Ano Novo, planos novos

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Finda o ano de 2013. Nas minhas mais remotas lembranças, recordo que sempre no começo de um novo ano há uma avalanche de promessas, propósitos, juras, projetos de mudanças que na maioria dos casos não serão cumpridos. Apesar desse não cumprimento ao que foi prometido, há sempre a esperança, afinal “vai que um anjo da boca mole diga amém” e aí a coisa dê certo, não é mesmo?

Não me lembro de ter feito promessas em viradas de ano há muitas década, mas isso não quer dizer que não tenho desejos que gostaria de ver realizados. Apenas não aposto todas as fichas, não os coloco na pasta “consumados”, prefiro mantê-los na seção “passíveis de realização”. Esta tática é uma tentativa de proteger-me ante as desilusões. Deu certo? Maravilha! Não deu? Bom, nesse caso os danos são pequenos arranhões, do tipo “passa com um beijo”.

Não estão incluídos em meus desejos, por exemplo, a aquisição de um apartamento na Avenue Montaigne em Paris. Dar-me-ei por satisfeita se conseguir fazer pequenos consertos em minha casa, tipo aplicar massa corrida e pintura. Isso será o bastante para comemorar em grande estilo, quem sabe até com um Coq au vin acompanhado de um bom Pinot Noir e Petit Gateau de sobremesa. Não teríamos a Avenue Montaigne, mas o toque francês cairia bem.

Também não projeto uma viagem ao exterior, pelo menos não agora, ao preço de dezenas de euros ou dólares. Claro que seria maravilhoso conhecer algumas cidades europeias, tomar um barco no Parque de el Retiro, visitar o Museo del Prado em Madri, ou admirar a beleza da Fontana dei Quattro Fiumi  na Piazza Navona em Roma. Na impossibilidade de seguir tal roteiro pegar um avião em Salvador e chegar à bela Londrina no Paraná, para onde vou em abril, já me enche de alegria e boas expectativas. Prefiro colocar meus desejos dentro das minhas possibilidades, naquilo que posso tornar possível.

De resto, o que mais espero para 2014? Espero continuar cheia de saúde, espero ver meus entes amados saudáveis e felizes. Sei que vou ficar triste muitas vezes, mas farei tudo para não perder a alegria, não apagar meu sorriso. Exercitar a paciência também é uma boa pedida. Aprender a ouvir, saber calar, estender a mão, oferecer colo, partilhar, compartilhar, dividir, somar sempre que possível. Não perder a capacidade de enxergar a beleza do mar, das flores, do voo das borboletas, da chuva que cai, do dia que amanhece, da tarde que se vai em poentes de raro esplendor é um propósito firme. Entretanto, acima de tudo o plano maior é exercitar minha humanidade, enxergar no próximo uma extensão de mim, ver o mundo e as pessoas com olhos de compreensão.

Feliz 2014 a todos nós!

Humanidade


As luzes piscavam em meio à chuva como pequenos fachos coloridos. Hesitei por uns instantes entre ficar na segurança enxuta do restaurante e sair à rua garoenta àquela hora da noite. Resoluta, levantei a gola do casaco e mergulhei no espaço chuvoso e frio. Voltar para casa era a coisa mais racional a fazer, entretanto algo me impelia a caminhar sem direção certa.

Os rumores do trânsito, abafados pelo caos de meus pensamentos, eram quase inaudíveis. Estavam ali, eu o sabia, uma cantilena chorosa da cidade ainda desperta. Os pingos de chuva escorriam em meu rosto deixando-o gelado, entretanto não me sentia incomodada com isso, ao contrário, eram como carícia leve de mão amorosa.

Ao virar uma esquina avistei a pracinha vazia. Atravessei a rua, sentei-me no banco molhado. Um longo suspiro saiu do meu peito. Fechei os olhos. O que significava viver, afinal de contas? Acordar todas as manhãs, sair para o trabalho, exaurir parte da vida nesse correcorre repetitório? Trabalhar para ter… Ter comida, casa e demais coisas necessárias para se viver dignamente, e milhares de outras, gestadas pelo mundo moderno, dispensáveis até serem adquiridas; escravizantes após tê-las? Viver é isso?

Um gemido leve despertou-me daquele flerte com Kierkegaard. Um pequeno cão, molhado, de olhos tristes, transido de frio, estava ali a meus pés, tentando se proteger embaixo do banco. Éramos os únicos seres naquela praça chuvosa. Peguei-o no colo e de repente era como se tivesse acordado de um sono prolongado. O que eu estava fazendo ali debaixo de chuva, quase meia-noite num banco de praça? Era hora de voltar para casa! Ao olhar para frente, do outro lado da rua estava meu prédio. Inconscientemente eu fizera o caminho de casa.

Naquela fração de segundo eu entendi tudo. Viver é exatamente isso. Acordar, fazer coisas grandes e tantas outras insignificantes, porém necessárias. Trabalhar, sair, consumir o não essencial, mas acima de tudo, sorrir, amar, cantar, divertir-se. Viver era levar para casa um cãozinho perdido, faminto, molhado e dar-lhe nome, carinho, refúgio seguro. Viver é exercitar a nossa humanidade em pequenos gestos.

Postado em 07/12/2011
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