Rota sem fuga

birdcage-454467__340As cercas passavam rápidas, apenas uma sombra borrada envolta pela neblina do dia prestes a amanhecer. Quantas vezes fizera aquele mesmo caminho? Quase a vida inteira. Sempre saindo do ponto A para o ponto B, vendo as mesmas paisagens, as mesmas curvas, os mesmos morros recortados ao longe.

Dessa vez faria diferente. Na primeira parada do ônibus pegou a mochila, foi ao guichê de passagens interestaduais. Uma hora depois ela estava sentada em outra poltrona de ônibus indo para outro estado. Doze horas a separavam do seu destino. Doze horas a separavam da vida que levara até aquele momento.

Chovia quando desembarcou na maior cidade do país. Pelo celular descobriu uma pensão perto do terminal rodoviário. Era pequena e limpa. Dormiu quase dez horas seguidas e ao acordar pensou no que faria dali para frente. No celular dezenas de mensagens. Não leu nenhuma. Deixou que o aparelho descarregasse.

No dia seguinte, comprou um chip novo. Aliás, comprou também algumas poucas mudas de roupa, inclusive roupas íntimas. Não queria nada que a fizesse recordar de sua antiga vida. Durante seis meses viveu naquela pensão e trabalhou como diarista. Juntou o que ganhou com o que já tinha no banco, tirou passaporte, comprou passagem para outro país.

O avião aterrissou numa manhã fria de inverno. Tudo ao redor era branco. A neve fina caía em pequenos flocos. Comprou um mapa na livraria do aeroporto. Para onde iria? Não importava. Qualquer lugar serviria. Não queria mais saber de rotina, horas marcadas, obrigações repetitivas. No passaporte estava escrito “turista”, mas ela sabia que ali era apenas o começo. Nunca mais levaria aquela vida severina de angústia, tristeza, dor.

Mudou o nome, a cor do cabelo, passou a usar lentes verdes. Ninguém a reconheceria se a vissem. Cortou a comunicação com os que ficaram para trás. Não mandou SMS, nem recadinho no Face ou no WhatsApp. Sumiu da vida de todo mundo. A única pessoa de quem não conseguiu fugir, apesar de tudo, foi dela mesma.

Auto do Sertão

 

retirantes

“Isso lá e vida! Fugindo por essa trilha de areia escaldante, no pino de meio dia com meus sete filhos! Eu sei, minha Nossa Senhora, que você também fugiu com seu filho ainda bebê por causa da loucura de Herodes, mas seu filho era muito bem apadrinhado, era filho de Deus. Não que os meus não sejam, afinal nós todos somos, mas o pai deles de sangue é um homem de carne e osso, não é o Criador, então eu tô em desvantagem…”

– Ô Tonho, você sabe mesmo pra onde tamo indo? Faz mais de duas horas que tamo andando nesse sol de fogo, os menino menor não vão aguentar andar muito mais não.

– Oxe, D. Joaninha, sei sim. Mais meia légua e a gente chega.

– Mainha, meia légua é muito?

– Não, Aurinha, daqui pouquinho a gente chega.

“Tadinha de Iaiá! Carregando a caçula no colo esse tempo todo. Armandina tá pesada. Também já tem quatro anos, já tá grande. O diabo desse tumor na bunda é que piorou tudo! A bichinha não pode nem andar, tem que ser carregada mesmo. Iaiá minha mocinha tão calada, tão quieta. Mais mãe de Armandina que eu mesma. Faz as vontades, está estragando a menina! Lembro de quando pari Iaiá. Só tinha um filho, o mais velho. Argemiro. Ô minha Nossa Senhora! Guarda meu menino que tá indo ao encontro da fera assassina! O que deu nele, meu Deus, pra se alistar nessa volante! Onde foi que Argemiro aprendeu a mexer com arma se nunca gostou nem de caçar! Se fosse o Valdinho, porque esse apesar da pouca idade atira que é uma beleza! Meu filho caçador… Tão quieto, cismado. Pra ele o mundo se resume em pendurá um aió no ombro, uma espingarda no outro e ganhar os matos atrás de passarinho. O pai vira uma fera quando o menino chega suado, o aió cheio de rolinha. Diz que o menino não vai dá pra nada na vida, que não quer saber de roça. Meu filho tem um coração tão bom. Me parte o coração quando o pai dá aqueles cascudos com os nó dos dedos… Meu caçadozinho só tem dez anos, o bichinho, deixa o menino ser feliz enquanto pode. Olha aí! Agora a gente tá aqui nessa caminhada do cão, fugindo e sem saber o que vai ser de nós”.

A caçula começou a choramingar no colo da irmã.

– Tapa a boca dela, Iaiá! Essa chorona vai acabar fazendo com que os cangaceiros ache a gente! Tape a boca dela com força, vá!

– Oxente, Juca! Que é isso, meu filho? Ela tá sentindo dor, o tumor rasgou e tá supurando! Ela não chora à toa não! Você falando alto desse jeito chama mais atenção que o choro da menina!

“Ói como amarra a cara esse menino! Meu filho tão genioso! Menino brabo! De poucas palavras, mas quando pega amizade com alguém é desses que dá a vida se for preciso. Fiel, sincero só tá até ali. Só queria, minha Virgem Maria, que ele fosse mais manso. Seu filho era mansinho e você não sabe o que é ter oito filho, cada um de um jeito, cada um com uma natureza. A gente ama todos da mesma forma, sofre por eles do mesmo jeito. Vou lhe dizer uma coisa, e a senhora vai me desculpar, minha fugida aqui é muito pior que a sua! Mas nem se compara! Você tava com seu marido José, só tinha um menino e o anjo ainda aparecia em sonho pra avisar dos perigo. Eu tô só com os meus meninos, acompanhada desse moleque Tonho que não protege nem ele mesmo, e nenhum anjo me apareceu avisando que faltando poucos dias pro Natal eu ia sair correndo pelos matos fugindo de cangaceiro.”

– Chegamo. Agora a gente vai ter que se abaixar e rasteja até aquelas moita ali de espinheiro. Oiando daqui parece que não cabe ninguém, mas é oco embaixo e tem sombra. Só tem que ter cuidado pra não se furar. Pra entrar tem que rastejá, não tem outro jeito.

– Melhor então primeiro você ir, Iaiá.

– Mainha, e Armandina? Como é que ela vai fazer?

– Ela engatinha. Só pode ser assim.

– Oxe, Jonas! O chão tá quente demais! Se colocar ela no chão ela vai gritar ainda mais! Eu sei o que vou fazer.

Iaiá mandou que a irmã segurasse em seu pescoço e amarrou a manta por cima. Com todo cuidado foi se arrastando na areia fervendo até sumir pelos espinheiros. Um a um foram sendo engolidos pela moita. Tonho pegou uns galhos de favela, voltou um bom pedaço e foi andando de costas em direção à moita passando os galhos arrancados na areia para apagar os rastros. Foi o último a se esconder.

“Tamo igual bicho entocado. Isso lá é vida! Olha só meus filhos como estão! Suados, sapecados do sol, com fome. Fugimos antes do almoço, não deu tempo nem de engolir um bocado de feijão. Eles devem tá com sede. Olha os olhinhos do meu Mário. O bichinho é tão pequeno ainda, oito anos. Tão apegado a mim. Sinto a mãozinha dele no meu braço e ele com esse olhar de medo tão grande! Aurinha também está tão assustada, tadinha! As lágrimas correm dos olhos miúdos desde que saímos do Macaco.“

– Mainha, tô com sede…

– Eu também.

– Passe o odre aí, Jonas.

A mãe tira uma caneca de esmalte de uma pequena trouxa coloca um pouco de água e vai distribuindo entre todos, inclusive ela mesma e Tonho.

– Não podemos beber muito porque a gente não sabe quanto tempo vamos ficar aqui. Tem umas bananas aqui e vou dar uma a cada um.

“Tão morrendo de fome. Tão com o café da manhã e já deve ser umas quatro da tarde. O Jonas engoliu a banana quase de uma vez. Esse é o meu vaqueiro. Tão espigado e tão forte ao mesmo tempo. Adora roça, os bichos, conhece o gado pelo mugido. Nasceu com o lábio cortado, mas é tão altivo que a gente acaba nem percebendo isso. Que aflição, meu Deus do céu, ficar assim entocado sem saber o que tá acontecendo direito! Armandina está chorando de novo. Esse furunco tá maltratando demais, coitada!”

– Me dá ela, Iaiá. Deixa eu ver como está isso aí.

– D. Joaninha, faça ela parar pois tenho a impressão que estou ouvindo barulho de cavalos.

– A gente vai morrer por causa dessa esgoelada!

– Psi! Fiquem quietos!

A mãe deita a menina de barriga para baixo no colo, coloca a mão na boca para abafar o choro e fecha os olhos. Lá fora começa a escurecer. Ouve-se o tropel de cavalos e uma sanfona toca uma modinha. Uma voz rouca entoa música desconhecida:

Minha mãe me dê dinheiro

Pra comprar um caminhão

Pra encher de moça bonita,

Pra levar pra Lampião,

É Lampa, é Lampa, é Lampa,

É Lampa, é Lampião.[1]

 O medo invade a moita de espinheiro paralisando aquelas nove pessoas.

 “Quando que eu ia imaginar que um dia viveria tamanho pesadelo! Ao me levantar de manhã minha única preocupação era cuidar da comida, dos meninos. Dominguinhos tinha ido pra Tucano na sexta e só voltaria na segunda. A feira ele tinha mandado pelo vaqueiro na véspera, portanto seria um dia de domingo calmo. Se não fosse por Armandina que chorava o tempo todo, hoje seria um dia seria tranquilo. Mas foi tudo tão diferente… Como a vida engana a gente. Desde o momento que Mário entrou correndo na cozinha dizendo que o pai estava chegando na cancela, meu coração ficou apertado…”

***

– Painho tá vindo aí. Tá lá na cancela. Ele mais Nequinha.

A mulher nada responde, mas uma leve expressão de espanto surge em seus olhos. Alguma coisa acontecera, pois o marido fora para a cidade na sexta no intuito de voltar na segunda. O que será que tinha acontecido? E isso de Nequinha vir junto então! Seus pensamentos foram interrompidos pelo choro da menina pequena deitada numa esteira na sala ao lado. O outro menino chega correndo.

– Painho tá apeando lá na frente!

– Valdinho, pegue Armandina e fique na rede com ela, ajeita ela ali pra ver se para de chorar.

O homem alto e esguio para na soleira da porta da cozinha. Depois vai até a cantareira, pega um caneco de esmalte e tira água fresca de um pote. Bebe em grandes goles.

– Cadê as meninas?

– Iaiá foi lavar roupa na fonte e Aurinha foi junto.

– Juca? Jonas?

– Jonas eu acho que foi pro pasto mais Tonho. Foram ver uma ovelha parida. Juca deve tá voltando do brejo. Pedi pra ele pegar umas folha de pinha pra fazer um chá.

– O que é que essa menina tem que não cala a boca?! Valdinho, vai no brejo e de lá vai no pasto e diz aos meninos que venham agora! Mário, chama suas irmãs. Diga a Iaiá que traga a roupa molhada do jeito que tiver. Rápido! Vai, menino! E essa menina berrando assim? Faz ela calar a boca, Joaninha!

– O furunco da bunda tá já rasgando. Tô fazendo um emplastro pra puxar o carnegão e ver se assim alivia.

– Lampião tá chegando em Tucano. Ele e o bando. Nove horas da manhã chegou uma pessoa avisando que ele desde ontem estava no Cumbe e hoje está se preparando pra vir pra cá. Vai passar por aqui. Você e os meninos vão ter que se esconder.

– Mas você não vai com a gente?

– Não. Tenho que ficar pra não deixar a fazenda à toa. Nequinha fica comigo. Tonho vai com vocês. Nequinha foi atrás dele pra explicar tudo. Ele sabe onde fica o lugar que vocês vão se esconder. É seguro. Mais seguro do que se ficar aqui. Tá todo mundo fugindo. Quando saí de Tucano só se via gente saindo de trouxa debaixo do braço.

– Dominguinhos, e Argemiro? Teve notícia dele? Ele vai ficar onde?

– Quando a notícia chegou o major pediu que alguns homens se juntassem aos soldados para enfrentar os cangaceiros caso haja mesmo um embate. Ele foi um dos que se alistou.

A mulher empalideceu. As mãos que espalhavam o emplastro num pano velho tremiam visivelmente. Nesse momento chegam as duas filhas que estavam na fonte e Mário. Valdinho, Juca e Jonas chegam minutos depois. Ninguém pergunta nada. Ficam mudos olhando a figura paterna.

-Iaiá, encha o odre com água fresca e pegue umas bananas aí na despensa. Vocês vão acompanhar Tonho para um lugar seguro porque Lampião está vindo aí com o bando. Não quero choro, nem conversa e nada de dar trabalho a mãe de vocês. Bebam água que vão todos agora. Assim que estiver seguro por aqui, vou lá buscar vocês. Tonho!

– Sim, seu Dominguinho!

– Nequinha já falou com você não foi? Então avie! Vão, vão logo.

A mãe só tivera tempo de pegar uma manta e o xale para cobrir a cabeça. Saíram pela porta que dava pro terreiro. O homem ficou parado olhando. Depois com a mão trêmula, fechou a porta.

***

Não se ouve respiração de ninguém naquele emaranhado de galhos espinhentos. Até a pequena Armandina parara de chorar. A mãe teme que afilha tenha morrido sufocada pela mão que ainda tapa fortemente a boca da criança. Risos, gritos, música e fiapos de conversa dos cangaceiros, aos poucos, vão diminuindo.  Não se houve mais nenhum ruído.

“Minha Virgem Maria, o pior já passou! Deus também me ajudou nessa fuga terrível. Você é mãe, eu sou mãe, fugimos pra proteger nossos filhos. Meu coração só não está de todo sossegado porque meu mais velho anda metido numa farda de soldado pronto a lutar contra esse bando. Dai livramento a ele, minha Santa, dai livramento. Amém!”

Aquele dia 26 de dezembro de 1928 jamais seria esquecido.

Notas

Uma parte do bando de Lampião chegou à fazenda de meu avô sem o seu líder. Um dos cangaceiros tomou para si o facão do vaqueiro que lá trabalhava. Assim que Lampião chegou com o resto do bando, meu avô contou-lhe o corrido e este fez com que seu subordinado devolvesse o facão ao dono. Fora esse incidente, os cangaceiros não fizeram nada de mal.

Meu tio Argemiro participou do embate com o bando, mas saiu ileso.

Minha mãe recordava perfeitamente da música tocada pelos cangaceiros e da mãe tapando-lhe a boca para abafar o choro.

 


[1]ROCHA, Rubens. Caminhos de Lampião, 2009, p.25.

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