Sem Sentido


Como barco perdido em meio ao oceano, meus pensamentos vagueiam numa mistura absurda de sentidos e falta deles. Por mais que queira coordenar o caos que se instalou em mim, minha vontade permanece estática. Falta-me força para organizar o meu eu partido em pedacinhos mil. É necessário juntar todos os cacos, não me permito abrir mão de nenhum deles, pois são partes deste quebra-cabeça que sou eu.

Passei a noite vagando na aridez de uma vida tantas vezes recomeçada, tentando encontrar a quietação necessária para conciliar o sono. Insone varei a madrugada úmida e vi os primeiros raios de sol clareando o dia. Uma névoa suave erguia-se do mar em direção ao céu e da minha janela vi pequenos barcos oscilando suavemente nas águas ainda noturnas. Vê-los era como enxergar-me balouçando nas ondas de uma solidão pegajosa, densa, sufocante.

Não me preocupa saber que há um fim para tudo. Essa certeza de finitude, aliás, é a única que tenho. Perturbar-me não encontrar respostas para minhas dúvidas e esta sensação de que deixei escapar aquele momento exato e único em que tudo é esclarecido. Cheguei ao clímax, mas perdi o desfecho de minha própria história. Sou personagem de um enredo cujo mistério me mantém suspensa desde que nasci. Desconheço-me.

Postado em 11/04/2012

Infinitude


Assombrava-me a ideia de finitude. Vivia ensimesmada remoendo um sentimento de urgência como se o mundo fosse acabar de uma hora para outra. Procurava entender o porquê desse estado angustiante, mas quem poderá ter resposta para o inquestionável? Os pensamentos não tinham meio só princípio e fim, como se ao iniciar uma ideia, de repente, perdesse a memória e chegasse ao final em completa estupefação pelo absurdo do processo.

Queria explicações, minúcias, detalhes dessa coisa a que chamamos vida. Onde de fato tem início a nossa linha do tempo? Ao nascer? Antes disso? De repente você acorda e pensa: sou gente, estou vivo e sou integrante de uma sociedade que se diz humana. Sou mulher, sou homem, sou menino, menina. Devo aprender listas intermináveis do que é certo e do que é errado. Terei pessoas escolhendo tudo para mim: comida, roupa, hora de dormir, tomar banho, brincar, os amiguinhos, escola…

Sem estar ainda preparada, embora pense ao contrário, dou-me conta que já sou dona de mim e de minhas escolhas. Passarei o resto da vida errando e acertando. Achando que tudo corre às mil maravilhas, para descobrir adiante que as maravilhas viraram pesadelos. Na trilhas das dos amores, ficarão o salpico de lágrimas, misturadas a marcas de batom vermelho com gosto de paixão e desejo e um réquiem no final.

Não sei se existe alguma forma, mas tentarei erguer margens a minha volta e deixarei que minha vida apenas flua, serena, vagarosa para em um momento qualquer, de um dia qualquer desaguar num oceano sem águas, num mar de nuvens, num espaço luminoso, no infinito. Então não haverá começos e nem fins. Apenas o sempre, o eterno e Deus.

Postado em 31/03/2012
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