O mundo pelos olhos de Ana Luz

 

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Desde que me entendo por gente, quando as crianças à minha volta chegavam lá pelos três, quatro anos perguntavam por que eu andava de bengala.  Eu contava que não tinha havia tomado as gotinhas quando pequena, porque essa gotinha chamada vacina não existia na ocasião em que contraí a pólio e, até aproveitava a ocasião, para reforçar a importância de se vacinar e tal.

A bengala foi substituída pela cadeira de rodas e a criança da família mais próxima a mim é Ana Luz, uma garotinha linda, amorosa e inteligente. Fala pelos cotovelos e ainda afirma que adora ser tagarela, embora eu já tenha explicado que é importante também calar de vez em quando. Entretanto mesmo com toda essa tagarelice declarada, ela não tinha feito ainda a tal pergunta – e olha que eu já estava com o discurso do Zé Gotinha pronto -, mas ela fez quatro, cinco anos e nada de perguntar.   Um dia eu já curiosa com a falta de curiosidade dela acerca do assunto não me aguentei e lancei a flecha:

– Lulu, você não quer saber por que a Dinda não anda igual a todo mundo?

Ela me olhou tranquilamente e disse:

– Ora, Dinda, eu já sei que você é cadeirante porque não tomou a gotinha e não quero falar mais sobre isso, tá?

Botei a viola no saco e junto com ela a minha mórbida curiosidade adulta. Ela não percebeu que meus olhos se encheram de água, não de tristeza, mas de alegria pela lição que aquela pequena me dera. É isso mesmo, as pessoas são cadeirantes por alguma razão, e daí? São atletas e batem recordes, e daí? São apenas pessoas.

Se todos fossem sábios como Ana Luz e enxergassem o mundo pelos olhos dela não haveria intolerância religiosa e/ ou política, racismo, homofobia, preconceitos .  O mundo seria muito mais iluminado com toda certeza.

Tempo sem dono

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— Quando crescer, vou ser o Homem de Ferro, mamãe!

O garotinho sorridente, de mãos dadas com a mãe, saía do cinema cheio de desejos e “certezas”. Olhei para aquele rostinho inocente e sonhador e lembrei de mim mesma e do tempo em que quis ser bailarina, psicóloga, morar em Ponderosa 1,, ser vizinha dos Beatles em Liverpool, namorada de Che Guevara e por aí vai. Quando se é criança e adolescente o mundo é tão pequeno! Tudo está praticamente ali na esquina mais próxima e conseguir realizar os desejos é apenas uma questão de tempo.  Talvez dentro de alguns dias, semanas, no máximo, dentro de alguns meses. Quem é que pensa em anos e décadas aos oito, dez, catorze anos?

“Vou ser o Homem de Ferro”… A gente cresce e uma metade dos sonhos a gente até esquece que sonhou. Da outra metade, a que a fica viva na lembrança, trinta por cento faz parte de tudo que começamos e não deu certo. Os vinte por cento que restam é a vida real – quase sempre inimaginável –, mas real. “Vou ser o Homem de Ferro”… Quem vai ter coragem de falar para aquele menino cheio de desejos e expectativas que o Homem de Ferro sequer existe?!  Abortar um sonho é como tirar de quem tem fome o pão que vai diminuir aquela dor aguda de estômago vazio. Esse acordar para o mundo real deve ser algo pessoal e intransferível.  Acelerar ou retardar o processo não é obrigação de ninguém.

Se há uma coisa nesse mundo que o ser humano jamais conseguiu controlar foi o tempo.  Ainda bem! Não consigo imaginar o que faríamos – ou deixaríamos de fazer – caso o tempo dependesse da nossa manipulação.  Ficaríamos aprisionados em mundos loucos sonhados alhures e algures por fanáticos poderosos, pois com certeza os senhores do tempo seriam os detentores da fortuna e do poder. E lunáticos que possuíam essas duas coisas a História registra vários, de Átila, rei dos Hunos, a Hitler a Bin Ladem, só para citar um trio de arrepiar. Graças a Deus que o tempo passou e eles também.

“Vou ser o Homem de Ferro”.  O que aquele menininho não sabe é que para dar conta de toda dor e alegria de viver, para lidar com o lado negro e o lado bom da vida só sendo mesmo de ferro. Atravessar o caminho que pertence a cada um de nós é como abrir portas de uma casa que nos deram de presente e não a conhecemos. Ao abri-las, tanto podemos encontrar o Jardim Encantado quanto o Inferno de Dante.  O duro é que jamais vamos saber o que nos espera sem que abramos as tais portas… Se nossa natureza humana fosse forjada no cristal, bastaria um o leve sopro para nos trincar e  virar caco em segundos. Porém formos forjados no ferro e só por isso suportamos esse caos e essa delícia que é viver.

 1. Rancho que aparecia no seriado Bonanza, série de sucesso nas décadas 60 e 70.