O mundo pelos olhos de Ana Luz

 

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Desde que me entendo por gente, quando as crianças à minha volta chegavam lá pelos três, quatro anos perguntavam por que eu andava de bengala.  Eu contava que não tinha havia tomado as gotinhas quando pequena, porque essa gotinha chamada vacina não existia na ocasião em que contraí a pólio e, até aproveitava a ocasião, para reforçar a importância de se vacinar e tal.

A bengala foi substituída pela cadeira de rodas e a criança da família mais próxima a mim é Ana Luz, uma garotinha linda, amorosa e inteligente. Fala pelos cotovelos e ainda afirma que adora ser tagarela, embora eu já tenha explicado que é importante também calar de vez em quando. Entretanto mesmo com toda essa tagarelice declarada, ela não tinha feito ainda a tal pergunta – e olha que eu já estava com o discurso do Zé Gotinha pronto -, mas ela fez quatro, cinco anos e nada de perguntar.   Um dia eu já curiosa com a falta de curiosidade dela acerca do assunto não me aguentei e lancei a flecha:

– Lulu, você não quer saber por que a Dinda não anda igual a todo mundo?

Ela me olhou tranquilamente e disse:

– Ora, Dinda, eu já sei que você é cadeirante porque não tomou a gotinha e não quero falar mais sobre isso, tá?

Botei a viola no saco e junto com ela a minha mórbida curiosidade adulta. Ela não percebeu que meus olhos se encheram de água, não de tristeza, mas de alegria pela lição que aquela pequena me dera. É isso mesmo, as pessoas são cadeirantes por alguma razão, e daí? São atletas e batem recordes, e daí? São apenas pessoas.

Se todos fossem sábios como Ana Luz e enxergassem o mundo pelos olhos dela não haveria intolerância religiosa e/ ou política, racismo, homofobia, preconceitos .  O mundo seria muito mais iluminado com toda certeza.

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