FUI…

carroça vazia 1

João Basílio morava em Pelicanópolis desde sempre. Seus avós, pais, tios, toda família nascera, vivera e morrera em Pelicanópolis.  A cidade tinha esse nome, segundo a lenda, devido ao pássaro Pelicano, abundante na região em tempos remotos, e bastante justificável, uma vez que esta se encontrava a 400 m acima do nível do mar. Os Pelicanos se foram, mas Pelicanópolis vingou.

João Basílio era um homem simples, honesto e trabalhador.  Não fugindo à tradição familiar foi tropeiro muitos anos. Homem de poucas palavras, tudo via e ouvia, mas levava sua vidinha à margem dos acontecimentos. Todavia, era bastante observador.

Pelicanópolis teve seus momentos de glória. Houve época que pessoas de lugares distantes  chegavam aos montes de mala e cuia. Vinham para morar e, quem sabe, prosperar junto com a cidade. Água boa e em quantidade, eletricidade, excelentes escolas e agricultura produtiva, fizeram de Pelicanópolis a meca da prosperidade.

Mas como tudo que vem, vai, foram-se os anos dourados.  Mudanças politicas desastrosas, desvios de verbas públicas, desmandos, conchavos, politicagem de terceira, foram, aos poucos, minando a cidade. Muita coisa foi perdida. Portas foram fechadas.

João Basílio e suas mulas, atravessaram esses períodos sem manifestar nenhuma reação.  Após mais de trinta anos como tropeiro, requereu aposentadoria dessa vida árdua. Por essa ocasião, Pelicanópolis vivia o burburinho de um duplo mandato: dois chefes políticos no olho do furacão para governar os munícipes. Não se podia compará-los à dupla Batman e Robin porque não eram amigos do peito. Talvez  se assemelhassem a Papa Léguas e o Coite? Zé Colmeia e Catatau? Scooby-Doo e Salsicha? Vai saber…

Em meio a toda essa confusão e como forma de aplacar os ânimos dos eleitores, resolveram  fazer João Basílio prefeito. Afinal, ele era querido por todos, não tinha inimigos, honesto, tranquilo. Estava feito. O novo prefeito de Pelicanópolis era João Basílio.

No dia seguinte a essa decisão, o vizinho de João Basílio acorda às 4h da madrugada e ouve uns ruídos na casa ao lado. Levanta-se, vai até a porta dos fundos e ao abri-la depara com João Basílio ajeitando algumas malas e outros pertences no fundo de uma carroça.

– Vai viajar, seu João?

– Estou indo embora. Vou de mudança.

– Oxente, seu João? Mas logo agora que foi escolhido prefeito?!

– Por isso mesmo! Terra em que João Basílio é escolhido prefeito, não presta mais para Joao Basílio morar.

E partiu.

Nota: Li há muitos anos um texto, cujo autor não me lembro, que narrava uma história semelhante a esta. Meu trabalho foi apenas reinterpretá-la.

Caminho de Folhas

DSC06644

Diante da estante na livraria meus olhos, não sei por qual razão, detiveram-se num livro cuja capa em nada condizia com a beleza do título: “Folhas de relva”. Sabia que era a obra-prima de Walt Whitman, mas o que acendeu alguma coisa dentro de mim foi a palavra folhas. Ali parada veio-me à mente as músicas Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Folhas Verdes de Verão, tradução The Greens Leaves of Summer de Dimitri Tiomkin e que fez parte do filme O Alamo de 1960. Lembrei-me do verso de Cecília Meireles “Perdoa-me, folha seca, não posso cuidar de ti”, recordei sábia frase de Gandhi “As verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore”, mas foi Shakespeare que mais profundamente me atingiu  ao declarar “Vivi muito tempo, e o caminho da minha vida perde-se nas folhas amarelas e secas”.

Minha vida tem sido assim, um rastro de folhas com cores, texturas e formatos diferentes. Foram muito verdes e tenras na infância quando as tirava de árvores ou plantas menores para fazer comidinha.  Com elas preparava ensopados, bifes, sopas que eram servidas às bonecas e a às amigas de brincadeiras entre risos e comentários alegres: “Está uma delícia, comadre! Olha como minha filhinha comeu tudo!”.

Depois de algum tempo o verde de minhas folhas ficaram mais vibrantes e de brilho intenso. Com elas fazia arranjos pontilhados de flores para os cabelos longos. Vivia o tempo do Power Flower, tudo era paz e amor! Folhas da primavera da vida onde tudo é som, cor e movimento. Tempo de sonhos loucos, planos insanos e beijos aos montes.

Agora estou num momento cheio de folhas que vão do verde pálido ao amarelado. Cores ocres salpicadas aqui e ali de vermelho, verde, marrom. Começo a pisar minhas folhas secas com o coração carregado de saudade. Atravesso meu outono com todas as variações que um outono apresenta: há dias alegres, dias tristes, dias de sonho, dias de pesadelo, dias de cantar, dias de chorar. Vivo cada um deles e antes de dormir sempre agradeço a Deus pelas minhas horas outonais.  Enquanto muitos foram colhidos no tempo das folhas tenras ou vibrantes, eu estou aqui vivendo minha estação, a terceira, pois a última é o inverno, quase nu de folhas.  Espero chegar lá e agradecer ao Criador por isso.

Saí da livraria acompanhada por Whitman, minha próxima leitura será Folhas de relva.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...