Recortes

 

Fresta

 

Pela fresta da porta vejo teu vulto

Se é sonho ou realidade, não sei.

Pela fresta da porta vejo vários vultos

Passam sorrateiros, ofuscados

há uma bruma que desce sobre eles.

Pela fresta da porta vejo imagens borradas

misturadas, indefinidas, cinzentas.

Foram-se as cores, apagaram-se os contornos.

Pela fresta da porta passa minha vida.

Não consigo vê-la, mas posso senti-la.

Há um gosto amargo de saudade do que se foi.

Amor d’outros tempos

 

casal-antigo

 

O melhor tempo esconde longe, muito longe
Mas bem dentro aqui, quando o bonde dava a volta ali.
Caetano Veloso – Trilhos Urbanos

Salvador, anos cinquenta.  Naquela época Salvador era a própria Bahia. Quem morava no interior e ia à capital, dizia: “Vou à Bahia”. Afinal, esta “Bahia” era um mundo fascinante, onde a elegância desfilava pela Rua Chile os últimos lançamentos em voga no Rio de Janeiro e em São Paulo. A cidade mágica de dois andares exalava todos os tipos de cheiros e oferecia um mundo de sabores capaz de satisfazer aos mais refinados paladares.

Vestidas em roupas bonitas, próprias ao calor do verão, Judite e sua amiga Carmem admiravam a vitrine da Casa Sloper, um local onde se achava de tudo: bijuterias, perfumes, bolsas, sapatos, roupas lindas, enfim, um mundo que não cabia no bolso de nenhuma das duas.

 – A gente podia entrar só para dar uma olhadinha!

– Nada disso, Carmem. Tenho que comprar uns tecidos nas Duas Américas, mas primeiro quero dar uma passadinha na Etam. Vamos olhar bem os vestidos à venda e tentarmos memorizar os mais bonitos. D. Mercedes quer que eu faça um vestido para a filha mais velha e amanhã vai passar lá em casa para ver os modelos. Se eu conseguir fazer isso, ela vai adorar, pois só assim vai sair por aí dizendo: “O vestido de Rosália foi comprado na Etam! Caríssimo!”.

Após as compras, as duas desceram para a Praça Municipal. Iam à Sorveteria Cubana, como sempre faziam quando vinham ao centro, e já se fazia um pouco tarde. Dali até Brotas era uma viagem! Tinham que ser rápidas. Com sorte encontraram uma mesa vazia no calçadão e pediram duas bananas Split – a sensação do momento. Judite deu um suspiro e comentou:

– É linda essa vista da Baía de Todos os Santos, o Forte de São Marcelo, os saveiros com suas velas coloridas… Não me canso de olhar…

– Pois devia era olhar aquele rapagão simpático que não tira os olhos de você e que está sentado na mesa em frente… – retrucou a amiga.

Judite dirigiu o olhar para onde Carmem tinha dito e viu um homem por volta de seus vinte e tantos anos, bem vestido em seu terno de linho branco, sorriso largo e olhar astuto. Ela abaixou os olhos, sentindo que o rosto pegava fogo, acanhada. Quando o garçom se aproximou antes que qualquer uma das duas pudessem ver o valor a pagar, o cavalheiro aproximou-se dizendo:

– O sorvete das moças é por minha conta. Muito prazer, Everaldo.

Carmem estendeu a mão.

– Prazer, Carmem.

Judite, trêmula, sentiu uma mão morna que segurou a sua longamente. Não sabia o que dizer. Parecia estar num outro plano onde tudo o que havia era aquela sensação arrebatadora.

– E qual é sua graça, moça bonita de olhos sonhadores?

– Judite.

Everaldo, sem nenhuma cerimônia, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa das moças. Conversou, perguntou, fez as duas rirem – sempre com os olhos fitos na modista – até que Carmem deu um gritinho.

– Deus do céu! Quase cinco e meia! Vamos correr ou perderemos o próximo bonde!

As duas saíram apressadas. Everaldo carregando os embrulhos, ajudou ambas a subirem o estribo do bonde, entregou as compras para Judite e perguntou:

– Quando lhe vejo outra vez!  – Sem pestanejar, num impulso ela respondeu:

– Daqui a uma semana!

– Está marcado! Espero por você aqui na Praça Municipal. – As últimas palavras foram praticamente gritadas, porque o bonde já estava em movimento.

Existe amor à primeira vista? Muitos dizem que não, mas para Judite fora amor à primeira vista. A partir daquele encontro inesperado e pelos próximos meses ela não tirou aquele homem do pensamento. O pouco dinheiro que ganhava com suas costuras, tirando o que dava para as despesas da casa e era entregue as duas tias que a criara, era gasto com tecidos para vestidos novos feito madrugada a dentro. Ou para comprar as bijuterias mais baratas na Sloper. O pedido para o namoro foi feito conforme as normas sociais da época. Everaldo apresentou-se às tias, deu nome e sobrenome, contou ter nascido em Ilhéus e desde muito jovem viera para a Bahia trabalhar na firma de exportação de cacau de um tio, onde era gerente. Estava apaixonado pela sobrinha querida das duas e tinha sérias intenções.

Foram exatamente dez meses de felicidade total para Judite. Após três meses de namoro na porta, veio o pedido de noivado acompanhado de uma linda aliança e com vistas a casamento num prazo máximo de seis meses. A partir de então, a máquina de costura não teve mais sossego. Além dos vestidos que a freguesia leal de Judite levava, havia a preparação do enxoval. Judite não tinha mãos! Até emagrecera tamanha a correria.

No auge dessa felicidade, certa noite, Carmem, acompanhada pelos pais, bate à porta de Judite pedindo para conversar com ela e com as tias. As três se reúnem na sala, Carmem e sua mãe sentadas, o pai em pé. Durante um minuto ninguém disse nada. O ar ficou tão pesado que era quase possível tocá-lo. Por fim, seu Carlos pigarreou e começou a falar.

– D. Mercedes, D. Carolina, Judite, sinto imensamente ser portador de más notícias para as senhoras, porém como amigo da família e como pai, sinto-me na obrigação de contar-lhes o que fiquei sabendo. Conversando com antigo colega de escola o qual não via há vinte anos, amigo esse nascido em Ilhéus e que para lá voltou depois de findo os estudos aqui na Bahia, por acaso falou da família Oliveira Dias. Na hora lembrei que seu noivo, Judite, tinha esse sobrenome e falei dele, contando, inclusive que o mesmo era noivo da melhor amiga de minha filha. Num primeiro momento, meu amigo disse que certamente não se tratava da mesma pessoa, pois Everaldo Oliveira Dias era casado e pai de três filhos. Concordei, com certeza não era a mesma pessoa, mas quando lhe disse aonde o sujeito trabalhava e o descrevi, meu amigo corroborou: “É ele mesmo”. Como estávamos na Cidade Baixa, ele me pegou pelo braço, fez-me entrar em seu veículo e fomos à Firma de Exportação Oliveira & Irmãos. Lá estava Everaldo. Fiquei tão indignado com a sem-vergonhice dele, que o chamei à parte e tomei satisfações, afinal Judite é como uma filha pra mim, vi-a crescer, acompanhei seus passos desde que ficou órfã e veio morar com as senhoras. Ele não negou nada. É, de fato, casado e pai de três filhos.

Pode-se imaginar o choque que foi para todos ali naquela sala! As tias esbravejavam, rogavam pragas contra o mau caráter, fingidor, aproveitador, mentiroso!

– Aquele descarado teve a petulância de sentar aqui neste sofá e comer quindim que fiz especialmente para ele! E os almoços, Mercedes, que fizemos para aquele crápula?! Ah se eu soubesse disso naquela época…

Enquanto as tias falavam pelos cotovelos, Judite permanecia na mesma posição: sentada, sem mexer um músculo, olhos muito abertos e pálida como papel. Sem dizer uma palavra levantou-se e foi para o quarto. D. Mercedes foi atrás. As visitas retiraram-se.

– Minha filha, não fique assim não. Melhor saber agora do que depois de casada, sim porque do jeito que ele é salafrário, seria capaz de cometer bigamia.

Voltada para a parede, numa voz que mais parecia um sussurro Judite soltou a bomba:

– Estou grávida.

Essas foram as últimas palavras ditas por ela. Por mais que as tias a apoiassem, cuidassem e lhe dessem amor e carinho, nunca conseguiram fazê-la falar. Enquanto perdia peso, a barriga crescia. Continuou costurando, a contragosto de D. Mercedes e D. Carolina. A aliança de noivado não foi tirada do dedo. Para não cair, Judite colocou um anelzinho menor na frente. Pariu uma menina sem dizer um ai. Quem cuidou do bebê foram as tias. Judite continuava com aquele olhar triste, perdido em algum lugar que ninguém sabia onde era. Seis meses após o nascimento da filha, encontraram-na debruçada sobre a máquina de costura. Estava morta. Na preparação para o funeral, fizeram de tudo para tirar a malfadada aliança de noivado, mas o dedo contraíra-se de tal forma que ninguém conseguiu arrancar-lhe o símbolo daquele amor inexplicável.

Dizem que não se morre de amor, mata-se, supostamente, em nome do amor, mas morrer de amor só em filmes, dramas, livros. Judite contrariou esse princípio. Judite morreu de amor.

 

Nota: Todas as casas comerciais citadas no texto, de fato existiram. Da mesma forma a personagem do texto é real bem como sua história de vida e morte. Apenas lancei mão da licença poética para contá-la.

Aconselho aos saudosistas a leitura do texto encontrado n o link abaixo.

http://maisdesalvador.blogspot.com.br/2011/08/rua-chile.html

 

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