Jamaal – o menino que jogava bola

 

 

The-Hand-Face-And-Heart-of-God

O silvo metálico cortou a noite e no torpor do sono, Jamaal confundiu o ruído com o esgarçar de um tecido fino e resistente. “Mamãe deve estar fazendo o belo vestido de seda verde para a festa da vovó”. Porém, um estrondo seguido de paredes que desabavam, gritos, silvos e mais silvos de bombas que explodiam, o despertaram. Não enxergava nada em meio à escuridão, não conseguia respirar, pois um pó espesso enchia seus pulmões de tal forma que a mínima contração causava-lhe dores lancinantes.

Onde estavam todos? O pai, os irmãos, a mãe, os primos que tinham ido visitá-los e ficado para pernoitar, temendo voltar para casa com a noite adiantada. Não conseguia mover-se. Seu pequeno corpo estava preso nos escombros do que antes havia sido um quarto. Fechou os olhos e um sono estranho foi se acercando dele. Viu-se no pequeno espaço que havia descoberto com os amigos Aarif, Lutfi, Ghassaam e seu irmão Maa’iz, jogando uma velha bola que encontraram entre as pedras de um muro caído. Tudo foi obra do acaso. Estavam correndo entre as vielas atulhadas de areia, pedra e pedaços de ferro quando avistaram por trás de uma casa totalmente bombardeada o que teria sido o pátio interno inteiramente intacto e, debaixo de umas pedras, a bola encardida. Certamente Alá preservara aquilo ali para deliciá-los nos poucos momentos sem bombas explodindo, sem mísseis cortando os ares.

O local ficava muito perto do muro que dava pra Israel, por isso jogavam quase sem falar, xingando baixinho quando erravam os passes ou levavam uma falta, rindo quando metiam a bola entre dois tijolos, afinal, tinha sido gol. Naqueles poucos instantes de felicidade pura não havia guerra, nem morte, nem terrorismo, nem dor. Eram apenas meninos jogando um futebol rudimentar, mas jogando futebol, sendo meninos. Um dia Lutfi ia marcar um pênalti e parou olhando por cima de suas cabeças, o terror estampado no rosto. Todos se viraram ao mesmo tempo e viram três pequenos rostos que observam a brincadeira deles por meio de um buraco no muro. Eram garotos israelenses. Por algum tempo ninguém disse nada. Maa’iz, o mais valente deles, fez um gesto de chamamento e os três judeuzinhos juntaram-se a eles a correm atrás da bola. A partir de então, quando o acaso sorria a favor da garotada, Aviel, Elad e Haskel juntavam-se ao time de meninos palestinos para fazerem sua copa do mundo onde a única regra era correr, fazer gol e ser feliz.

Jamaal ouviu alguém chorar muito alto. Era um lamento doloroso que ele não sabia de onde vinha. Não dava para discernir se havia outra pessoa dentro do que restara de sua casa ou em outras tantas casas destruídas ao redor após aquele ataque. Fechou os olhos e estava indo por uma estrada sinuosa, chegando a Ekron onde os pais de seu pai moravam. Era o aniversário da avó, a mãe estava linda no vestido novo de seda. Papai comprara um keffiyeh[1] novo. Todos podiam sentir o cheiro bom do maqluba[2] e o aroma delicioso do pudim de tâmaras que só a vovó fazia tão gostoso. Mais uma vez Jamaal ouviu gritos e sussurrou sa Iduni, sa Iduni[3]. Uma luz azulada começou a vir de uma réstia da parede em frente, alguém ouvira seu pedido de ajuda e estava vindo para socorrer-lhe. Sentiu-se em paz.

Do outro lado do muro Aviel acordou com as explosões tão próximas. O pai reuniu toda a família no quarto mais ao fundo da casa e manteve todos juntos, colocando o dedo nos lábios num pedido de silêncio. Dava para ouvir os lamentos que vinham do lado palestino. Aviel pensou em Jamaal, Lutfi, Ghassaan e Maa’iz. Sentiu um aperto no coração. Em pensamento pediu a Yahweh que protegesse seus amigos, que cuidasse deles. Assim que o dia clareou saiu pelo portão dos fundos tentando ir até o ponto cego do muro onde ele, Elad e Haskel passavam, mas havia muitos soldados. Um pastor de ovelhas, apoiado no seu cajado tocou em seu ombro e disse: “Volte para casa, está tudo bem”. Voltou correndo a tempo de ouvir o pai recitar em voz alta: “גם כי אלך בגיא צלמוות, אני חושש לא רע: להאתה איתי; מטך וצוות שלך שהם לנחם אות” (Ainda que ande no Vale da Sombra da Morte não temerei mal algum, a tua vara e o teu cajado me consolam).

Jamaal ouviu o muezim[4] chamar o fieis de algum minarete próximo.  Sentiu uma mão morna tocar-lhe de leve o braço. Abriu os olhos e viu aquele homem de olhar sereno e triste, apoiado em seu cajado de pastor: “Vamos, Jamaal, está tudo bem agora”. Levantou-se e foi de mãos dadas com aquele homem em meio a um túnel de luz azul, cada vez mais brilhante. No final do túnel deparou-se com o maior campo de futebol que jamais vira na terra. Nele meninos corriam alegremente atrás de bolas coloridas, entre risos e gritos. Meninos de peiot[5], ou vestidos em túnicas coloridas, trajando jeans e camisetas, bermudas brancas com camisas verde e amarela, loiros de olhos azuis, negros com olhos de jabuticaba, branquelos com olhinhos puxados. Garotos sustentando seus quipás no alto da cabeça, meninos cujos keffiyeh esvoaçavam em plenitude de felicidade. De todas as partes do mundo crianças corriam num êxtase de felicidade total. O pastor olhou para Jamaal e falou com mansidão: “Vá brincar, Jamaal, vá ser feliz”.

 

[1] Também conhecido como lenço palestino, é usado na cabeça pelos homens no Oriente Médio

[1] Arroz de forno com açafrão, canela, noz moscada, carne de cordeiro, vegetais e grão de bico.

[2] Me ajude

[3] Muezin: o religioso que convoca os muçulmanos para as orações.

[4] Cachinhos usados pelos judeus ortodoxos

 

vergonhaNacional1


Estamos vivendo momentos difíceis no país e no mundo. Por aqui escândalos políticos acumulam-se uns sobre os outros. O povo vai remando contra a maré, tentando equilibrar-se nesse mar de lama. Com a chegada do verão faz medo ligar os ventiladores, afinal não se sabe o que vai voar…

Ah! Brasil, Brasil! Como pode você ser tão majestoso, com riquezas tão grandes, uma pujança que faz corar países de tons pastéis do outro lado do Atlântico, ser assim devastado não por terremotos que soterram crianças, ou ondas gigantescas que engolem cidades, nem furacões que deixam em sua passagem um rastro de destruição, nem vulcões que cospem furiosos toneladas de lavas incandescentes.

A nossa vergonha tem nome, CPF e endereço certo. Tem cor. Já foi verde e amarelo, agora é cor de burro quando foge… O nosso batuque hoje tem um som de caixas dois. A feijoada foi substituída pela pizza. O futebol cedeu espaço a outro jogo: o do poder, do tráfico de influências.

Como disse o poeta “não me convidaram pra essa festa…”, mas mostraram a cara. Houve uma época em que se dizia que Deus era brasileiro. Mas até Ele, não suportou a bandalheira e tirou férias por tempo indeterminado…

Postado em 18/11/2011
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