Funebris[1] Marias

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Todas nasceram em 1946. Três delas no mesmo dia e mês: 21 de setembro. As outras duas vieram ao mundo dez dias após. Filhas de cinco grandes amigas, o nascimento destas meninas virou um grande acontecimento na pequena cidade do sertão baiano. Contam que suas mães cresceram na mesma rua, casaram na mesma época, mudaram-se para a mesma avenida, engravidaram ao mesmo tempo. Com tantas coincidências, fizeram um juramento: se parissem meninas, todas se chamariam Maria. O juramento foi cumprido religiosamente e daí surgiram as Marias: Maria da Graça, a Gracinha, Maria de Lurdes, a Lurdinha, Maria da Glória, a Glorinha, Maria de Fátima, a Fafá, Maria José, a Zezé.

Gracinha, Lurdinha e Glorinha, ao nascerem, revolucionaram a Avenida Dois de Julho. A única parteira da cidade – famosa pela sua competência e cuidado com as parturientes e os recém-nascidos – ia de uma casa para outra numa azáfama sem fim para atender às mães que berravam a cada contração.

– Providencie água quente que esta daqui não demora a parir, a criança já coroou.

– Traga lençóis limpos e uma bacia grande. Daqui no máximo dez minutos o bebê sai.

– Quero o quarto vazio agora! A cabeça da criança já está saindo.

E assim, Mãe Júlia deu conta de três partos, sozinha. Seu corpo magrinho, frágil, adquiria uma força inexplicável na hora de atender às mulheres em trabalho de parto. Ao pegar a criança conversava baixinho com ela, dizem que lhes dando boas vindas e desejando-lhes uma vida feliz. Mas nunca se soube ao certo que palavras eram proferidas nos pequenos ouvidos. O fato é que por mais que nascessem berrando, os bebês eram envolvidos por uma calma inexplicável quando Mãe Júlia sussurrava para eles e dava-lhes o acolhimento do amor. Dias depois, com um pouco menos de correria, mas não menos gritaria, a parteira entrava e saía de uma casa para outra a fim de receber Zezé e Fafá que vieram ao mundo com trinta minutos de diferença.

A fama das Marias não se restringiu apenas ao nascimento. Apesar de ninguém chamá-las “Maria”, qualquer alvoroço, arte, bagunça, vidraça quebrada ou novidade, na Avenida ou na escola surgia o comentário: “As Marias estão aprontando!”.

Dessa forma as meninas cresceram unidas e solidárias: aonde uma fosse as outras quatro com certeza iriam também. Quando Glorinha pegou sarampo, na mesma semana as outras estavam com o corpo pipocando de pequenas manchas vermelhas. O aniversário então era um acontecimento, pois apesar dos dez dias de diferença, festejavam num único dia. O baile de quinze anos foi o mais famoso de todos os bailes de quinze anos que houve no lugar. Nenhum outro lhe chegou aos pés em animação, beleza e comilança.

O tempo passou, os namorados apareceram, vieram os casamentos e a partir de então a vida das Marias mudou. Saíram da Avenida, cada qual para uma rua diferente. Fafá foi morar na capital e apenas Zezé continuou na casa onde nascera, pois ficou solteirona.

Os afazeres domésticos, o trabalho, os filhos, a vida enfim, fez o que ninguém imaginou: afastou as Marias. Cada uma seguiu seu rumo, seu destino, deixando para trás a época dos folguedos, sonhos e aventuras. Raramente se encontravam, mesmo assim nunca as cinco de vez. Celular e internet quando viraram moda em sua cidade por volta de 2008, as Marias já estavam com 62 anos e preferiam ver tevê a lidar com essas modernidades.

Em janeiro de 2015 morre João Carvalho tio de Zezé, senhor muito conhecido, ex-prefeito, político influente no cenário local até seu último dia de vida. O velório foi realizado na Câmara Municipal e após mais de trinta anos as cinco Marias se encontram. O que era para ser um ambiente de tristeza e choro acaba se tornando uma social animada, com muitos abraços de reencontro. Amigos e amigas que moravam em outras cidades e até em outros estados, reunidos pela morte de João Carvalho, conversavam a um canto, numa resenha que trazia risos, brilho aos olhos e muita animação. Quando as Marias ficaram sós aí a conversa toma um  novo rumo.

– Vocês viram a Noêmia? Se a encontrasse em outro lugar não reconheceria! Meu Deus! Como a velhice fez mal a pobre coitada! O pescoço tem tanta pelanca que mais parece um papo de peru.

A maledicência de Fafá levou-as às gargalhadas, a ponto de alguns presentes olharem-nas de forma atravessada, o que fez Zezé exclamar em voz alta:

– Tio João era mesmo muito engraçado com suas tiradas irônicas, tadinho, vou sentir tanta falta… – E uma lágrima caiu lentamente do canto de um dos olhos…

– Cruz credo, Zezé, você não mudou nada. Disfarça que é uma beleza. – Comentou Glorinha.

E continuaram o bate-papo animado não só durante o velório, mas em todo o percurso até o cemitério. No caminho de volta, Fafá, que enviuvara há dois anos comunicou:

– Amigas, estou me mudando para cá no próximo mês e vou avisando logo: não perco mais um velório! Seja de defunto conhecido ou desconhecido iremos a todos, pois numa cidade como esta que não oferece lazer nem a jovens, tampouco a pessoas da nossa idade só há dois caminhos: os jovens correm para a droga, o que para nós nem fica bem. Imagina a gente sendo flagrada fumando maconha ou cheirando pó com um canudinho de 2 reais? Sofreríamos bullying pelo resto das nossas vidas. Vamos nos divertir nos velórios pelo menos nos encontramos com as pessoas, conversamos, fazemos companhia para a família do morto tomamos chá e cafezinho tudo 0800.

Caíram na risada.

– Excelente ideia – confirmou Lurdinha. E olha, em alguns casos estaremos até fazendo uma caridade, porque velório de pobre, por exemplo, não vai quase ninguém, nós cinco indo já formamos um bom número.

E foi assim que as Marias viraram frequentadoras assíduas de velórios. Tristeza, falta de diversão, monotonia foram banidas para sempre. Bastava que uma delas soubesse de alguém nas últimas que ligava para as demais avisando:

– Fiquem a postos! Tem defunto à vista. Já encomendei a coroa pra gente levar, sai 10 reais pra cada uma. Ah, já ia esquecendo, mas fiz até o cartãozinho da coroa:

 Marias

 

 

 



[1] Funeral em Latim

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