Etérea Eternidade


Quem dera eu pudesse prender em minh’alma
a juventude eterna,
e não sentir que o tempo passa célere
pela minha pele, tentando tirar o viço,
querendo roubar a cor dos meus cabelos,
teimosamente pintados de rubro.
E tenta apagar a luz de meus olhos
que insisto em acender a todo instante,
nem que seja com o brilho de uma lágrima.
O tempo quer sufocar a voz
presa em minha garganta,
mas eu a solto com a força de quem tem fé.
Ele pensa que é mais esperto do que eu,
e lança sua força pra abater-me, mas endureço meu espírito
e deixo-o alçar vôo livre como o condor.
Meu corpo buscou nos quatro elementos da natureza
a matéria imortal, os elementos que tudo formam:
sou, fogo, água, terra, vento
sou humana e divina,
sou mulher e menina.
Ficarei para sempre suspensa entre o céu e a terra
misturada na poeira cósmica do universo,
porque trago em mim a centelha da divindade!

Postado em 18/12/2011

Contemplação


Todos os dias ela subia a colina no final da tarde, um pouco antes do lusco-fusco e ficava olhando o sol declinar vagarosamente no horizonte. Cabelos ao vento, braços abertos, cabeça inclinada para trás como se estivesse flertando desdenhosamente com o astro-rei enquanto ele ia perdendo sua luz.

Todos os dias o velhinho que morava perto dali, sentava numa pedra a alguns metros do local para admirar tão inusitada cena. Era bonito ver a silhueta daquela mocinha recortada nas sombras do entardecer. Não sabia quem era ela, nem nunca se interessara em saber, mas já fazia muito tempo que esse ritual se repetia. Quando começou ela era uma garotinha que, pelo talhe, deveria ter uns onze, doze anos. Hoje o corpo visto ao longe era de uma mulher. Seios arfando, cintura delgada, pernas firmes.

Não havia cupidez no olhar do homem, nenhum traço de sensualidade. Não era nada relacionado a esse aspecto que o levava todos os dias – mesmo quando chovia – àquela pedra para contemplar a moça de longos cabelos ao vento. Ele, já bem idoso, via aquilo como um pulsar de vida. Vida em latência. Todos os dias, àquela hora, a vida renascia naquela colina através de um simples e poético gesto de contemplação. Para a mocinha, talvez o sol fosse vida em estado puro que ela ia beber à tardinha. Para ele, mocinha e sol e entardecer eram vida em estado puro que ele sorvia aos poucos, em pequenas doses diárias.

Um dia, a mocinha não apareceu. O sol, nesse dia, custou a se esconder, talvez – quem sabe – narcisista do jeito que é, estivesse a espera de sua admiradora. A tarde encompridou, o céu ficou claro por mais tempo. Ela não veio. Ele, o sol, foi desmaiando seus raios pela terra. Ele, o velho homem, sentiu o coração pulsar lentamente, desmaiando no peito.

Três meses se passaram desde a última tarde em que certa moça subiu a colina para abraçar o sol. Sob a fria pedra na colina agora descansa o corpo do velhinho. Foi ali que ele pediu que o colocassem quando a vida se foi com o último raio de luz.
Postado em 15/07/2011
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