Poder despudorado

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Depois de vários dias trancada em casa por conta da chuva, ao aparecer um sol pálido desço para o jardim do prédio a fim de aproveitar o calorzinho gostoso. Olho distraída para as palmeiras viçosas do playground. Das mangueiras, do outro lado rua, chegam o canto de passarinhos num alarido festivo. De repente uma vozinha infantil confunde-se com os piados das aves. A voz é infantil, mas a música está longe de ser!

“Prepara, que agora é a hora
Do show das poderosas
Que descem e rebolam
Afrontam as fogosas”
(…)

A garota deve ter uns cinco, seis anos. As amiguinhas, na mesma faixa etária, acompanham-na. Tudo devidamente coreografado e sob os olhares das mães e babás que riem achando muito interessante aquele “show”. Esta cena fez-me lembrar outra. Eu devia ter uns nove anos e estava debaixo do chuveiro cantando a música Castigo de Dolores Duran, quando ouvi minha tia bater na porta:

— Vera! Pare de cantar isso!

Obedeci sem entender o motivo de tal ordem, mas quando saí do banheiro veio a explicação:

— Minha filha, uma menina da sua idade não canta esse tipo de música. Não fica bem na sua idade, cantar: “Se eu soubesse, naquele tempo o que sei agora/ Eu não seria essa mulher que chora / Eu não teria perdido você…”.

Os tempos realmente mudaram. Mudou principalmente a forma de educar. Aquela separação “isso é coisa de adulto” e “isso é coisa de criança”, isso pode e isso não pode são normas que poucos adultos estabelecem para as crianças que estão sob sua responsabilidade.  Não quero de jeito nenhum passar a ideia de que todo mundo era santo no tempo de minha infância e, principalmente, de minha adolescência. Em absoluto! Por baixo do pano sabia-se dos escândalos, mas os adultos procuravam ocultar essas coisas dos pequenos e, embora aprontassem das suas, pregavam o “faço que eu digo, mas não faça o que eu faço”.  A decisão de “não andar na linha” era tomada por opção, vontade mesmo de fugir de comportamentos pré-estabelecidos, não por falta de orientação e/ou ensinamento.

Antigamente mulher poderosa era a que tinha muito poder e/ou influência, ou dispunha de grandes recursos. Hoje, poderosa é aquela mulher mega, hiper siliconada frente e verso e que, rebolando, desce até a boquinha da garrafa.  Pelo andar da carruagem a coisa só tende a piorar pois ela  enfatiza que: “Meu exército é pesado, e a gente tem poder”.

Deus nos ajude!

Suicídio de Piriguete

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O telefone toca insistentemente às cinco e meia daquela manhã de domingo chuvoso e frio. A moça enrolada num edredom florido, cheia de sono esticou o braço para alcançar o celular.

— Alô!

Uma voz estridente e chorosa explodiu do outro lado:

— Pat, vou me matar! Vou me matar e vai ser hoje!

— Eu não tô acreditando que você me acordou a essa hora pra falar isso! Semana passada você falou a mesma coisa e está viva até hoje! É sacanagem! Poxa!

— Desta vez é sério! O Zeca me abandonou e sem ele não posso continuar vivendo?

— Zeca? Mas seu namorado não é o Dado?

— Que Dado nada! Tá por fora! Faz três dias que eu tô ficando com o Zeca. Aquele amigo da Fê, lembra?

— Não lembro e nem quero lembrar, quero é voltar a dormir! Até…

— Não, amiga, não desliga! Tô desesperada!

— Sério? Quem diria… Mas o que houve?

— Tipo assim, ele não quis ir pra balada comigo e eu fui com as meninas. Agora quando cheguei em casa não tinha mais nada dele aqui! Levou tudo! Roupa, tênis, tudo! Só deixou os cedês do Luan Santana…

 — Pelo gosto musical dele, querida, você não perdeu grande coisa não… Luan Santana… ninguém merece…

— Quero morrer – dizia a abandonada entre soluços. – Espere aí…

De repente, ouve-se na maior altura uma voz de taquara rachada entoando: “Se existe amor entre nós dois, não me deixe aqui no chão /Não me deixe aqui no chão, no frio da solidão”…

— Pri, sua louca, baixa esse som! Aliás, deixa tocando. Deixa tocando que aí não precisa você se matar, os vizinhos se encarregam disso, porque acordar ouvindo Pablo às cinco e meia de um domingo de chuva é tudo o que a pessoa quer pra cometer um crime!

— Ai, amiga! Não fala assim não… É sério, viu? Resolvi me matar de verdade. Aliás, liguei pra pedir sua opinião. É que eu fiz uma listinha de tipos de suicídio e tô na dúvida de qual escolho…

— Não tô acreditando, juro por Deus!

— Primeiro pensei em me atirar da janela, mas aqui é primeiro andar, muito baixo, né. Vai que eu não morro e fico em cima da cama toda estropiada, mexendo só a cabeça e comendo tudo por canudinho, igual aquele cara do filme Mar sem Frio…

– Sem Fim! Mar Sem Fim! Mas olha, o viaduto aí da avenida fica a uma quadra… Lá não tem erro. Se atirou, morreu…

A outra nem escutou o comentário sarcástico da “amiga”.

— Pensei também em colocar a cabeça dentro do forno e ligar o gás. Mas eu li uma vez que quem morre assim fica azul. Pô, eu linda maravilhosa do jeito que sou morrer e ficar parecendo a Smurfete não tem graça, né?

— Qual o próximo item da lista? Rápido aí com isso que eu quero voltar a dormir, ok?

— Outra possibilidade era me afogar na banheira aqui de casa. Mas, pô, ia acabar com a progressiva que eu fiz anteontem… Ia ficar parecendo galinha de despacho depois de uma noite toda na chuva… E eu quero estar linda maravilhosa no caixão que é pro Zeca ver o que ele perdeu… Mas se você me prometer que faz uma chapinha depois…

— Pó Parar! Me tira fora disso! Fazer chapinha em defunta nem pensar! Tá doida!

— Bom, também posso pedir uma arma ao vizinho e dar um tiro na cabeça! Tá aí…

— Seu vizinho tem arma em casa?

— Sei lá.

— E como você disse que ia pedir emprestado…

— Ah, eu ia perguntar pra todos eles, né? Que pergunta mais besta essa! Do jeito que essa cidade tem tanto tiro, algum há de ter um revólver, ué!

— Ai, meu Pai! Quero morrer!

— Você também! Ah, amiga! Tô toda arrepiada aqui! Eu sabia que você era minha amiga mas não desse jeito! Então a gente pode fazer tipo Telma e Louise! Aí! Vai ser lindo! Posso até pedir pra Fê filmar a gente se jogando lá do alto da Serra da…

— Cala essa boca, ô doida! Não é nada disso não!

— Pat, péra aí que tem alguém ligando no outro telefone.

A “amiga”, a essa altura completamente desperta, ouviu gritinhos de alegria e muitos “Ah!”, “Oh!”, e um: “Fechado! Vou sim!”.

— Pat, era a Fê dizendo que vai passar aqui mais tarde pra gente ir almoçar na casa da prima ricaça dela, aquela que mora naquele condomínio dos sonhos! Ai! Vai ser demais!

— Ah, tá. E o suicídio?

 —Que suicídio? Olha, depois a gente se fala. Vou dormir um pouco que não quero chegar lá no meio daquele povo chique cheia de olheiras parecendo um urso panda… Beijos! Depois te conto como foi lá… Boa noite, totosa!

A “totosa” levanta cheia de raiva resmungando:

— Deixa eu ir aqui no vizinho, vai que ele tem uma arma…

Fiandeira das Palavras

O-Dom-de-Prof

Gosto de escrever ouvindo música. Parece que a música faz vibrar uma região do meu cérebro e as palavras fluem com mais facilidade. Ouvindo Claire de Lune, de Chopin meu espírito vaga e abstraio-me totalmente desse mundo físico. Dou-me conta apenas das letras que vão adquirindo forma, virando palavras.
Existe uma transcendentalidade na criação de um texto. Os limites a vencer nessa tênue linha que separa pensamento — abstração pura — e palavra escrita são fascinantes. Gosto de parir frases e depois ficar lendo tudo com certo orgulho mal disfarçado. Fico a lamber a cria num deleite por ver que sou capaz de juntar meia dúzia de termos carregados de sentido.

Claro que não há aqui nenhuma pretensão de colocar-me no panteão dos escritores. Não. Prefiro pensar em mim como fiandeira das palavras, que tecendo textos produz algo que alimenta a alma.O poder da palavra me fascina! Às vezes coleante como uma serpente, ela vem enroscar-se na ponta da língua, pronta a dar o bote fatal: é a palavra que magoa, fere, faz sangrar. Outras vezes, chega disfarçada, é bonita, elogiosa, mas traça a maldade, enreda a quem ouve numa teia de mal-entendidos.

Entretanto, gosto de pensar no lado belo da língua. A língua de Pessoa, que foi Alberto, Ricardo e Álvaro cada um fazendo uso da palavra a seu modo. Ou na língua de Guimarães Rosa, rica em neologismos. As palavras devem ser mel em nossa boca. Devem servir para edificar, agradar. Mesmo quando é necessário dizer a verdade — e a verdade sempre dói — devemos depois soprar a ferida deixada usando de doçuras como: amo você, quero seu bem, estarei sempre ao seu lado, sou sua(seu) amigo(a).
Deixo, pois, um pouco de açúcar para você que lê esta mensagem:

Que o seu futuro seja glorioso
Que o passado tenha servido
Para fortalecer o presente
E que o presente seja a porta
De acesso para o sucesso.

Postado em 02/08/2011

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