Esconderijos

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Gosto de lugares em que possa esconder minha alma atribulada. Vãos embaixo de escadas são ótimos para isso porque têm um pouco de sombra e de luz, mais sombra talvez.  Ultimamente escolhi a opacidade como vitrine de mim mesma. Essa história de ser transparente não é nada conveniente, pois dá margem a todo mundo achar que nos conhece muito bem e que somos um livro aberto sem páginas dobradas, rasgadas, faltando.

Não quero ninguém radiografando minha alma, minha vida, meus pensamentos.  Opto pela incógnita, pelo jogo do esconde-esconde, pelo mistério. Que coisa mais sem graça essa de andar se desnudando, mostrando-se inteiramente sem nenhum véu, por menor que seja, cobrindo algumas partes do eu mesma. Oculto minh ‘alma sob grossa  burca e deixo que a curiosidade alheia adivinhe o que há por baixo dela.

Vou andar por aí cobrindo meus desejos e anseios, tristezas e choros, decepções e tomadas de decisão com a capa da invisibilidade. Quem quiser me conhecer a fundo, olhe-me demoradamente e com cuidado, procure perceber nos detalhes o que me aflige ou alegra. Não precisa discursar amizade, nem gritar aos quatro ventos que me ama. Quando perceber algo, seja o que for, basta que toque meu ombro com mão morna e sem palavras faça que eu ouça com o coração: “estou aqui com você”.

Pontos de luz


Saudades são como pontos de luz que brilham em nós alegrando-nos ou entristecendo-nos. Mas viver sem saudade é como ter deixado a página em branco, não ter vivido. Gosto de sentir saudade principalmente pela certeza de que não deixei para trás nada que pudesse ter sido diferente. Minha vida é fruto de minhas escolhas, portanto minhas saudades foram escolhidas lá atrás e são parte de mim.

Não lamento chorar por tristes lembranças, pois minha lucidez entende que felicidade amiúde é coisa impossível. Da mesma forma que tristeza amiúde é patologia e deve, portanto, ser tratada. O bom da vida é justamente este oscilar entre momentos alegres e tristes, bons e maus. Cada um, a seu tempo, tem seu valor e sua necessidade. Tudo que permanece igual por muito tempo vira monotonia.

Aproveitar cada instante, usufruir pequenos segundos preenchidos com sentimentos variados, mas que se intercalam e muitas vezes até se mesclam, requer sabedoria e paciência. O tempo não obedece a nossa vontade, é ele que dita os instantes que formam essa teia chamada vida. A nós cabe o esforço necessário, jamais além de nossas próprias possibilidade, de ir aproveitando esse tempo com o cuidado de não desperdiçar nenhum momento, porque um mínimo segundo pode ser fonte de inexplicável prazer e felicidade.

Costuro minha vida dessa forma simples. O que chega para mim vou aceitando o que quero, empurrando para o fundo de uma gaveta o que não me agrada, explorando o que sei que dará bons frutos, aprendendo com meu erros e ouvindo quem sabe mais do que eu. Sou boa discípula, pois tenho certeza de que há muita coisa reservada em meu futuro, boas e más, e saberei dar conta de cada uma delas. No fim tudo será apenas pontos de luz, ou seja, saudades.

Postado em 12/08/2012

Fiat Lux[1]


A única luz que entrava naquele quarto vinha através de uma fresta do telhado. Um raio de claridade descia do alto ao chão e era possível ver grãos minúsculos de pó suspensos num ir e vir ininterrupto. Deitada na pequena cama olhando esse ponto luminoso, era como se estivesse vendo tudo de um lugar fora de meu corpo. Via-me ali inerte, olhos abertos fixos na tênue claridade.

Os pensamentos atropelavam-se como se empurrados por uma onda imensa de saudade e angústia. Imagens de tempos idos vinham em flashes, entrelaçados no tempo e no espaço sem obedecer a uma ordem cronológica. Alguma coisa se rompera e trouxera o caos, esse caos absurdamente doloroso, sufocante.

O que fazer quando todas as perspectivas diluem-se num átimo impreciso, sem deixar rastros nem possibilidade de retorno? Como lidar com ausências insupríveis? Que fórmula mágica seria capaz de subverter o imenso vazio daquela vida pautada em metáforas subtraídas de um conjunto de ideações? Onde encontrar respostas para inquietações que teimam em buscar um elemento resolúvel?

Inesperadamente o raio de luz projetou-se em meu rosto, obrigando-me a fechar os olhos. Fui envolvida numa mornura gostosa como colo de alguém muito amado. Um conforto, a princípio sutil, foi tomando meu corpo, minha alma, meu coração. A gelidez, antes dona de mim, aos poucos foi dando lugar a algo que penetrava como fagulhas e trazia-me de volta à realidade. Compreendi que a vida é isso, saudades, começos, finais, recomeços, risos, lágrimas, conquistas, fracassos, amores, desamores, escuridão e, no fim, a luz. Não importa que seja apenas um pequeno raio vindo de uma fenda nas telhas, mas é luz e na claridade enxergamos melhor e podemos entender alguns dos mistérios desse que é o nosso maior mistério: a vida.

Postado em 15/01/2012

[1] Fiat Lux: Expressão latina que significa “faça-se luz”.

Flores de Primavera


Um sentimento diferente, talvez inusitado, envolvia aquele lugar. Meio inexplicável… Era possível sentir como lâmina fina que suavemente roça a pele, mas não a corta. No ar um cálido perfume, daqueles que aspiramos com tanto prazer que prendemos a respiração para retê-lo um pouco dentro de nós. Uma luz diferente, tênue, mas bela, de uma beleza quase irreal.

Era como se estivesse num lugar de sonhos, como aqueles que aparecem em contos de fadas. Fechei os olhos e senti como se esvoaçasse, tal borboleta que levemente pousa de flor em flor. Uma onda de felicidade começou a tomar conta do meu coração aquecendo-o.

De onde vinham todas essas sensações? Que mistério havia ali que despertava os sentidos daquela forma tão arrebatadora? Estaria sonhando? Tive medo de abrir os olhos e descobrir que nada daquilo era real. Entretanto era necessário descobrir o porquê daquele doce mistério.

Lentamente, olhei ao meu redor e descobri a origem de tudo aquilo. Havia um pequeno canteiro de rosas amarelas, algumas ainda em botões, outras já abertas exuberantemente belas. Pequenas gotas de orvalho ainda brilhavam nas pétalas e nas folhas. Naquele recanto ali quase escondido a vida estava começando e anunciava que era tempo de abrirmos o coração para a alegria, a esperança, o amor, a renovação. O inverno poderia ter sido longo, cinzento, frio, triste, mas a primavera, enfim, havia chegado…

Postado em 19/11/2011
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