A Bênção

 images

Aquela estranha família morava no casarão antigo do final da rua. Pai, mãe e dois filhos todos muito altos. O que causava estranhamento era o fato de todos serem muito parecidos em tamanho, peso e fisionomia. Mas pareciam clones do que parentes.

Ali ninguém trabalhava, ninguém fazia nada. Nem mesmo os filhos, uma vez que repetiam seguidamente de ano. Apesar disso, nada lhes faltava. Comiam, vestiam, passeavam, mas dinheiro mesmo fruto do trabalho de algum deles, nada. E tinham ares pomposos, altivos, olhavam os pobres mortais com nariz empinado, passavam pito nos demais com empáfia própria de ditadores.

Os vizinhos tratavam-nos respeitosamente, com certo temor e muita distância. Melhor não cutucar a onça com vara curta… De onde tinham vindo, para onde iam e o que faziam naquele lugar, ninguém dava conta. Mas como todo mistério um dia tem seu fim, com este não foi diferente. Certo dia, um primo distante de um dos vizinhos chegou à cidade para visitar os parentes e viu a estranha família passar à tardinha pela praça da cidade.

– Não sabia que Lemos e sua família tinham se mudado para cá.

– Você os conhece? – inquiriu um dos presentes.

– Sim. Fazem parte da mesma igreja que frequento.

– É mesmo? E qual a profissão do Lemos lá em sua cidade?

– Olha, a maior parte do tempo ele estava quase sempre desempregado. Queixava-se que era muito perseguido nas empresas em que trabalhava e acabava saindo.

– Ué? E como sustentava a família?

– Ah, o Lemos? Bom, geralmente vivia de bênçãos. As bênçãos eram a fonte de sustento dele.

–  Mas que bênçãos são estas? Algum benefício novo do governo?

O informante deu boas gargalhadas e começou a explicar:

– Não, não! É assim, lá na igreja tem muita gente abastada, quando um irmão fica desempregado ele pede bênçãos a quem pode e as pessoas então abençoam com mantimentos, dinheiro, roupas, passeios e viagens da própria igreja. Nunca mais os tinha visto por lá, soube que estavam numa cidade fazendo levantamento para ver a possibilidade de abrir um novo núcleo de nossa igreja, mas não passou pela minha cabeça que fosse aqui. Veja só que coincidência! Aqui na minha cidade.

O morador quedou-se mudo por uns instantes. Depois muito seriamente retrucou:

– Olha, por aqui nós damos outro nome a isso que você chama de bênção. Aqui quem não faz nada é malandro e quem sustenta malandro é otário. Por essas bandas de cá bênção a gente recebe de Deus e mesmo assim só por merecimento. Portanto esse tal de Lemos trate de tirar o cavalinho dele da chuva, porque a única bênção que a gente tem pra ele é trabalho no cabo da enxada aí nas roças de milho e feijão. Desaforo! Até Jesus trabalhou na carpintaria do pai e esse tal de Lemos vivendo da bênção alheia! Desaforo!

 

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...