Seguindo Nuvens

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Abriu os olhos, mas o lugar estava encoberto por sombras. Uma pequena faixa de luz escoava pela porta entreaberta, mas não dava para ser ver quase nada. As cortinas estavam cerradas. Havia um forte cheiro de amoníaco que penetrava por suas narinas e, num primeiro momento, causou-lhe enjoo. Era um quarto grande com camas encostadas nas paredes, paredes revestidas até a metade por velhos azulejos brancos, rejuntes encardidos e pintura que descascava em vários pontos.

“Que lugar é esse, meu Deus? Onde será que estou? Cadê Jaci? E  esse cheiro ruim? Por favor, alguém me tire daqui!”.

Embora estivesse desperta e momentaneamente lúcida, a velha senhora não conseguiu emitir um único som, nem mexer um só músculo. O olhar perdido entre as sombras da noite iluminou-se com doces lembranças de tempos que se foram. Viu-se menina correndo pelos imensos jardins do casarão de Roma[1]. Ela e as irmãs brincavam entre canteiros de flores e arbusto bem cuidados ou simplesmente deitavam-se sob a copa frondosa das árvores rindo e conversando. A mãe sempre muito severa mandava que uma das criadas fosse chamar as meninas. Onde já se viu tanta risada e barulho e logo no jardim onde qualquer um podia vê-las?

“Deje  las chicas, Domitila, es el momento de disfrutar de la vida con alegría. Eres muy dura con suas filhas!”. Retrucava o marido em sua linguagem mista de espanhol e português.

“Mamãe era tão severa! Em compensação não havia mais ninguém com a elegância, o refinamento e bom gosto dela. Colocou-nos para aprender francês com Monsieur Gerard. A parte que eu mais gostava era quando ele falava sobre a Revolução Francesa. Eu adorava a história de Maria Antonieta! Mamãe mandou vir de Paris todo meu enxoval de casamento…  Foi de Paris ou da França? Não lembro direito agora? Mas que bobagem, Quita, Paris é capital da França. Agora dei para atrapalhar as coisas…”

Na verdade, há muito ela atrapalhava os nomes, fatos, datas, pessoas. Este fora o motivo de terem-na colocado naquele lugar. Embora não lembrasse, já fazia mais de dez anos que ela estava ali.

“Meu casamento foi tão lindo. Na verdade, eu não estava apaixonada por Domingos, mas era muito namoradeira. Quando mamãe soube que eu beijara o filho da cozinheira – e como era lindo o filho da Zulmira! Foi só um beijinho rápido, mas mamãe deixou-me uma semana trancada a pão e água. Tenho certeza que foi ela quem convenceu papai a arranjar o meu noivado com o filho do senhor Serra, também espanhol da Galícia, tal como papai. Saí do castigo comprometida com Domingos Serra e o casamento demorou o tempo de o enxoval vir de Paris.  Domingos era um bom homem. Engenheiro da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco (EFBSF), era um homem calmo, paciente, responsável, educado… Que horas são agora? Vou chegar atrasada ao meu casamento! Ainda nem vesti meu lindo vestido de noiva! Ni, ó Ni, a carruagem já chegou? “

A anciã revirava os olhos mostrando uma grande aflição. Diversas vezes abriu a boca sem um único dente como se quisesse chamar alguém, pedir ajuda, entretanto aquele imenso quarto permanecia em silêncio. A única coisa que se ouvia era a respiração vinda das outras camas do local. Ninguém aparecia para ver se todos estavam bem, se alguém ali precisava de alguma coisa.

“Esses meninos estão crescendo rápido. Meus filhinhos. Seis filhos… que filhinhas lindas as minhas! E meus rapazinhos? Tão educados… Oh meu Deus, Domingos faleceu! Como farei para criar seis crianças? (…) Fafá, venha cá, meu filho, leve essa encomenda para D. Marise, é o vestido de seda dela que já está pronto, não esqueça de dar a notinha e esperar pelo pagamento e diga obrigado quando receber, viu? Tenho tanta costura para fazer…  Ser Madame Serra a melhor costureira de Salvador não é fácil! (…) Jaci, minha filha Jaci, tadinha. Casou com 18 anos e aos 21 já está viúva e com dois filhos pra criar…  Cadê Jaci? Por que ela não está aqui? Que lugar é esse em que estou? Por que está tão escuro.  Fafá morreu? Meu Fafá morreu? Oh meu Deus do céu! Não pode ser verdade… Onde está Jaci? Desde que ela ficou viúva passamos a morar juntas. Onde ela está? Quem é esse que está aqui perto da cama? Ah! É você, Fafá? Que bom meu filho! Faz tanto tempo que não lhe vejo… que saudades meu filho! Pegue minha mão, Fafá, assim. É tão bom estar perto de você! E essas nuvens macias em que estamos, Fafá, ela está nos levando, não é? Vamos para longe, filho?”.

A velha senhora fechou os olhos, esboçou um sorriso tranquilo, deu um pequeno suspiro e aquietou. Na manhã seguinte, os funcionários do asilo encontram-na morta. Sua filha Jaci foi avisada. O Alzheimer tirou-a do convívio familiar anos antes. A morte a tirara desse mundo durante a madrugada. Os filhos de Fafá que moravam no interior, só vieram a saber do ocorrido anos depois.

 

 

 

 



[1] Roma: bairro da Cidade Baixa em Salvador-Bahia.

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