Versinhos Fantásticos

 

 sol lâmpada 14

Estendi o braço pela janela e apaguei o sol.

Tanta luz não combinava com aquela manhã sem graça e estéril.

O cinza caía bem naquele momento.

Havia uma espécie de mão invisível apertando-me o peito.

O ar pesado tornava difícil o simples ato de respirar.

Era preciso promover forte abalo e romper a monotonia

Com clarões de raios e fragor de trovões.

Estendi novamente a mão pela janela e juntei milhares de nimbos.

Forte tempestade abateu-se sobre mim.

A enxurrada lavou-me a alma, carregou tristezas e afogou lamentos.

Saí à porta, acendi novamente o sol.

Lépida e fagueira fui passear sorridente de braços dados com a vida.

 

Tragédia Nordestina

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D. Candinha chegou àquela cidade na flor da idade. Morena de corpo bem feito, rosto bonito, cabelos negros como noite sem luar. Trazia na bagagem o diploma de professora primária numa época em que os professores eram tratados com muito respeito. Dizia-se até que as maiores autoridades de qualquer cidadezinha eram o juiz, o padre, o prefeito e o professor.

Vinda de outro estado, D. Candinha não tinha familiares no lugar e por isso ficou hospedada na pensão de D. Júlia. “Pensão Familiar” como dizia a placa sobre o umbral da porta. De vez em quando passava por ali algum viajante, porém hóspede fixo, só mesmo a professora.

Pedro Honório tomou-se de amores por D. Candinha. Deu para passar na frente da pensão não se sabe quantas vezes ao dia. Vez por outra aparecia na hora do almoço e acabou ficando freguês do pirão de D. Júlia. Esta, esperta que era, percebia o olhar de peixe morto do ilustre visitante, os salamaleques que este fazia ao ver a professorinha.

— Hum… é me ver um pavão quando abre o leque… aí tem coisa!

Um belo dia, a dona da pensão está na cozinha às voltas com o almoço quando D. Candinha entra pensativa, despeja água da moringa num copo e pergunta:

— D. Júlia, “seu” Pedro Honório é filho daqui mesmo?

— Não, minha filha. Quem o trouxe para cá foi o cunhado, o Zé Pires. Isso tem um bom tempo.

— Admira ele ser um homem bem apessoado e nunca ter… bem… nunca ter casado.

— Olha, Candinha, eu não sei de nada não, não provo uma vírgula, mas dizem as más línguas que lá na terra dele é casado sim senhora! Dizem até que o cunhado trouxe ele pra cá porque o casamento foi obrigado, você sabe, ele já tinha feito mal a moça e o Pedro não quis viver com ela. Quer saber do que mais? Tome cuidado porque ele não é boa bisca e já notei as asas dele arrastando pra você!

—  Oxente, D. Júlia! É impressão sua! – Mas o flerte transcorria à solta.

Passados uns meses de olhares furtivos, suspiros, flores escondidas entre as páginas dos livros escolares e outros que mais, Pedro Honório parte para o ataque direto. Numa tarde em que a pensão estava vazia, ele se aproxima da professora sozinha na sala e faz a declaração:

— Sabe, D. Candinha, desde que a senhora chegou aqui a minha vida mudou. Não faço outra coisa a não ser pensar na senhora. Estou apaixonado e não aguento mais guardar isso só pra mim.

— Pelo amor de Deus, seu Pedro Honório! Alguém pode ouvir…

— E o que tem isso? Por acaso estou lhe faltando com respeito?

— Não, claro que não, mas…

— Não tem mas e nem meio mas! A senhora é solteira, eu sou solteiro, portanto…

— Aí é que está, seu Pedro, aí é que está! Será o senhor mesmo solteiro? Não terá ficado lá pela sua terra alguma esposa abandonada?

Pedro Honório empalideceu, murchou e com olhar triste balançou a cabeça. Desolado, retirou-se. Candinha corre para o quarto chorando e dando como verdadeira a história contada pela dona da pensão. O que faria ela com o amor que nascera em seu peito? A desilusão foi grande e junto veio a febre, adoeceu. Foi preciso chamar Dr. Eraldo para examiná-la.

— Então, minha filha, não se preocupe. Não é nada grave. Seu problema, na verdade, chama-se Pedro Honório!

— Doutor Eraldo!

— Não se exalte, nem se acanhe! Mas sou amigo dele e estou sabendo de tudo. Ele é da mesma cidade que eu e lhe digo: nunca casou! Foi noivo de uma moça lá, estava de casamento marcado, porém a noiva se apaixonou por outro rapaz e abandonou Pedro Honorário. Foi por causa disso que o Zé Pires o trouxe para cá. Essa conversa de que ele era casado surgiu aqui, mas é mentira. Se você quiser confirmar o que estou dizendo procure o Zé Pires.

— Doutor Eraldo, sei que o senhor é um homem de palavra e não iria mentir a respeito de um assunto tão sério! Acredito piamente em tudo o que acaba de me contar.

A partir daí o namoro dos dois corria num mar de rosas. O casal era visto sempre junto e ficou combinado que assim que dessem as férias escolares, Candinha iria para sua terra natal comunicar o fato à família, preparar o enxoval e, na volta, traria os pais e irmãos para conhecerem o namorado e acertarem a data do casamento.

Já de férias, Candinha vai passar uns dias na fazenda dos pais situada num povoado perdido no interior de Pernambuco. Certo dia, no final da tarde sente uma dor aguda na virilha e é levada às pressas para a cidade. No meio do caminho a professora piora e é operada em caráter de urgência num posto de saúde à luz de lampião de apendicite aguda. Passa muito mal após a cirurgia e fica entre a vida e a morte. A escola é informada da situação por meio de um telegrama. Tempos depois, um viajante se hospeda na pensão de D. Júlia e comunica a todos o falecimento de Candinha.  Pedro Honório chora copiosamente a morte da amada. Cumpre seu luto em silêncio. Em meio à dor, conhece uma boa moça que o apoia em tão delicado momento. Oito meses depois casam-se. Menos de quinze dias após o casório, Pedro Honório passa em frente à Pensão Familiar justo no momento em que Candinha vai saindo de um carro. Mais magra, ainda um pouco pálida, amparada por D. Júlia. O choque paralisa-o. A emoção foi demais para o pobre homem que a partir daquele dia não foi mais o mesmo.

Candinha jamais se casou e durante toda sua vida cuidou do ex-futuro marido. Dá-lhe os remédios na hora certa cuida dele como se fosse um filho. Anos após o falecimento desse “Romeu” nordestino, a nossa “Julieta” não se cansava de perguntar:

— Por que não escrevi contando o que havia acontecido? Por quê?

Corpo Fechado

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O biongo começava suas atividades antes das cinco horas da manhã. Quatro e meia da madrugada mais ou menos, Seu Romão escancarava as duas portas de madeira meio carcomidas onde se viam restos de tinta azul. A portinhola lateral abria para o beco do mijadouro, assim chamado por ser o lugar onde os fregueses urinavam. Todos os dias era preciso jogar um balde de água com creolina para diminuir o fartum.  Antes de o nascente começar a espantar a noite, os fregueses entravam no local, encostavam suas enxadas em algum canto e pediam café preto servido em copo de vidro ou uma talagada de cachaça, ambos, segundo diziam: “Pra terminar de acordar, Seu Rumão, que trabaio de roça é trabaio duro”.

Naquela manhã, Seu Romão lavava uns copos enquanto três fregueses sentados em tamboretes a um canto conversavam. Um deles picava um pedaço de fumo com uma faca pequena e dava boas risadas. Talvez por isso ninguém percebeu quando Apolônio entrou puxando um pouco a perna, violão pendurado ao ombro e olhos injetados.

— Rumão, me dê um litro de cachaça cheio e uma garrafa, das maior que você tiver, vazia. — Enquanto falava colocava sobre o balcão uma cascavel segurando com firmeza a cabeça da cobra.

Ao voltar com o pedido, Seu Romão dá um pulo para trás gritando assustado:

-— Apolonho, seu fio da peste, que desgraça é essa! Onde cê achou essa cobra?

— Eu não achei ela não, Rumão, ela que me achou.

Os fregueses que já estavam no local e os que foram chegando formaram uma roda em volta de Apolônio.

— Passei a noite numa cantoria lá na bodega do Mané da Cota. Tinha eu, mais o Zé do Ezequié e o Tonho da sanfona e o povo que foi aparecendo e enchendo o lugar. Tocamos, bebemos e cantamos até umas quatro e pouco. Eu tinha emendado desde o sábado, tava cansado e resolvi ir pra casa. Pra encurtar caminho, entrei pelo brejo do Jonas Ferreira, pisei numas palhas de bananeira e senti uma coisa pular no meu pé e a dor fina. Com o susto, o violão caiu. Olhei pra baixo e se debatendo embaixo do violão tava ela. Viva ainda. Do meu pé corria dois filete de sangue. A infeliz tinha me mordido. Aí, não nego não! O sangue me subiu pra cabeça! Peguei a bicha pelo “cangote”, apertei bem e mordi o mais forte que pude. Quebrei o infeliz do dente, mas matei essa desgraça!

As pessoas ouviam em silêncio aquela história. Olhos arregalados de espanto. Respiração presa. O dono do biongo rompeu aquele silêncio sepulcral:

— Oxe! História mais besta!  Você matou a cascavé a dentada?

Apolônio tirou a mão que ainda segurava a cobra e todos puderam ver um rasgo por onde escorria sangue. Sem dizer nada ele colocou a cobra na garrafa vazia e derramou a cachaça dentro.

— Traz um copo!

— E ela lhe mordeu, Apolonho? — Perguntou um dos fregueses

— Bem aqui, ó. — E suspendeu o pé, naquele momento já inchado, onde duas marcas arroxeadas eram vistas perfeitamente.

— Você tem que ir agora mesmo tomar o soro na farmácia do Seu Hélcio! O veneno já tá fazendo efeito, olha a perna como já tá inchando! O Paulo da rural leva tu lá. Quanto menos movimento fizer, menos o veneno se espaia.

— Amigo Juju, tá pra nascer a cobra que vai me matar. Ela já morreu porque eu matei, mas a mim cobra não mata não. Tenho o corpo fechado. — E virou a cachaça que estava no copo de um gole só.

Naquele dia, ninguém bateu feijão nas roças, menino nenhum foi pra escola, nem dona de casa cozinhou. O biongo encheu de gente. Quando não cabia dentro nem mais uma cabeça de alfinete o passeio ficou repleto e daí a rua. Naquele povoado perdido nos cafundós do sertão, só o marceneiro trabalhou, preparando o caixão pro violeiro mais famoso da região, aquele que enchia os dias e as noites de música, tornando a vida de todos mais alegre.

Em frente ao balcão, Apolônio ia enchendo e esvaziando o copo. Quando a garrafa ficou vazia, só restando a cobra, pediu outro litro de pinga e tornou a encher o vasilhame. Depois de oito horas e cinco litros de cachaça, o pé desinchou, as marcas da mordida desapareceram, os olhos injetados clarearam, a mão que antes tremia ao pegar o copo, firmou-se. Pegando o violão – até aquele momento mudo e encostado ao pé do balcão – Apolônio se levanta:

— Bom, agora tá na hora de todo mundo ir pra suas casas pois não foi destas vez que vocês me velaram. Tenham uma boa tarde.

O povo foi abrindo espaço enquanto o violeiro passava tocando e cantando com bela voz uma de suas músicas preferidas.

“Sempre, às seis horas da manhã,

No Largo do Maracanã,

Eu ouço com emoção

Uma mensagem que o sino,

Da igrejinha do Divino

Dirige ao meu coração”[1]

 Dizem, não sei, não provo uma vírgula, que vem daí o costume de se “curtir” cachaça de alambique com cobra morta.

 


[1] Trecho da música Deusa do Maracanã, gravada por Nelson Gonçalves, muito cantada pelo saudoso Zé do Apolônio.  Sempre que ele me via passar com a roupa da Escola Normal, ele cantava: “Vestida de azul e branco/ trazendo um sorriso franco/ num rostinho encantador / minha linda normalista/ rapidamente conquista /meu coração sem amor…”.

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