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 Amor homeopático

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Tudo que é demais, enjoa ou faz mal! A publicidade vive nos cercando de comerciais que no final tem a já manjada frase: “beba com moderação”, visando a diminuição de acidentes. E moderação é uma palavra que pode ser usada em tudo a que se refere à vida de cada um. E principalmente no amor.

PRINCIPALMENTE. Sim, com letras maiúsculas, pois não há nada pior do que o excesso de demonstrações afetivas ou a falta dela. É insuportável ser um casal que não se larga, não tem cada um o seu momento, tão necessário para ser você mesmo, como veio ao mundo: sozinho. Assim como é terrível estar num relacionamento onde somente quem se doa, quem elogia, faz surpresas, planeja viagens, etc., é você.

Num relacionamento, o amor tem de estar presente sempre. Numa conversa durante o jantar improvisado em casa mesmo, depois de um dia cansativo de trabalho, onde ambos dividem seu dia com o outro. E depois do jantar dividem o lavar e o enxugar das louças e riem de banalidades. Nos dias atuais, tem de estar presente naquele e-mail inesperado no meio da tarde com frases curtas como: amo você, ou estou com saudades, ou até mesmo nos SMS.

Amar alguém e encontrar uma boa companhiaia, está cada vez mais difícil, pois tudo é muito efêmero, muito vazio, muito carnal. E demonstrar amor àquela pessoa que você está investindo numa relação é fundamental para manter sempre aceso o interesse real na vida dela e ela na sua. Não se precisa bajular, adular, nem se exceder, nada disso, mas pequenas demonstrações de amor diárias  valem muito mais do que um simples “eu te amo” de vez em quando. O amor tem que ser homeopático: não faz efeito ou faz mal se não for ministrado na dose certa.

Thiago Zebende

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FIAT LUX

Às seis horas da tarde, o apito da usina soava. O som rompia o espaço vácuo da grande praça da cidade quando o Sol pedia licença para deitar. O silêncio do lugarejo que só era incomodado pelo ronco dos jipes e badaladas da Matriz era maculado pelo gemido anunciador que ia penetrando pelas poucas ruas e vielas.

Era o grito de alerta, a Luz ia chegar.

O motor roncador, alemão de nascimento, espalhava Luz pelos poucos postes de transmissão e para as casas da vila. Poucas províncias tinham o privilégio de fazer Luz no breu, dizem que mesmo a segunda maior cidade do estado não tinha conseguido isto ainda. Quando as poucas lâmpadas repeliam a escuridão; todos, de meninos a velhos, olhavam fixamente o Luzeiro até que os olhos se cansassem do brilho. Fascinados, eles se perguntavam como era possível fazer Sol dentro de casa. Cada lâmpada era uma Estrela. Os progressistas com seus espíritos libertários entre conversas no clube e nas bodegas rasgavam sempre a mesma frase em tom heroico “É o progresso que chegou ao sertão! O Futuro batendo à porta!”. Os fervorosos tradicionalistas em sua escuridão praguejavam “Isso é heresia dos infernos, quem já se viu fazer a noite virar dia?”. Os Luzeiros dentro de casa aposentaram candeeiros, lampiões e velas. A fumaça preta e o cheiro de querosene deixaram de pestear as noites. A escuridão ganhou um riso diferente. Crianças brincando com a sombra das mãos projetadas na parede, mulheres bordando vestidos e toalhas, homens conversando na frente das casas. A frieza da noite esquentada pelas lâmpadas elétricas.

Com o caminhar da noite, tudo ia se acomodando, a Luz se tonava íntima em meio às atividades noturnas. Um Sol doméstico. Um Astro particular. Ele estava ali quieto iluminando salas e quartos, esperando a hora de partir.

De repente, as luzes piscavam! Era o sinal.

Afazeres pela metade, todos corriam para seus leitos, abandonavam o que faziam, deixavam tudo para o raiar do outro dia. Portas se fechando, gente se despedindo às pressas, namoros interrompidos, crianças indo deitar. Corriam para dormir antes que sombra da noite devassasse as casas e ruas. Montavam as redes, procuravam as cobertas, desejavam boa noite.

Às dez horas. O Breu.

No escuro, a cidade dormia.

(Em memória de um homem do futuro – Acbal Miranda Bastos)

Astério Moreira

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Os Funerais da Matriarca

O nome do lugar era Bogó.
E teve aquele enterro da velhinha, ao entardecer.
Na penumbra do interior da antiga casa da fazenda, a velha matriarca é velada… A luz trêmula das velas aumenta o clima de consternação. O Padre reza bonito, encaminhando a velhinha para o céu e consolando os parentes, aderentes e agregados. Mulheres choram, não se sabe se pela separação ou pelas belas palavras do Padre. As crianças andam para lá e para cá, desfilando suas roupinhas de missa, sem prestar nenhuma atenção ao velório. Os homens da família permanecem sisudos e calados.
Fora da casa há um outro cenário.
Dois cavalos vermelhos e gordos pastam sossegados na roça em frente à casa;  no terreiro, em frente à varanda, passa uma galo garboso, com seus passos calculados, não está nem aí… passa uma galinha faceira, rechonchuda e desengonçada, nem se importa…  dois cachorros brincam de brigar no meio do terreiro, nem reparam na estranheza do episódio…  grupos de humanos de várias idades, cores, sexos e crenças, enquanto esperam o desfecho, falam coisas sem sentido para o momento e sem importância para o mundo…
Todos indiferentes aos funerais da “mamãe grande”.
E eu ali, também indiferente. Esperando o Padre. E pedindo aos Espíritos do Mato que aquele povo todo resolva sepultar logo a finada. E resolveram – para meu espanto – no terreiro da casa! Perto da porteira, ao lado de uma pequenina capela, ao som de rezas e lamentações, depositaram a urna funerária da velhinha no buraco de sete palmos…
Anoiteceu.

Ana Célia Maia

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abstractoREFERENCIAIS


Não é a maneira como duas bocas se encontram que torna um momento único. Não é o sexo, não é o corpo, a cor dos olhos, o sorriso, o carro do ano, nada disso. São apenas referenciais. E referência vem de conhecimento prévio, que vem da primeira impressão, que é a que fica. Mas nem sempre o que fica é o certo, certo?

Viver preso a clichês impostos pela mídia e pela sociedade cada vez mais seletiva quanto à perfeição do corpo, é o mesmo que banalizar o amor. E não é de hoje que o amor está banalizado. Ninguém se importa com os sentimentos do próximo, com as ideias oriundas da experiência alheia, ou com a imaturidade da inexperiência. Ninguém se importa numa relação a ensinar ou a aprender.

Talvez seja por isso que muitos relacionamentos hoje em dia não vão adiante, e não é que se amou errado ou que o sentimento acabou. Simplesmente o amor nunca existiu e o sentimento nunca esteve presente. Sentir-se atraído por referenciais é um dos nossos maiores erros. Porque o referencial um dia acaba. O sexo diminui de intensidade, o corpo cede às leis da gravidade, os olhos não brilham como antes. E aí, meu amigo? O que restou?

Como se fôssemos máquinas que já vêm pré-programadas, não aceitamos quem não tem naquele momento aquele corpo que nos faz delirar, ou aquele jeito sensual que nos enlouquece. Não. Passamos para o próximo. Como numa loja de departamentos, tiramos da arara a peça “com defeito de fábrica” e procuramos a perfeita aos nossos olhos.

O cérebro, o papo, e o que a pessoa traz no coração, sequer passam pela cabeça de quem vai escolher a pessoa com quem quer se relacionar. O amor – a essência do amor mesmo, aquele pregado nos casamentos, que estará contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe – livre de qualquer referencial que mascare uma relação, ficou tão obsoleto quanto biquíni de bolinha amarelinha tão pequenininho. Não se usa mais.

Thiago Zebende

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