O Deus Nosso de Cada Dia

 

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Morar na Avenida Cardeal da Silva é conviver com uma surpresa a cada domingo, quiçá a cada dia. Hoje faz uma semana ouvi uma batucada, metais tocando a toda altura, palavras ditas ao microfone – cujo teor na hora não deu para ouvir aqui do oitavo andar pois a música era mais alta – e que depois fiquei sabendo tratar-se de uma manifestação dos seguidores do candomblé contra o preconceito que ainda há contra eles. Todos vestidos de branco passavam pela avenida com aquele gingado bonito que só o povo do candomblé sabe executar com tanta graça e leveza.

Aqui na Federação são 22 terreiros registrados. Segundo pesquisa que fiz no Google, a Casa de Oxumarê, Associação Cultural e Religiosa São Salvador – Ilê Oxumarê Araká Axé Ogodô, a Casa Branca do Engenho Velho, Sociedade São Jorge do Engenho Velho ou Ilê Axé Iyá Nassô Oká, não só é o terreiro mais antigo de Salvador como também do Brasil, foi considerado pelo Patrimônio Histórico, em 1984, como primeiro Monumento Negro. Portanto, o bairro tem muita história para contar e a avenida Cardeal é a passarela das manifestações populares.

Uma semana depois, hoje, novo foguetório, mais música, execução de metais. Corro para a varanda e vejo passando um cortejo com pessoas , em sua maioria, de branco. À frente quatro crianças vestidas de anjo, balançavam suas asas de penas e auréolas prateadas felizes da vida. Andores floridos com imagens de santos – uma delas pareceu-me, mas não tenho certeza, Nossa Senhora da Conceição. A outra não consegui ver. A bandinha tocava em ritmo de carnaval o hino Salmo 23 do Pe. Marcelo Rossi, e os católicos dançavam alegres.

Hoje eu creio firmemente que não importa qual o credo que está reverenciando o Senhor, pois Deus é o mesmo para todos. Se existe fé, respeito e amor, há uma religião verdadeira. Não estou aqui para julgar se há um credo verdadeiro e outros que são “falsificados”, se há uma religião que salva e outras que levam ao “fogo do inferno”. O que meu coração sente de forma sincera é que a paciência, a tolerância, o acolhimento,  a solidariedade, o amor, a sinceridade, o perdão e a humildade estão presentes onde Deus está. Aí existe uma religião, um canal que liga os seres humanos à Divindade.

Espero que no próximo domingo outra denominação religiosa, não importa qual, desfile em frente a minha varanda saudando a Deus com a mesma alegria e respeito que estas que por aqui já passaram. Que venham os evangélicos, os Hare Krishna, os islamitas (não jihadista, por favor), os messiânicos, os mórmons, os xintoístas, os judeus,  os budistas, enfim, mas que venham louvando a Deus com amor e espalhando o perfume da alegria e da comunhão. Amém.

Aonde a voz do povo não é a voz de Deus

mudaDesde menina ouço o provérbio “A voz do povo é a voz de Deus”, que vem do latim “Vox Populi, vox Dei” e era usada por gregos e romanos na Antiguidade.  Tito Lívio, por exemplo, emprega a expressão em sua obra Livros Desde a Fundação da Cidade de Roma (séc. 25 a 27 a.C). No século XVI Maquiavel a usa no livro O Príncipe, afirmando que a opinião pública é tão poderosa que se os governantes querem manter o poder nas mãos, devem ouvir a voz do povo porque ela mais sábia. Por outro lado, em O Contrato Social (séc. XVIII) Rousseau proclama o direito do povo não aceitar as determinações de seus governantes e usar a sua voz para expressar essa vontade.

Lembro-me de dois momentos em que manifestações parcialmente populares tiveram êxito no cenário nacional. O primeiro movimento foi Diretas Já idealizado pelo senador Teotônio Vilela, em 1983, após a o Congresso ter rejeitado a Emenda Constitucional Dante Oliveira que propunha eleições diretas. A sociedade civil apoiou maciçamente o movimento. Em todas as capitais praças eram lotadas por milhões de pessoas desejosas de, pela primeira vez em mais de vinte e cinco anos, poderem escolher seu presidente pelo voto direto. O segundo grande movimento foi o Caras-pintadas que exigia o impeachment de Collor, o que acabou ocorrendo em setembro de 1992.  Jovens com rostos pintados de verde e amarelo deram o tom ao movimento exitoso. Entretanto o impeachment aconteceu porque no meio político havia uma insatisfação geral e a pressão popular veio mesmo a calhar. Digamos então que nos dois casos a voz do povo (e dos políticos) foi a voz de Deus.

De lá para cá o povo perdeu a voz, tanto é que com a escolha de Renan Calheiros para presidência do Senado, houve uma gritaria geral. A revolta popular foi intensa uma vez que é inconcebível que um homem que esteve envolvido em escândalos e falcatruas (Renangate do laranjal, caso Mônica Cardoso, caso Schincariol e golpe do INSS0), duas vezes julgado pelos seus pares em plenário, afastado da presidência da Casa, retornar agora a despeito de a Pesquisa Ibope (encomendada pela  Avaaz) revelar que 74% da população era contra. A Avaaz levantou mais de 300.000 assinaturas numa petição online, mas o Senado manteve-se alheio a tudo isso.

Agora vivemos mais uma onda de manifestações contra a escolha de Marcos Feliciano, fundador, presidente e pastor da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, homofóbico confesso (para ele a “Aids é o câncer gay”), racista (declarou em seu twiter que os africanos são amaldiçoados porque a África é o berço da maldição), responder a uma ação penal e um inquérito no STF, ser escolhido para presidir a Comissão dos Direitos Humanos. O povo foi às ruas em dez capitais e sete cidades, tem petição do Avaaz em andamento, movimentos nas redes sociais, manifestação da OAB contra essa escolha, mas nada! Será este o homem que vai tratar de assuntos que dizem respeito às minorias (LGBT e negros dentre outros). Mais uma vez o povo perdeu a voz.

Chego, pois, a triste conclusão que o Brasil é o lugar aonde a voz do povo não é a voz de Deus. Se não temos voz, de certa forma, fomos destituídos de uma parcela da nossa humanidade, já que falar é uma característica humana! Entretanto, podemos dar o troco a esses mesmos políticos que se encastelam em Brasília e ficam surdos aos nossos apelos: vamos também emudecer a nossa outra voz, aquela voz que ergue, mas também derruba: nosso voto! Se o voto é a única voz audível para os políticos que em seu leque de escolhas incluem Renan Calheiros e Marcos Feliciano, fiquemos mudos então! Não votemos neles, coloquemos para fora todos os surdos à voz do povo e, portanto, surdos também à voz de Deus.

Turbilhão


Quando a vida da gente vira de ponta cabeça, começamos a juntar os pedacinhos que sobram. Nunca conseguimos colá-los nos locais exatos, mas, de um modo ou de outro, vamos dispondo-os da melhor forma possível. No entanto, quando uma fortaleza começa a ruir e por mais escoras que coloquemos não conseguimos contê-la, uma parte de nós desaba junto.

Ando tomada por uma estupefação sufocante. O inesperado tomou-me de surpresa, desarrumou minha vida, abalou meus alicerces. Tão repentinamente como um furacão que sai varrendo tudo e jogando para o alto o que está à frente… Tento ater-me a algum ponto que me ampare, fecho os olhos e penso: “Vai passar”.

Sou um fiapo de nuvem que procura em Deus a força e a coragem para continuar, buscando uma vereda segura e reconfortante, uma enseada plácida onde possa respirar baixinho, vazia de dores e temores e prenhe de esperanças.

Postado em 06/09/2012

Infinitude


Assombrava-me a ideia de finitude. Vivia ensimesmada remoendo um sentimento de urgência como se o mundo fosse acabar de uma hora para outra. Procurava entender o porquê desse estado angustiante, mas quem poderá ter resposta para o inquestionável? Os pensamentos não tinham meio só princípio e fim, como se ao iniciar uma ideia, de repente, perdesse a memória e chegasse ao final em completa estupefação pelo absurdo do processo.

Queria explicações, minúcias, detalhes dessa coisa a que chamamos vida. Onde de fato tem início a nossa linha do tempo? Ao nascer? Antes disso? De repente você acorda e pensa: sou gente, estou vivo e sou integrante de uma sociedade que se diz humana. Sou mulher, sou homem, sou menino, menina. Devo aprender listas intermináveis do que é certo e do que é errado. Terei pessoas escolhendo tudo para mim: comida, roupa, hora de dormir, tomar banho, brincar, os amiguinhos, escola…

Sem estar ainda preparada, embora pense ao contrário, dou-me conta que já sou dona de mim e de minhas escolhas. Passarei o resto da vida errando e acertando. Achando que tudo corre às mil maravilhas, para descobrir adiante que as maravilhas viraram pesadelos. Na trilhas das dos amores, ficarão o salpico de lágrimas, misturadas a marcas de batom vermelho com gosto de paixão e desejo e um réquiem no final.

Não sei se existe alguma forma, mas tentarei erguer margens a minha volta e deixarei que minha vida apenas flua, serena, vagarosa para em um momento qualquer, de um dia qualquer desaguar num oceano sem águas, num mar de nuvens, num espaço luminoso, no infinito. Então não haverá começos e nem fins. Apenas o sempre, o eterno e Deus.

Postado em 31/03/2012
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