveiro cantando a música Castigo de Dolores Duran, quando ouvi minha tia bater na porta:

— Vera! Pare de cantar isso!

Obedeci sem entender o motivo de tal ordem, mas quando saí do banheiro veio a explicação:

— Minha filha, uma menina da sua idade não canta esse tipo de música. Não fica bem na sua idade, cantar: “Se eu soubesse, naquele tempo o que sei agora/ Eu não seria essa mulher que chora / Eu não teria perdido você…”.

Os tempos realmente mudaram. Mudou principalmente a forma de educar. Aquela separação “isso é coisa de adulto” e “isso é coisa de criança”, isso pode e isso não pode são normas que poucos adultos estabelecem para as crianças que estão sob sua responsabilidade.  Não quero de jeito nenhum passar a ideia de que todo mundo era santo no tempo de minha infância e, principalmente, de minha adolescência. Em absoluto! Por baixo do pano sabia-se dos escândalos, mas os adultos procuravam ocultar essas coisas dos pequenos e, embora aprontassem das suas, pregavam o “faço que eu digo, mas não faça o que eu faço”.  A decisão de “não andar na linha” era tomada por opção, vontade mesmo de fugir de comportamentos pré-estabelecidos, não por falta de orientação e/ou ensinamento.

Antigamente mulher poderosa era a que tinha muito poder e/ou influência, ou dispunha de grandes recursos. Hoje, poderosa é aquela mulher mega, hiper siliconada frente e verso e que, rebolando, desce até a boquinha da garrafa.  Pelo andar da carruagem a coisa só tende a piorar pois ela  enfatiza que: “Meu exército é pesado, e a gente tem poder”.

Deus nos ajude!

Ao sabor do vento

 guarda

Minha vida tem sido como um guarda-chuva vermelho que o vento leva e sai girando pelo ar.

Passando entre vales tranquilos e veredas turbulentas, praias ensolaradas e desertos causticantes, ele segue seu curso.

Às vezes se apruma e tem a impressão que sabe exatamente para onde ir; entretanto, uma rajada mais forte lança-o em redemoinhos loucos que o colocam de ponta cabeça.

Ao longo dos anos vai desbotando pela ação do sol e da chuva, seu tecido esgarça aqui e ali pelo passar da vida. Perdendo a força, paira agora sobre a estratosfera e aproveita para se exibir, ainda orgulhoso.

O que o mantém nas camadas mais altas é esperança de dias melhores.

Ele sabe que chegará o momento em que uma brisa morna ou fria, quem sabe? O fará pousar ternamente no solo de onde um dia partiu.

Será o fim? Em absoluto! Apenas o início de uma nova jornada.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...