Grades pra que te quero

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Acordei com o som de marteladas fortes.  O relógio marcava seis horas da manhã. Quem em sã consciência começa a martelar seis horas de uma manhã de domingo?! Levantei disposta a comprar briga com o doido ou doida que interrompera meu sono.  Pela janela do quarto pude ver meu vizinho em pé na calçada, martelo em punho, pregos no canto da boca.

— Seu Antônio, que barulheira é essa?

— Bom dia flor do dia! — Partiu de lá meu vizinho tirando os pregos presos entre os dentes. — Tem barulho ainda não, menina, barulho vai ter quando o Zuzinha trouxer a furadeira e as grades que foi buscar na casa do ferreiro Miguel.  Vai ser tanto barulho que vou botar algodão nos ouvidos e você trate de fazer o mesmo, viu?

— Mas o que o senhor está fazendo? Trocando a janela?

— Oxente! E você não soube não? Deu ladrão no casarão dos Silveira faz dois dias. Carregaram tudo, até o bujão os ladrões tiraram do fogão e levaram. Fizeram uma limpa! E olhe que tava todo mundo dentro de casa! É certo que tavam dormindo e não ouviram nada. Mas essa gente tem sono pesado demais, não acha não? Ainda comeram pão, tomaram café e deixaram os pratos sujos na mesa da cozinha. Por conta disso resolvi gradear minhas janelas.

As janelas de Seu Antônio eram tão estreitas que se fossem arrancadas e ficasse só a esquadria, não dava para passar uma criança . Eram três janelinhas do tipo que a folha abre apenas na diagonal com uma largura de dez centímetros. Eu costumava chamá-las de “janelas ciclópicas”, porque mais pareciam três olhos semicerrados.

— Mas, Seu Antônio, não há nenhuma possibilidade de alguém poder entrar por suas janelas, elas são muitos estreitas!

— Você que pensa! Ladrão é bicho arteiro! Eles sobem em muro alto sem precisar de escada, passam por entre os caibros do telhado, imagina se eles não passam por aqui! Passam! Prendem a respiração, esticam o corpo todo e passam! Vou gradear e pronto!

Nesse momento Zuzinha volta trazendo uma informação importante:

— Pai, o ferreiro Miguel falou que não tem como fazer grade pra essa estreitura de janela não. Diz ele que o senhor fique descansado que por essas aqui de casa ninguém entra!

Seu Antônio sacudindo o martelo como se fosse uma funda começou a vociferar:

— Mas ele é muito atrevido! Não faltava mais nada! A janela é minha e eu faço o que quiser! Não faz grade estreita não? Pois eu vou mostrar se gradeio ou não as daqui de casa!  Vou meter a marreta, derrubar essas três e fazer um janelão de dois metros, aí quero ver qual é a desculpa que ele vai dar.

E sem titubear pegou a marreta e derrubou os olhos ciclópicos da fachada da casa. O problema de Seu Antônio não era com os ladrões; era uma questão de afinidade com grades. Aliás, enquanto os ladrões fogem para ficar fora das grades, tudo que Seu Antônio queria era estar atrás delas…

Sempre há um novo amanhã


Freud dizia que todo o trauma psicológico é de origem sexual. Quem sou eu para discordar do pai da psicanálise, mas creio que os nossos maiores problemas centram-se na carência afetiva. Não quero dizer com isso que sexo não é bom e nem primordial em nossas vidas, muito pelo contrário! Mas dói muito mais a falta de uma mão carinhosa escorregando pelos nossos cabelos, um abraço carinhoso, um beijo afetuoso. Dói essa sensação de se estar só, de saber-se só…


O ser humano não foi moldado para a solidão. Não somos “auto-sustentáveis”, estamos sempre na dependência do outro. Uma mão se encaixa em outra, para que juntas possam agir e interagir. O dito popular já diz que “duas cabeças pensam melhor que uma”. Portanto, duas pessoas sempre farão algo mais proveitoso: uma termina o que a outra começa, ou conserta o que foi começado mas não está a contento. Se nos bastássemos a nós mesmos não seríamos esse ser tão gregário: amontoamo-nos nas favelas, nos edifícios, nas estações de metrô, nos shoppings, nos cinemas. Não há diversão para um único espectador, nem futebol sem torcida, nem carnaval sem folião.


A vida nossa de cada dia é formada por uma infinidade de pequenas coisas. Um sorriso aqui, uma lágrima chorada às escondidas ali, conversas entre amigos, contas a pagar, planos a curto, médio e longo prazo.

Às vezes, da janela de meu quarto olho o pedacinho de céu — quase sempre azul — e ponho-me a pensar que por mais difícil por mais sofrida que seja a vida, viver é maravilhoso! Os problemas não duram para sempre, as dificuldades vêm e vão. Em algumas ocasiões, passam com extrema rapidez, noutras, demoram um pouco mais, como o galho levado pela enxurrada que fica preso na curva do rio: passa dias e dias ali retido, mas chega um determinado momento que a força da água o carrega para longe. O bom de tudo é termos sempre a certeza de que o amanhã virá, quiçá cheio de boas novas. Por isso, feliz amanhã para todos nós


Postado em 08/08/2011
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