Receita para criar um/uma homofóbico/a

Receita para criar um/uma homofóbico/a

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Na minha infância e parte da adolescência, costumava veranear em Friburgo, numa linda e enorme casa de campo de minha tia de criação. Não sei hoje, mas naquele tempo, lá pelo final dos anos 50 e meados de 60, as pessoas endinheiradas preferiam comprar enormes residências em parques residenciais. A nossa casa ficava no Parque D. João VI. Um lugar lindo, cercado de montanhas, claro, e um lago imenso com casas de um lado e do outro. Nós ficávamos na parte mais baixa e dos jardins avistávamos três casas imensas do outro lado. Espalhados em locais mais afastados de nós, ficavam chalés lindos e um deles particularmente era o meu xodó. Parecia uma casa de bonecas de tão pequeno. O telhado pontudo com as laterais quase a tocar o chão. Janelas com cortinas diáfanas, um pequeno jardim, cerca branca pontilhada de hortênsias. Fazia limite, ao fundo, com a montanha e num dos lados corria um pequeno riacho. Eu passava horas parada em frente ao pequeno portão admirando o lugar, mas nunca vi seus donos.

Certa ocasião, os adultos conversavam à beira da piscina bebericando seus aperitivos e ouvimos o som de um piano tocando do outro lago do lago. Era uma música linda, mas para mim desconhecida.  Aí veio o comentário:

– Os dois Perus estão românticos hoje.  – A risada foi geral e uma das minhas outras tias falou:

– Hoje cedo fui dar uma voltinha pelo parque e dei de cara com os dois Perus do chalezinho. Que gente mais esquisita! Passei ligeiro fingindo que não os tinha visto.

Mais risadas e comentários metafóricos que eu, do alto dos meus oito anos não entendia. Com certeza os senhores Perus do chalé eram parentes dos outros Perus da casa do lago. Mas por que achavam tanta graça nisso? O fato, é que fui crescendo e sempre que estávamos em Friburgo, as piadas e chacotas sobre os Perus vinham à baila. Aos dez anos descobri que os Perus, na verdade, eram homossexuais e aí matei a charada: claro, como eu era besta! No Rio de Janeiro chama-se pênis de peru, daí os “dois Perus”. Entretanto, embora tenha ficado curiosa sobre dois homens formarem um casal, aquilo durou pouco, pois na época criança não pensava muito nessas coisas, a gente queria era se esbaldar na piscina, com as bonecas e panelinhas e fogõezinhos de brinquedo, treinando para ser “Amélia”.

Ainda em Friburgo, a casa mais próxima à nossa, era de um casal de meia idade muito simpático. Ela, sempre a fazer tricô dando gargalhadas de dobrar com as histórias que contava, ele sempre com um bonezinho cáqui, muito educado, colocava-me para fazer exercícios na piscina com tal rigor, que desconfio ter sido do exército. Um belo dia ouvi falarem em uma tal de Dulce Maria, filha do casal, professora de inglês que vivia viajando pelo mundo. Acho que a vi somente umas duas vezes. Alta, bonita, falava baixo e fumava. Foi a primeira mulher que vi fumando e fiquei espantada. Achava que aquilo era coisa só de homem… A moça já devia beirar os quarenta anos e não era casada. Quando o trio se despediu, assim que bateram o portãozinho do jardim, minhas tias começaram a resenha: coitada da Elza e do marido, a única filha que tiveram e é desse jeito! Uma lástima. Que lástima nada, castigo, isso sim! E eu ali sem entender que “jeito e que castigo” eram esses. Muitos anos depois quando li, escondido, um livro de Adelaide Carraro, lá pelos meus quinze, dezesseis anos, é que descobri  o jeito e o castigo de Dulce Maria. Dulce Maria que, aliás, depois de eu já adulta, soube que cuidara dos pais com zelo e amor até o fim da vida deles. E como deram trabalho!  A mãe ficou cega, o pai teve derrame e foi pra cima da cama, mas ela, o “castigo”, não arredou o pé, ficou com eles até o final.

Aí o tempo deu um salto e nesse meio tempo tive visões diferentes acerca da homossexualidade. Achei que era errado, anormal. Onde já se viu duas pessoas do mesmo sexo viverem juntas? Depois fui amadurecendo, lendo, convivendo com pessoas gays e percebendo que era tudo muito maior do que dogmas, conceitos, definições, legislações, escolhas. Não cabia mais a cantilena do certo e do errado. As coisas iam para além de tudo isso. Entendi que o cerne da questão é o amor. Ama-se e não existe um botão onde se faça a escolha sou mulher e vou apertar homem ou vice-versa. Amor surge ninguém sabe de onde, nem como, não vem com endereço marcado, bula, opções. Simples assim.  Depois que entendi  isso, o assunto ficou resolvido em minha cabeça e no meu coração.

Nesse passar do tempo, estou dando aula no ano de 2004, acho que por aí, turma da 5ª série – hoje 6º ano – e um dos meninos entra na sala com um brinco na orelha. Foi um auê! Os colegas correm para olhar e foi um tal de: furou a orelha? não é brinco com imã, mas quando eu crescer vou furar. Pedi que sentassem, elogiei o brinco e um outro menino disse:

– Eu tenho tanta vontade de colocar brinco!

– Ué, quando você for maiorzinho, você coloca –  respondi.

– Não posso não, professora, que meu pai disse que só quem usa brinco é “viado”.

Não podia questionar a autoridade paterna naquele momento e, pior ainda, numa escola particular. Mas não me contive e repliquei:

– Bom, isso é muito relativo, porque os piratas usavam brincos, os índios usam brincos, muitos nobres usavam blusas com babadinhos e frufru e nem por isso todos eles foram ou são gays.

Tratei de mudar de assunto pra não dar mais pano para manga e nem ser despedida da escola. Entretanto fico horrorizada ao ver em pleno século XXI como as Dulces Marias da vida e os “Perus” continuam sendo massacrados, sofrendo todo tipo de preconceito seja declarado ou nas entrelinhas. Mas quem quiser criar um filho ou filha adepto da homofobia é só fazerem com eles o que fizeram comigo. Tomara que eles, após adultos, consigam ser melhores que seus pais, professores, vizinhos, parentes e sociedade homofóbica e respeitem e amem as pessoas do jeito que são.

Amor d’outros tempos

 

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O melhor tempo esconde longe, muito longe
Mas bem dentro aqui, quando o bonde dava a volta ali.
Caetano Veloso – Trilhos Urbanos

Salvador, anos cinquenta.  Naquela época Salvador era a própria Bahia. Quem morava no interior e ia à capital, dizia: “Vou à Bahia”. Afinal, esta “Bahia” era um mundo fascinante, onde a elegância desfilava pela Rua Chile os últimos lançamentos em voga no Rio de Janeiro e em São Paulo. A cidade mágica de dois andares exalava todos os tipos de cheiros e oferecia um mundo de sabores capaz de satisfazer aos mais refinados paladares.

Vestidas em roupas bonitas, próprias ao calor do verão, Judite e sua amiga Carmem admiravam a vitrine da Casa Sloper, um local onde se achava de tudo: bijuterias, perfumes, bolsas, sapatos, roupas lindas, enfim, um mundo que não cabia no bolso de nenhuma das duas.

 – A gente podia entrar só para dar uma olhadinha!

– Nada disso, Carmem. Tenho que comprar uns tecidos nas Duas Américas, mas primeiro quero dar uma passadinha na Etam. Vamos olhar bem os vestidos à venda e tentarmos memorizar os mais bonitos. D. Mercedes quer que eu faça um vestido para a filha mais velha e amanhã vai passar lá em casa para ver os modelos. Se eu conseguir fazer isso, ela vai adorar, pois só assim vai sair por aí dizendo: “O vestido de Rosália foi comprado na Etam! Caríssimo!”.

Após as compras, as duas desceram para a Praça Municipal. Iam à Sorveteria Cubana, como sempre faziam quando vinham ao centro, e já se fazia um pouco tarde. Dali até Brotas era uma viagem! Tinham que ser rápidas. Com sorte encontraram uma mesa vazia no calçadão e pediram duas bananas Split – a sensação do momento. Judite deu um suspiro e comentou:

– É linda essa vista da Baía de Todos os Santos, o Forte de São Marcelo, os saveiros com suas velas coloridas… Não me canso de olhar…

– Pois devia era olhar aquele rapagão simpático que não tira os olhos de você e que está sentado na mesa em frente… – retrucou a amiga.

Judite dirigiu o olhar para onde Carmem tinha dito e viu um homem por volta de seus vinte e tantos anos, bem vestido em seu terno de linho branco, sorriso largo e olhar astuto. Ela abaixou os olhos, sentindo que o rosto pegava fogo, acanhada. Quando o garçom se aproximou antes que qualquer uma das duas pudessem ver o valor a pagar, o cavalheiro aproximou-se dizendo:

– O sorvete das moças é por minha conta. Muito prazer, Everaldo.

Carmem estendeu a mão.

– Prazer, Carmem.

Judite, trêmula, sentiu uma mão morna que segurou a sua longamente. Não sabia o que dizer. Parecia estar num outro plano onde tudo o que havia era aquela sensação arrebatadora.

– E qual é sua graça, moça bonita de olhos sonhadores?

– Judite.

Everaldo, sem nenhuma cerimônia, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa das moças. Conversou, perguntou, fez as duas rirem – sempre com os olhos fitos na modista – até que Carmem deu um gritinho.

– Deus do céu! Quase cinco e meia! Vamos correr ou perderemos o próximo bonde!

As duas saíram apressadas. Everaldo carregando os embrulhos, ajudou ambas a subirem o estribo do bonde, entregou as compras para Judite e perguntou:

– Quando lhe vejo outra vez!  – Sem pestanejar, num impulso ela respondeu:

– Daqui a uma semana!

– Está marcado! Espero por você aqui na Praça Municipal. – As últimas palavras foram praticamente gritadas, porque o bonde já estava em movimento.

Existe amor à primeira vista? Muitos dizem que não, mas para Judite fora amor à primeira vista. A partir daquele encontro inesperado e pelos próximos meses ela não tirou aquele homem do pensamento. O pouco dinheiro que ganhava com suas costuras, tirando o que dava para as despesas da casa e era entregue as duas tias que a criara, era gasto com tecidos para vestidos novos feito madrugada a dentro. Ou para comprar as bijuterias mais baratas na Sloper. O pedido para o namoro foi feito conforme as normas sociais da época. Everaldo apresentou-se às tias, deu nome e sobrenome, contou ter nascido em Ilhéus e desde muito jovem viera para a Bahia trabalhar na firma de exportação de cacau de um tio, onde era gerente. Estava apaixonado pela sobrinha querida das duas e tinha sérias intenções.

Foram exatamente dez meses de felicidade total para Judite. Após três meses de namoro na porta, veio o pedido de noivado acompanhado de uma linda aliança e com vistas a casamento num prazo máximo de seis meses. A partir de então, a máquina de costura não teve mais sossego. Além dos vestidos que a freguesia leal de Judite levava, havia a preparação do enxoval. Judite não tinha mãos! Até emagrecera tamanha a correria.

No auge dessa felicidade, certa noite, Carmem, acompanhada pelos pais, bate à porta de Judite pedindo para conversar com ela e com as tias. As três se reúnem na sala, Carmem e sua mãe sentadas, o pai em pé. Durante um minuto ninguém disse nada. O ar ficou tão pesado que era quase possível tocá-lo. Por fim, seu Carlos pigarreou e começou a falar.

– D. Mercedes, D. Carolina, Judite, sinto imensamente ser portador de más notícias para as senhoras, porém como amigo da família e como pai, sinto-me na obrigação de contar-lhes o que fiquei sabendo. Conversando com antigo colega de escola o qual não via há vinte anos, amigo esse nascido em Ilhéus e que para lá voltou depois de findo os estudos aqui na Bahia, por acaso falou da família Oliveira Dias. Na hora lembrei que seu noivo, Judite, tinha esse sobrenome e falei dele, contando, inclusive que o mesmo era noivo da melhor amiga de minha filha. Num primeiro momento, meu amigo disse que certamente não se tratava da mesma pessoa, pois Everaldo Oliveira Dias era casado e pai de três filhos. Concordei, com certeza não era a mesma pessoa, mas quando lhe disse aonde o sujeito trabalhava e o descrevi, meu amigo corroborou: “É ele mesmo”. Como estávamos na Cidade Baixa, ele me pegou pelo braço, fez-me entrar em seu veículo e fomos à Firma de Exportação Oliveira & Irmãos. Lá estava Everaldo. Fiquei tão indignado com a sem-vergonhice dele, que o chamei à parte e tomei satisfações, afinal Judite é como uma filha pra mim, vi-a crescer, acompanhei seus passos desde que ficou órfã e veio morar com as senhoras. Ele não negou nada. É, de fato, casado e pai de três filhos.

Pode-se imaginar o choque que foi para todos ali naquela sala! As tias esbravejavam, rogavam pragas contra o mau caráter, fingidor, aproveitador, mentiroso!

– Aquele descarado teve a petulância de sentar aqui neste sofá e comer quindim que fiz especialmente para ele! E os almoços, Mercedes, que fizemos para aquele crápula?! Ah se eu soubesse disso naquela época…

Enquanto as tias falavam pelos cotovelos, Judite permanecia na mesma posição: sentada, sem mexer um músculo, olhos muito abertos e pálida como papel. Sem dizer uma palavra levantou-se e foi para o quarto. D. Mercedes foi atrás. As visitas retiraram-se.

– Minha filha, não fique assim não. Melhor saber agora do que depois de casada, sim porque do jeito que ele é salafrário, seria capaz de cometer bigamia.

Voltada para a parede, numa voz que mais parecia um sussurro Judite soltou a bomba:

– Estou grávida.

Essas foram as últimas palavras ditas por ela. Por mais que as tias a apoiassem, cuidassem e lhe dessem amor e carinho, nunca conseguiram fazê-la falar. Enquanto perdia peso, a barriga crescia. Continuou costurando, a contragosto de D. Mercedes e D. Carolina. A aliança de noivado não foi tirada do dedo. Para não cair, Judite colocou um anelzinho menor na frente. Pariu uma menina sem dizer um ai. Quem cuidou do bebê foram as tias. Judite continuava com aquele olhar triste, perdido em algum lugar que ninguém sabia onde era. Seis meses após o nascimento da filha, encontraram-na debruçada sobre a máquina de costura. Estava morta. Na preparação para o funeral, fizeram de tudo para tirar a malfadada aliança de noivado, mas o dedo contraíra-se de tal forma que ninguém conseguiu arrancar-lhe o símbolo daquele amor inexplicável.

Dizem que não se morre de amor, mata-se, supostamente, em nome do amor, mas morrer de amor só em filmes, dramas, livros. Judite contrariou esse princípio. Judite morreu de amor.

 

Nota: Todas as casas comerciais citadas no texto, de fato existiram. Da mesma forma a personagem do texto é real bem como sua história de vida e morte. Apenas lancei mão da licença poética para contá-la.

Aconselho aos saudosistas a leitura do texto encontrado n o link abaixo.

http://maisdesalvador.blogspot.com.br/2011/08/rua-chile.html

 

Tragédia Nordestina

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D. Candinha chegou àquela cidade na flor da idade. Morena de corpo bem feito, rosto bonito, cabelos negros como noite sem luar. Trazia na bagagem o diploma de professora primária numa época em que os professores eram tratados com muito respeito. Dizia-se até que as maiores autoridades de qualquer cidadezinha eram o juiz, o padre, o prefeito e o professor.

Vinda de outro estado, D. Candinha não tinha familiares no lugar e por isso ficou hospedada na pensão de D. Júlia. “Pensão Familiar” como dizia a placa sobre o umbral da porta. De vez em quando passava por ali algum viajante, porém hóspede fixo, só mesmo a professora.

Pedro Honório tomou-se de amores por D. Candinha. Deu para passar na frente da pensão não se sabe quantas vezes ao dia. Vez por outra aparecia na hora do almoço e acabou ficando freguês do pirão de D. Júlia. Esta, esperta que era, percebia o olhar de peixe morto do ilustre visitante, os salamaleques que este fazia ao ver a professorinha.

— Hum… é me ver um pavão quando abre o leque… aí tem coisa!

Um belo dia, a dona da pensão está na cozinha às voltas com o almoço quando D. Candinha entra pensativa, despeja água da moringa num copo e pergunta:

— D. Júlia, “seu” Pedro Honório é filho daqui mesmo?

— Não, minha filha. Quem o trouxe para cá foi o cunhado, o Zé Pires. Isso tem um bom tempo.

— Admira ele ser um homem bem apessoado e nunca ter… bem… nunca ter casado.

— Olha, Candinha, eu não sei de nada não, não provo uma vírgula, mas dizem as más línguas que lá na terra dele é casado sim senhora! Dizem até que o cunhado trouxe ele pra cá porque o casamento foi obrigado, você sabe, ele já tinha feito mal a moça e o Pedro não quis viver com ela. Quer saber do que mais? Tome cuidado porque ele não é boa bisca e já notei as asas dele arrastando pra você!

—  Oxente, D. Júlia! É impressão sua! – Mas o flerte transcorria à solta.

Passados uns meses de olhares furtivos, suspiros, flores escondidas entre as páginas dos livros escolares e outros que mais, Pedro Honório parte para o ataque direto. Numa tarde em que a pensão estava vazia, ele se aproxima da professora sozinha na sala e faz a declaração:

— Sabe, D. Candinha, desde que a senhora chegou aqui a minha vida mudou. Não faço outra coisa a não ser pensar na senhora. Estou apaixonado e não aguento mais guardar isso só pra mim.

— Pelo amor de Deus, seu Pedro Honório! Alguém pode ouvir…

— E o que tem isso? Por acaso estou lhe faltando com respeito?

— Não, claro que não, mas…

— Não tem mas e nem meio mas! A senhora é solteira, eu sou solteiro, portanto…

— Aí é que está, seu Pedro, aí é que está! Será o senhor mesmo solteiro? Não terá ficado lá pela sua terra alguma esposa abandonada?

Pedro Honório empalideceu, murchou e com olhar triste balançou a cabeça. Desolado, retirou-se. Candinha corre para o quarto chorando e dando como verdadeira a história contada pela dona da pensão. O que faria ela com o amor que nascera em seu peito? A desilusão foi grande e junto veio a febre, adoeceu. Foi preciso chamar Dr. Eraldo para examiná-la.

— Então, minha filha, não se preocupe. Não é nada grave. Seu problema, na verdade, chama-se Pedro Honório!

— Doutor Eraldo!

— Não se exalte, nem se acanhe! Mas sou amigo dele e estou sabendo de tudo. Ele é da mesma cidade que eu e lhe digo: nunca casou! Foi noivo de uma moça lá, estava de casamento marcado, porém a noiva se apaixonou por outro rapaz e abandonou Pedro Honorário. Foi por causa disso que o Zé Pires o trouxe para cá. Essa conversa de que ele era casado surgiu aqui, mas é mentira. Se você quiser confirmar o que estou dizendo procure o Zé Pires.

— Doutor Eraldo, sei que o senhor é um homem de palavra e não iria mentir a respeito de um assunto tão sério! Acredito piamente em tudo o que acaba de me contar.

A partir daí o namoro dos dois corria num mar de rosas. O casal era visto sempre junto e ficou combinado que assim que dessem as férias escolares, Candinha iria para sua terra natal comunicar o fato à família, preparar o enxoval e, na volta, traria os pais e irmãos para conhecerem o namorado e acertarem a data do casamento.

Já de férias, Candinha vai passar uns dias na fazenda dos pais situada num povoado perdido no interior de Pernambuco. Certo dia, no final da tarde sente uma dor aguda na virilha e é levada às pressas para a cidade. No meio do caminho a professora piora e é operada em caráter de urgência num posto de saúde à luz de lampião de apendicite aguda. Passa muito mal após a cirurgia e fica entre a vida e a morte. A escola é informada da situação por meio de um telegrama. Tempos depois, um viajante se hospeda na pensão de D. Júlia e comunica a todos o falecimento de Candinha.  Pedro Honório chora copiosamente a morte da amada. Cumpre seu luto em silêncio. Em meio à dor, conhece uma boa moça que o apoia em tão delicado momento. Oito meses depois casam-se. Menos de quinze dias após o casório, Pedro Honório passa em frente à Pensão Familiar justo no momento em que Candinha vai saindo de um carro. Mais magra, ainda um pouco pálida, amparada por D. Júlia. O choque paralisa-o. A emoção foi demais para o pobre homem que a partir daquele dia não foi mais o mesmo.

Candinha jamais se casou e durante toda sua vida cuidou do ex-futuro marido. Dá-lhe os remédios na hora certa cuida dele como se fosse um filho. Anos após o falecimento desse “Romeu” nordestino, a nossa “Julieta” não se cansava de perguntar:

— Por que não escrevi contando o que havia acontecido? Por quê?

Lua Vermelha

 

Da janela do avião avisto uma lua esplendidamente vermelha. Profundamente admirada, olhei fixamente e lá estava aquela lua escarlate saindo por entre nuvens.  Já ouvira falar em lua azul, mas lua rubra nunca! No entanto ali estava ela desfilando sua luxúria diante de meus olhos. Linda! Lasciva! Fêmea que passeava como quem não quer nada, mas querendo tudo, num céu de poucas estrelas. Nuvens rosadas pelo reflexo escondiam-se tímidas, envergonhadas ante a dama de vermelho. Luma* que deixa acarminada a noite em que retorno para casa, após a terceira conexão em aeroportos desse Brasil sem tamanho. Eu ali pálida de medo, pensando que talvez aquela aparição singular fosse o começo do fim, mas ela serenamente vai alonjando, até perder de vista. O negrume lá fora faz meu rosto refletir-se no vidro da janela. Percebo minhas rugas, as olheiras sob os olhos, a pele mais flácida no contorno do queixo. Vem-me o desejo de voltar o tempo, tempo em que eu também desfilava paixão, respirava paixão, amava com paixão. Tempo em que vermelho era meu rosto ardente de amor, tempo em que beijos lascivos se faziam necessários. Fecho os olhos com saudades e sinto meu rosto arder, quem sabe, envergonhado por tais pensamentos. Quando vejo novamente meu reflexo no vidro da janela, noto que minhas faces estão coradas. Aquela lua inusitada, única, inexplicável, por alguns instantes devolveu-me um pouco o passado.

Luma: o mesmo que lua ((Brasileirismo, NE)

 

 

Amor Antigo

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Shopping não é lugar para passear, pelo menos é o que penso. Shopping é para compras, consumo às vezes necessário, na maioria das vezes, porém, desnecessariamente.  Entretanto, muitas pessoas entendem que este é o lugar tipo “faz-se de um tudo”: compras, almoços e/ou lanches, cinema, vai-se ao banco, enfim…

Sábado, estou no shopping pertinho da praça de alimentação esperando alguém e fico olhando o vaivém da multidão que se aglomera em frente aos balcões de comida. Pessoas de todos os tipos usando variadas modas passam diante de mim. Olho sem ver, ouço sem escutar, apenas espero perdida em meus pensamentos enquanto os minutos escoam numa lentidão quase secular…

De repente um par de saltos altos tipo agulha, azul celeste, chama minha atenção.  Levanto a vista e vejo um jovem casal suburbano. Ela trajando uma saia longa branca, blusa vermelha, bolsa tiracolo azul celeste comprada em camelô (com certeza by China) combinando perfeitamente com o sapato. Cabelos longos maltratados. Ele calça jeans surrada, camisa de malha com uma estampa enorme na frente, tênis branco sujo. De mãos dadas, olhos brilhantes e cheios de sorrisos de felicidade lá vão eles alheios a tudo, alheios a todos. No mundo só os dois, só um perder-se no olhar do outro. Não carregam sacolas e tampouco embrulhos. Apenas desfilam um amor de outrora, um amor fora de moda onde basta  dar as mãos e caminhar sonhadoramente, trocando segredinhos, juras e promessas em sussurros transbordantes de amor.

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