Seguindo Nuvens

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Abriu os olhos, mas o lugar estava encoberto por sombras. Uma pequena faixa de luz escoava pela porta entreaberta, mas não dava para ser ver quase nada. As cortinas estavam cerradas. Havia um forte cheiro de amoníaco que penetrava por suas narinas e, num primeiro momento, causou-lhe enjoo. Era um quarto grande com camas encostadas nas paredes, paredes revestidas até a metade por velhos azulejos brancos, rejuntes encardidos e pintura que descascava em vários pontos.

“Que lugar é esse, meu Deus? Onde será que estou? Cadê Jaci? E  esse cheiro ruim? Por favor, alguém me tire daqui!”.

Embora estivesse desperta e momentaneamente lúcida, a velha senhora não conseguiu emitir um único som, nem mexer um só músculo. O olhar perdido entre as sombras da noite iluminou-se com doces lembranças de tempos que se foram. Viu-se menina correndo pelos imensos jardins do casarão de Roma[1]. Ela e as irmãs brincavam entre canteiros de flores e arbusto bem cuidados ou simplesmente deitavam-se sob a copa frondosa das árvores rindo e conversando. A mãe sempre muito severa mandava que uma das criadas fosse chamar as meninas. Onde já se viu tanta risada e barulho e logo no jardim onde qualquer um podia vê-las?

“Deje  las chicas, Domitila, es el momento de disfrutar de la vida con alegría. Eres muy dura con suas filhas!”. Retrucava o marido em sua linguagem mista de espanhol e português.

“Mamãe era tão severa! Em compensação não havia mais ninguém com a elegância, o refinamento e bom gosto dela. Colocou-nos para aprender francês com Monsieur Gerard. A parte que eu mais gostava era quando ele falava sobre a Revolução Francesa. Eu adorava a história de Maria Antonieta! Mamãe mandou vir de Paris todo meu enxoval de casamento…  Foi de Paris ou da França? Não lembro direito agora? Mas que bobagem, Quita, Paris é capital da França. Agora dei para atrapalhar as coisas…”

Na verdade, há muito ela atrapalhava os nomes, fatos, datas, pessoas. Este fora o motivo de terem-na colocado naquele lugar. Embora não lembrasse, já fazia mais de dez anos que ela estava ali.

“Meu casamento foi tão lindo. Na verdade, eu não estava apaixonada por Domingos, mas era muito namoradeira. Quando mamãe soube que eu beijara o filho da cozinheira – e como era lindo o filho da Zulmira! Foi só um beijinho rápido, mas mamãe deixou-me uma semana trancada a pão e água. Tenho certeza que foi ela quem convenceu papai a arranjar o meu noivado com o filho do senhor Serra, também espanhol da Galícia, tal como papai. Saí do castigo comprometida com Domingos Serra e o casamento demorou o tempo de o enxoval vir de Paris.  Domingos era um bom homem. Engenheiro da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco (EFBSF), era um homem calmo, paciente, responsável, educado… Que horas são agora? Vou chegar atrasada ao meu casamento! Ainda nem vesti meu lindo vestido de noiva! Ni, ó Ni, a carruagem já chegou? “

A anciã revirava os olhos mostrando uma grande aflição. Diversas vezes abriu a boca sem um único dente como se quisesse chamar alguém, pedir ajuda, entretanto aquele imenso quarto permanecia em silêncio. A única coisa que se ouvia era a respiração vinda das outras camas do local. Ninguém aparecia para ver se todos estavam bem, se alguém ali precisava de alguma coisa.

“Esses meninos estão crescendo rápido. Meus filhinhos. Seis filhos… que filhinhas lindas as minhas! E meus rapazinhos? Tão educados… Oh meu Deus, Domingos faleceu! Como farei para criar seis crianças? (…) Fafá, venha cá, meu filho, leve essa encomenda para D. Marise, é o vestido de seda dela que já está pronto, não esqueça de dar a notinha e esperar pelo pagamento e diga obrigado quando receber, viu? Tenho tanta costura para fazer…  Ser Madame Serra a melhor costureira de Salvador não é fácil! (…) Jaci, minha filha Jaci, tadinha. Casou com 18 anos e aos 21 já está viúva e com dois filhos pra criar…  Cadê Jaci? Por que ela não está aqui? Que lugar é esse em que estou? Por que está tão escuro.  Fafá morreu? Meu Fafá morreu? Oh meu Deus do céu! Não pode ser verdade… Onde está Jaci? Desde que ela ficou viúva passamos a morar juntas. Onde ela está? Quem é esse que está aqui perto da cama? Ah! É você, Fafá? Que bom meu filho! Faz tanto tempo que não lhe vejo… que saudades meu filho! Pegue minha mão, Fafá, assim. É tão bom estar perto de você! E essas nuvens macias em que estamos, Fafá, ela está nos levando, não é? Vamos para longe, filho?”.

A velha senhora fechou os olhos, esboçou um sorriso tranquilo, deu um pequeno suspiro e aquietou. Na manhã seguinte, os funcionários do asilo encontram-na morta. Sua filha Jaci foi avisada. O Alzheimer tirou-a do convívio familiar anos antes. A morte a tirara desse mundo durante a madrugada. Os filhos de Fafá que moravam no interior, só vieram a saber do ocorrido anos depois.

 

 

 

 



[1] Roma: bairro da Cidade Baixa em Salvador-Bahia.

Amor d’outros tempos

 

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O melhor tempo esconde longe, muito longe
Mas bem dentro aqui, quando o bonde dava a volta ali.
Caetano Veloso – Trilhos Urbanos

Salvador, anos cinquenta.  Naquela época Salvador era a própria Bahia. Quem morava no interior e ia à capital, dizia: “Vou à Bahia”. Afinal, esta “Bahia” era um mundo fascinante, onde a elegância desfilava pela Rua Chile os últimos lançamentos em voga no Rio de Janeiro e em São Paulo. A cidade mágica de dois andares exalava todos os tipos de cheiros e oferecia um mundo de sabores capaz de satisfazer aos mais refinados paladares.

Vestidas em roupas bonitas, próprias ao calor do verão, Judite e sua amiga Carmem admiravam a vitrine da Casa Sloper, um local onde se achava de tudo: bijuterias, perfumes, bolsas, sapatos, roupas lindas, enfim, um mundo que não cabia no bolso de nenhuma das duas.

 – A gente podia entrar só para dar uma olhadinha!

– Nada disso, Carmem. Tenho que comprar uns tecidos nas Duas Américas, mas primeiro quero dar uma passadinha na Etam. Vamos olhar bem os vestidos à venda e tentarmos memorizar os mais bonitos. D. Mercedes quer que eu faça um vestido para a filha mais velha e amanhã vai passar lá em casa para ver os modelos. Se eu conseguir fazer isso, ela vai adorar, pois só assim vai sair por aí dizendo: “O vestido de Rosália foi comprado na Etam! Caríssimo!”.

Após as compras, as duas desceram para a Praça Municipal. Iam à Sorveteria Cubana, como sempre faziam quando vinham ao centro, e já se fazia um pouco tarde. Dali até Brotas era uma viagem! Tinham que ser rápidas. Com sorte encontraram uma mesa vazia no calçadão e pediram duas bananas Split – a sensação do momento. Judite deu um suspiro e comentou:

– É linda essa vista da Baía de Todos os Santos, o Forte de São Marcelo, os saveiros com suas velas coloridas… Não me canso de olhar…

– Pois devia era olhar aquele rapagão simpático que não tira os olhos de você e que está sentado na mesa em frente… – retrucou a amiga.

Judite dirigiu o olhar para onde Carmem tinha dito e viu um homem por volta de seus vinte e tantos anos, bem vestido em seu terno de linho branco, sorriso largo e olhar astuto. Ela abaixou os olhos, sentindo que o rosto pegava fogo, acanhada. Quando o garçom se aproximou antes que qualquer uma das duas pudessem ver o valor a pagar, o cavalheiro aproximou-se dizendo:

– O sorvete das moças é por minha conta. Muito prazer, Everaldo.

Carmem estendeu a mão.

– Prazer, Carmem.

Judite, trêmula, sentiu uma mão morna que segurou a sua longamente. Não sabia o que dizer. Parecia estar num outro plano onde tudo o que havia era aquela sensação arrebatadora.

– E qual é sua graça, moça bonita de olhos sonhadores?

– Judite.

Everaldo, sem nenhuma cerimônia, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa das moças. Conversou, perguntou, fez as duas rirem – sempre com os olhos fitos na modista – até que Carmem deu um gritinho.

– Deus do céu! Quase cinco e meia! Vamos correr ou perderemos o próximo bonde!

As duas saíram apressadas. Everaldo carregando os embrulhos, ajudou ambas a subirem o estribo do bonde, entregou as compras para Judite e perguntou:

– Quando lhe vejo outra vez!  – Sem pestanejar, num impulso ela respondeu:

– Daqui a uma semana!

– Está marcado! Espero por você aqui na Praça Municipal. – As últimas palavras foram praticamente gritadas, porque o bonde já estava em movimento.

Existe amor à primeira vista? Muitos dizem que não, mas para Judite fora amor à primeira vista. A partir daquele encontro inesperado e pelos próximos meses ela não tirou aquele homem do pensamento. O pouco dinheiro que ganhava com suas costuras, tirando o que dava para as despesas da casa e era entregue as duas tias que a criara, era gasto com tecidos para vestidos novos feito madrugada a dentro. Ou para comprar as bijuterias mais baratas na Sloper. O pedido para o namoro foi feito conforme as normas sociais da época. Everaldo apresentou-se às tias, deu nome e sobrenome, contou ter nascido em Ilhéus e desde muito jovem viera para a Bahia trabalhar na firma de exportação de cacau de um tio, onde era gerente. Estava apaixonado pela sobrinha querida das duas e tinha sérias intenções.

Foram exatamente dez meses de felicidade total para Judite. Após três meses de namoro na porta, veio o pedido de noivado acompanhado de uma linda aliança e com vistas a casamento num prazo máximo de seis meses. A partir de então, a máquina de costura não teve mais sossego. Além dos vestidos que a freguesia leal de Judite levava, havia a preparação do enxoval. Judite não tinha mãos! Até emagrecera tamanha a correria.

No auge dessa felicidade, certa noite, Carmem, acompanhada pelos pais, bate à porta de Judite pedindo para conversar com ela e com as tias. As três se reúnem na sala, Carmem e sua mãe sentadas, o pai em pé. Durante um minuto ninguém disse nada. O ar ficou tão pesado que era quase possível tocá-lo. Por fim, seu Carlos pigarreou e começou a falar.

– D. Mercedes, D. Carolina, Judite, sinto imensamente ser portador de más notícias para as senhoras, porém como amigo da família e como pai, sinto-me na obrigação de contar-lhes o que fiquei sabendo. Conversando com antigo colega de escola o qual não via há vinte anos, amigo esse nascido em Ilhéus e que para lá voltou depois de findo os estudos aqui na Bahia, por acaso falou da família Oliveira Dias. Na hora lembrei que seu noivo, Judite, tinha esse sobrenome e falei dele, contando, inclusive que o mesmo era noivo da melhor amiga de minha filha. Num primeiro momento, meu amigo disse que certamente não se tratava da mesma pessoa, pois Everaldo Oliveira Dias era casado e pai de três filhos. Concordei, com certeza não era a mesma pessoa, mas quando lhe disse aonde o sujeito trabalhava e o descrevi, meu amigo corroborou: “É ele mesmo”. Como estávamos na Cidade Baixa, ele me pegou pelo braço, fez-me entrar em seu veículo e fomos à Firma de Exportação Oliveira & Irmãos. Lá estava Everaldo. Fiquei tão indignado com a sem-vergonhice dele, que o chamei à parte e tomei satisfações, afinal Judite é como uma filha pra mim, vi-a crescer, acompanhei seus passos desde que ficou órfã e veio morar com as senhoras. Ele não negou nada. É, de fato, casado e pai de três filhos.

Pode-se imaginar o choque que foi para todos ali naquela sala! As tias esbravejavam, rogavam pragas contra o mau caráter, fingidor, aproveitador, mentiroso!

– Aquele descarado teve a petulância de sentar aqui neste sofá e comer quindim que fiz especialmente para ele! E os almoços, Mercedes, que fizemos para aquele crápula?! Ah se eu soubesse disso naquela época…

Enquanto as tias falavam pelos cotovelos, Judite permanecia na mesma posição: sentada, sem mexer um músculo, olhos muito abertos e pálida como papel. Sem dizer uma palavra levantou-se e foi para o quarto. D. Mercedes foi atrás. As visitas retiraram-se.

– Minha filha, não fique assim não. Melhor saber agora do que depois de casada, sim porque do jeito que ele é salafrário, seria capaz de cometer bigamia.

Voltada para a parede, numa voz que mais parecia um sussurro Judite soltou a bomba:

– Estou grávida.

Essas foram as últimas palavras ditas por ela. Por mais que as tias a apoiassem, cuidassem e lhe dessem amor e carinho, nunca conseguiram fazê-la falar. Enquanto perdia peso, a barriga crescia. Continuou costurando, a contragosto de D. Mercedes e D. Carolina. A aliança de noivado não foi tirada do dedo. Para não cair, Judite colocou um anelzinho menor na frente. Pariu uma menina sem dizer um ai. Quem cuidou do bebê foram as tias. Judite continuava com aquele olhar triste, perdido em algum lugar que ninguém sabia onde era. Seis meses após o nascimento da filha, encontraram-na debruçada sobre a máquina de costura. Estava morta. Na preparação para o funeral, fizeram de tudo para tirar a malfadada aliança de noivado, mas o dedo contraíra-se de tal forma que ninguém conseguiu arrancar-lhe o símbolo daquele amor inexplicável.

Dizem que não se morre de amor, mata-se, supostamente, em nome do amor, mas morrer de amor só em filmes, dramas, livros. Judite contrariou esse princípio. Judite morreu de amor.

 

Nota: Todas as casas comerciais citadas no texto, de fato existiram. Da mesma forma a personagem do texto é real bem como sua história de vida e morte. Apenas lancei mão da licença poética para contá-la.

Aconselho aos saudosistas a leitura do texto encontrado n o link abaixo.

http://maisdesalvador.blogspot.com.br/2011/08/rua-chile.html

 

Corpo Fechado

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O biongo começava suas atividades antes das cinco horas da manhã. Quatro e meia da madrugada mais ou menos, Seu Romão escancarava as duas portas de madeira meio carcomidas onde se viam restos de tinta azul. A portinhola lateral abria para o beco do mijadouro, assim chamado por ser o lugar onde os fregueses urinavam. Todos os dias era preciso jogar um balde de água com creolina para diminuir o fartum.  Antes de o nascente começar a espantar a noite, os fregueses entravam no local, encostavam suas enxadas em algum canto e pediam café preto servido em copo de vidro ou uma talagada de cachaça, ambos, segundo diziam: “Pra terminar de acordar, Seu Rumão, que trabaio de roça é trabaio duro”.

Naquela manhã, Seu Romão lavava uns copos enquanto três fregueses sentados em tamboretes a um canto conversavam. Um deles picava um pedaço de fumo com uma faca pequena e dava boas risadas. Talvez por isso ninguém percebeu quando Apolônio entrou puxando um pouco a perna, violão pendurado ao ombro e olhos injetados.

— Rumão, me dê um litro de cachaça cheio e uma garrafa, das maior que você tiver, vazia. — Enquanto falava colocava sobre o balcão uma cascavel segurando com firmeza a cabeça da cobra.

Ao voltar com o pedido, Seu Romão dá um pulo para trás gritando assustado:

-— Apolonho, seu fio da peste, que desgraça é essa! Onde cê achou essa cobra?

— Eu não achei ela não, Rumão, ela que me achou.

Os fregueses que já estavam no local e os que foram chegando formaram uma roda em volta de Apolônio.

— Passei a noite numa cantoria lá na bodega do Mané da Cota. Tinha eu, mais o Zé do Ezequié e o Tonho da sanfona e o povo que foi aparecendo e enchendo o lugar. Tocamos, bebemos e cantamos até umas quatro e pouco. Eu tinha emendado desde o sábado, tava cansado e resolvi ir pra casa. Pra encurtar caminho, entrei pelo brejo do Jonas Ferreira, pisei numas palhas de bananeira e senti uma coisa pular no meu pé e a dor fina. Com o susto, o violão caiu. Olhei pra baixo e se debatendo embaixo do violão tava ela. Viva ainda. Do meu pé corria dois filete de sangue. A infeliz tinha me mordido. Aí, não nego não! O sangue me subiu pra cabeça! Peguei a bicha pelo “cangote”, apertei bem e mordi o mais forte que pude. Quebrei o infeliz do dente, mas matei essa desgraça!

As pessoas ouviam em silêncio aquela história. Olhos arregalados de espanto. Respiração presa. O dono do biongo rompeu aquele silêncio sepulcral:

— Oxe! História mais besta!  Você matou a cascavé a dentada?

Apolônio tirou a mão que ainda segurava a cobra e todos puderam ver um rasgo por onde escorria sangue. Sem dizer nada ele colocou a cobra na garrafa vazia e derramou a cachaça dentro.

— Traz um copo!

— E ela lhe mordeu, Apolonho? — Perguntou um dos fregueses

— Bem aqui, ó. — E suspendeu o pé, naquele momento já inchado, onde duas marcas arroxeadas eram vistas perfeitamente.

— Você tem que ir agora mesmo tomar o soro na farmácia do Seu Hélcio! O veneno já tá fazendo efeito, olha a perna como já tá inchando! O Paulo da rural leva tu lá. Quanto menos movimento fizer, menos o veneno se espaia.

— Amigo Juju, tá pra nascer a cobra que vai me matar. Ela já morreu porque eu matei, mas a mim cobra não mata não. Tenho o corpo fechado. — E virou a cachaça que estava no copo de um gole só.

Naquele dia, ninguém bateu feijão nas roças, menino nenhum foi pra escola, nem dona de casa cozinhou. O biongo encheu de gente. Quando não cabia dentro nem mais uma cabeça de alfinete o passeio ficou repleto e daí a rua. Naquele povoado perdido nos cafundós do sertão, só o marceneiro trabalhou, preparando o caixão pro violeiro mais famoso da região, aquele que enchia os dias e as noites de música, tornando a vida de todos mais alegre.

Em frente ao balcão, Apolônio ia enchendo e esvaziando o copo. Quando a garrafa ficou vazia, só restando a cobra, pediu outro litro de pinga e tornou a encher o vasilhame. Depois de oito horas e cinco litros de cachaça, o pé desinchou, as marcas da mordida desapareceram, os olhos injetados clarearam, a mão que antes tremia ao pegar o copo, firmou-se. Pegando o violão – até aquele momento mudo e encostado ao pé do balcão – Apolônio se levanta:

— Bom, agora tá na hora de todo mundo ir pra suas casas pois não foi destas vez que vocês me velaram. Tenham uma boa tarde.

O povo foi abrindo espaço enquanto o violeiro passava tocando e cantando com bela voz uma de suas músicas preferidas.

“Sempre, às seis horas da manhã,

No Largo do Maracanã,

Eu ouço com emoção

Uma mensagem que o sino,

Da igrejinha do Divino

Dirige ao meu coração”[1]

 Dizem, não sei, não provo uma vírgula, que vem daí o costume de se “curtir” cachaça de alambique com cobra morta.

 


[1] Trecho da música Deusa do Maracanã, gravada por Nelson Gonçalves, muito cantada pelo saudoso Zé do Apolônio.  Sempre que ele me via passar com a roupa da Escola Normal, ele cantava: “Vestida de azul e branco/ trazendo um sorriso franco/ num rostinho encantador / minha linda normalista/ rapidamente conquista /meu coração sem amor…”.

Fim de Jogo

 

­
Assim que a porta bateu a mãe indagou:

­ ­- É tu, Roniesley?

– Sou eu, mãe.

– Tu vem do campinho?

– Fiquei lá até umas três hora, depois fui no Dado pra fazer as tarefa da escola mais ele. Tô vindo da casa dele.

– Mas teve jogo?

– Hum-hum.

– Quantos gols tu fez

– Cinco.

– Algum de falta?

– Só um. De pênalti.

– Hum… Ói, não esqueça o que eu te digo sempre. Treina muito pra fazer gol sem ser de falta. Tu tem de fazer é muita jogada limpa, drible maneiro, dar chapéu, pois assim corre menos risco de se machucar. Filho, tu tem que fazer de tudo pra não quebrar perna, romper ligamento, essas coisa acaba com os jogador.

– Eu sei, mãe, mas tem horas que tem que dividir mesmo, marcar em cima, não tem jeito! Não vou dar uma de frouxo não!

A mãe colocou a cabeça no vão que dava para a cozinha:

– Roniesley, tu vai ser jogador de futebol! Tem coisa mais macho do que isso? Eles andam tudo cercado de mulher, carrão, mansão! Nunca ouvi ninguém dizer que jogador seja frouxo dividindo bola ou não. Pior é receber cartão vermelho e ficar suspenso!

O garoto ficou calado. Desde que se entendera como gente que a conversa em casa era essa: ele seria jogador de futebol. Filho mais velho num universo de sete irmãos, passara a infância sendo levado pra escolinha de futebol de uma ONG que atendia meninos da favela. Aos catorze anos, era um menino bem desenvolvido para a idade, boa musculatura. A mãe, diarista de segunda a sexta, tirava do dinheiro que ganhava uma boa fatia para que o primogênito tivesse uma alimentação diferenciada, afinal um campeão tem que ser bem alimentado. Os outros sete filhos não sabiam o que era comer verdura, fruta, leite, iogurte, essas coisas todas. Feijão com farinha e de vez em quando um frango e mais de vez em quando ainda um pedaço de carne, era o suficiente. Estavam todos investindo no futuro, cada um com sua parcela de sacrifício. À noite, quando todos se deitavam para dormir, a fome era minimizada pelo pensamento geral de que dali a poucos anos estariam todos refastelados em alguma mansão de Pinheiros, Higienópolis, Barcelona, Madri…

– O técnico já te falou quando é que vai ser a peneira do Corínthians?

– No sábado de manhã.

– Como? Sábado de manhã? Mas é daqui a três dias!

– É.

– E tu vem me dizer isso agora? Tu não vai pra escola daqui até lá pra treinar o dia todo! Seu Martins falou que você com certeza vai ser chamado pro Juniores e só agora tu me diz que a seleção já é sábado! É treino, treino, treino até lá tá me ouvindo? Nada de aula!

– Mas tem avaliação de matemática quinta-feira, não posso perder!

-Pode perder sim! O que não pode perder é a seleção. Depois tu faz na segunda chamada.

No dia seguinte logo após o café reforçado, o ‘futuro’ ídolo do futebol sai de casa vestido não com a roupa da escola, mas com a chuteira, camisa do Corínthians, bola debaixo do braço. Com olhar perdido, ele pensa na escola, na Marina, colega de sala de olhos pretos amendoados, sorriso bonito, na aula de português e no trabalho sobre poesia que ele não entregaria. Pesquisara sobre Mário Quintana, gostara tanto das poesias dele… Copiara uma num pedaço de papel que planejara colocar na mochila de Marina… “Se tu me amas, ama-me baixinho/Não o grites de cima dos telhados/Deixa em paz os passarinhos…” *. De repente sentiu que alguma coisa quente o atingira no peito, o forte impacto joga-o para trás. Sentiu que estava caindo como se estivesse em câmara lenta. Gritos, correria, vozes atropeladas…

– O menino foi atingido! Chamem o SAMU!

Ele não entendia o que acontecera, mas sabia que estava morrendo.  Não tivera oportunidade de colocar o poema na mochila de Marina, não havia mais tempo, nem oportunidade… “Deixa em paz a mim!/Se me queres, enfim,/tem de ser bem devagarinho, Amada”… Não fora para a a escola, perdera a aula para treinar no campinho… Lágrimas mornas começaram a rolar pelo rosto já pálido… Desculpa, mãe, não vou poder te dar uma casa… nem segurança… irmãos, perdoem o que era também de vocês e só eu tive… Não vou mais jogar bola… Não queria ser jogador mesmo… Ah, Marina! Não terei tempo de colocar o bilhete na sua mochila…  “que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…”. Bala perdida… sonhos abortados… vida… morte…

* O poema registrado no texto de Mário Quintana é Bilhetes e na seção Outros Autores desse blog encontra-se na íntegra.

Contemplação


Todos os dias ela subia a colina no final da tarde, um pouco antes do lusco-fusco e ficava olhando o sol declinar vagarosamente no horizonte. Cabelos ao vento, braços abertos, cabeça inclinada para trás como se estivesse flertando desdenhosamente com o astro-rei enquanto ele ia perdendo sua luz.

Todos os dias o velhinho que morava perto dali, sentava numa pedra a alguns metros do local para admirar tão inusitada cena. Era bonito ver a silhueta daquela mocinha recortada nas sombras do entardecer. Não sabia quem era ela, nem nunca se interessara em saber, mas já fazia muito tempo que esse ritual se repetia. Quando começou ela era uma garotinha que, pelo talhe, deveria ter uns onze, doze anos. Hoje o corpo visto ao longe era de uma mulher. Seios arfando, cintura delgada, pernas firmes.

Não havia cupidez no olhar do homem, nenhum traço de sensualidade. Não era nada relacionado a esse aspecto que o levava todos os dias – mesmo quando chovia – àquela pedra para contemplar a moça de longos cabelos ao vento. Ele, já bem idoso, via aquilo como um pulsar de vida. Vida em latência. Todos os dias, àquela hora, a vida renascia naquela colina através de um simples e poético gesto de contemplação. Para a mocinha, talvez o sol fosse vida em estado puro que ela ia beber à tardinha. Para ele, mocinha e sol e entardecer eram vida em estado puro que ele sorvia aos poucos, em pequenas doses diárias.

Um dia, a mocinha não apareceu. O sol, nesse dia, custou a se esconder, talvez – quem sabe – narcisista do jeito que é, estivesse a espera de sua admiradora. A tarde encompridou, o céu ficou claro por mais tempo. Ela não veio. Ele, o sol, foi desmaiando seus raios pela terra. Ele, o velho homem, sentiu o coração pulsar lentamente, desmaiando no peito.

Três meses se passaram desde a última tarde em que certa moça subiu a colina para abraçar o sol. Sob a fria pedra na colina agora descansa o corpo do velhinho. Foi ali que ele pediu que o colocassem quando a vida se foi com o último raio de luz.
Postado em 15/07/2011
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