A capa de Harry Potter e as estrelas de Ana Luz

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Ana Luz olha para o céu e explica:

– Mamãe, sabia que se uma estrela cair na Terra, a gente morre?

– Sim, sabia.

A pequena de cinco anos, muito compenetrada a mirar o espaço, pergunta:

– Mamãe, como é que as estrelas ficam assim penduradas no céu?

– Ah, é que elas ficam amarradinhas num fio de nylon…

– Não é nada! O céu não tem fim…

                …

Li os sete livros de Harry Potter porque foi a forma mais fácil que encontrei de convencer aos meninos da 7ª série (era assim que se chamava na época) a lerem. Um deles comprava o livro a cada lançamento – era fã ardoroso do bruxo de óculos redondos – lia, emprestava-me e depois era feito uma espécie de rodízio entre os colegas. Deu certo o estratagema.

Harry  Potter tinha a capa da invisibilidade. Há pessoas que dariam tudo para ficarem invisíveis ao menos por alguns minutos, isso é uma fantasia que já passou pela cabeça de quase todo mundo. Entretanto, uma coisa é fantasiar a invisibilidade, outra, é vivê-la de forma diária e quase obrigatória, o que vem ocorrendo no mundo de hoje, para alguns segmentos da sociedade. Poderia falar da invisibilidade imposta às relações homoafetivas que não podem externar publicamente o amor através de pequenos gestos como abraços, beijos, mãos dadas, sem que isso acarrete uma reação preconceituosa descabida. Poderia falar da invisibilidade racial uma vez que ainda se questiona a capacidade intelectual dos negros e negras, e o direito a circularem de forma igualitária em qualquer ambiente. Poderia falar destes dois assuntos sim. Mas tratarei de outra invisibilidade por ser um tema que domino melhor.

Eu não uso a capa da invisibilidade do Potter, mas sou invisível. Sou cadeirante, portanto sou invisível quando chego, por exemplo, em determinadas lojas e o balcão é tão alto que a vendedora não me vê e eu tenho que bater a mão no balcão para chamar sua atenção. Ou quando a porta de um banheiro é tão estreita que não posso usá-lo. Ou ainda, quando as rampas estão bloqueadas por carros ou motos, ou nem existe rampa quando é essencial que ela esteja ali. Também não sou enxergada quando escadas são o único acesso a um segundo ou terceiro andares de prédios públicos. Quando as companhias aéreas usam a força braçal de dois funcionárias para me colocarem ou me tirarem da aeronave.

Quando falo sobre essas questões, critico, denuncio, esbravejo, de modo algum é para desestabilizar entidades, pessoas, órgãos ou seja lá o que for. Não é para bancar a coitadinha e sim para chamar atenção para algo que, por Lei, tem que ser solucionado. É para me colocar no mundo e deixar claro: “Olha, eu existo, okay? Você tem que olhar para mim e atender as minhas necessidades pois sou cidadã e ser humano como qualquer outro”.

Além do mais, assim como as estrelas de Ana Luz, não há fio de nylon que possa me trazer suspensa e assim dar conta dos meus problemas de acessibilidade. A invisibilidade não dói naqueles que não me enxergam, mas dói toda vez que não sou vista.

Lua Vermelha

 

Da janela do avião avisto uma lua esplendidamente vermelha. Profundamente admirada, olhei fixamente e lá estava aquela lua escarlate saindo por entre nuvens.  Já ouvira falar em lua azul, mas lua rubra nunca! No entanto ali estava ela desfilando sua luxúria diante de meus olhos. Linda! Lasciva! Fêmea que passeava como quem não quer nada, mas querendo tudo, num céu de poucas estrelas. Nuvens rosadas pelo reflexo escondiam-se tímidas, envergonhadas ante a dama de vermelho. Luma* que deixa acarminada a noite em que retorno para casa, após a terceira conexão em aeroportos desse Brasil sem tamanho. Eu ali pálida de medo, pensando que talvez aquela aparição singular fosse o começo do fim, mas ela serenamente vai alonjando, até perder de vista. O negrume lá fora faz meu rosto refletir-se no vidro da janela. Percebo minhas rugas, as olheiras sob os olhos, a pele mais flácida no contorno do queixo. Vem-me o desejo de voltar o tempo, tempo em que eu também desfilava paixão, respirava paixão, amava com paixão. Tempo em que vermelho era meu rosto ardente de amor, tempo em que beijos lascivos se faziam necessários. Fecho os olhos com saudades e sinto meu rosto arder, quem sabe, envergonhado por tais pensamentos. Quando vejo novamente meu reflexo no vidro da janela, noto que minhas faces estão coradas. Aquela lua inusitada, única, inexplicável, por alguns instantes devolveu-me um pouco o passado.

Luma: o mesmo que lua ((Brasileirismo, NE)

 

 

Céu de quase noite


Quando olho o céu de quase noite guardando um pouco de luz
Reconheço-me nesse instante, pois me sinto entre sonho e realidade.
O sonho é sempre luminoso, enche-me a alma de esperanças generosas.
Já a realidade é a certeza de que vivo entre mundos de mistério.
Não posso ter certeza em qual dos mundos estarei nesse ou naquele instante.
Posso dançar em jardins de primavera explodindo em cores,
Ou chorar silenciosamente em vãos de escadas sombrias.
Minha vida tem sido assim: um céu de quase noite guardando um pouco de luz.

Postado em 03/02/2013

Vida em gris


Percebi que não havia luz naquela manhã, o céu sem nuvens apresentava-se cinzento e esta monocromia tirava-me o ar. Debatia-me num sofrimento onde a angústia era a dor maior. Chegara a um ponto da vida em que não valia a pena fazer balanços e nem especulações. Nada mais era relevante. Não havia mais para que… nem para onde… tampouco quem… Restara o nada e o absurdo de saber que isso era o fim. Era assim que coisas terminavam, c’est la vie! Andava-se durante anos por estradas e veredas ora belas, ora feias, alegres e cheias de risos, ou tristes e com gosto de lágrimas. Não havia uma estrada reta, mas uma sucessão de curvas sinuosas. Numa curva qualquer perde-se o chão, e o corpo despenca num espaço infinito, vazio, frio… É assim que se morre? Não! Não é o fim da vida que rouba a cor e o sentido de tudo, é a morte dos sonhos tão somente…

Postado em o4/o5/2012

Sonho, logo existo


Olhando a imensidão do mar, aquela linha quase invisível que separa água e céu, o pensamento era: o que haveria após? Talvez o deus Atlas sustentando o Mundo, o abismo de águas jorrantes, a escuridão total… Que bobagem… Se a gente deixar o pensamento nos leva a desvarios sem tamanho, loucuras disfarçadas usando o pseudônimo de imaginação.

Todavia, mesmo sabendo que além daquela linha tênue o que existe é apenas a continuação da água e do céu, é tão sem graça, tão óbvio, que melhor mesmo é imaginar coisas mirabolantes, estapafúrdias. Depois do infinito – veja que absurdo, se é infinito como pode existir algo além de –, mas depois do infinito há um mundo desconhecido, maravilhoso cheio de seres interessantes e belos. E novidade maior! O tempo não passa!

Para além daquele fiapo de quase nada, há o universo fantástico dos que sonham, criam, inventam. É a terra daqueles que fazem de conta que o céu é realmente azul cheio de carneirinhos brancos chamados nuvens. É o habitat de quem não perde a esperança e canta a plenos pulmões canções de amor, acalantos para bebês dormirem, hinos de gratidão a Deus.

Olhando a imensidão do mar, aquela marquinha separadora de água e céu, lâmina imperceptível aos olhos de quem olha, mas não vê, enxergo um caminho de luz, um brilho de paz, um chamamento de amor e, tranquila, serena, caminho lentamente por sobre as águas, inebriada de felicidade. Sonho, logo existo!
Postado em 07/08/2011
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