Hoc Die

TEMPO

Volta e meia eu me pegava dizendo: “No meu tempo era assim…” ou “No meu tempo a gente fazia desse modo…”. Há poucos dias, conversando com uma grande amiga, começamos a falar da época que éramos adolescentes, das festas, das serestas em noite de lua, dos namoros escondidos. Rimos muito, marejamos os olhos algumas vezes, sentimos saudade de pessoas e momentos que ficaram lá atrás. Foi-se aquele tempo…

Voltando para casa comecei a pensar quantas vezes tínhamos repetido a expressão: “Lembra que no nosso tempo?…”, e um estranhamento começou a surgir em minha cabeça, estranhamento esse que acabou levando-me a uma constatação simples e factual: isso de ficarmos repetindo “no meu tempo isso, no meu tempo aquilo”, é completamente fora de propósito, ou melhor, fora de tempo.  O meu tempo é o hoje, do Latim hodie, de hoc die e que significa “este dia”. É no agora que estou vivendo, realizando coisas, fazendo descobertas, interagindo, sonhando. Este é o meu tempo! Não é o passado e tampouco o futuro.

Como tenho mania de procurar a origem das palavras, fui pesquisar o termo “passado” e descobri que “passado”, vem do Latim “passare” (passar) e este, por sua vez, vem de “passus” (passo). Ou seja, um passo dado já pertence ao passado, portanto os passos que já dei e constituíram a minha caminhada pela vida, é uma herança imaterial sem volta. Já o futuro vem de futurus – palavra latina – é o particípio do verbo “ser” (em latim esse), e significa “aquilo que há de ser”. Ou seja, eu posso até futurar, mas enquanto ele não se transforma em hoje não é meu tempo ainda.

Portanto, a partir de agora, sempre que me referir a uma época que já vivi não a tomarei mais como “no meu tempo”, referir-me-ei a ela da seguinte forma: “quando eu era menina, na época de minha juventude, nos anos da minha mocidade”, etc. Meu mesmo é o hoje, é o momento em que estou diante do computador rabiscando este textinho, é a fome que está começando a apertar e faz-me colocar ponto final, pois é hora de ir fazer um café.

Ponto Final


Pensei que com o passar do tempo, aquela solidão angustiante que rodeava minha vida fosse diminuindo. Por mais que saísse, conversasse com as pessoas, batesse perna pelas ruas, ao voltar para casa bastava abrir a porta para sentir aquela sombra densa e fria aproximar-se. Aquele sentimento de abandono era tão pesado, que curvava meus ombros deixando-me profundamente cansada.

Havia espaços preenchidos de ausências naquela casa tão palpáveis, que temia olhar mais demoradamente alguns cômodos e ver saudades rodopiando em meio a fiapos daquilo que em algum momento foram minhas alegrias. O passado se esgueirava sorrateiro, tentando anular o presente, articulando emboscadas que me aprisionassem num mundo que não mais existia.

De alguma forma, a cada dia eu me sentia menos concreta, aos poucos minha pele foi ficando transparente, estava presa numa época inexistente. Certa manhã, abri os olhos e ao fitar minhas mãos enxerguei através delas a colcha sobre a cama. Ergui o olhar em direção à janela aberta e percebi uma névoa clara envolvendo o mundo lá fora, tomando conta de tudo. Passei os dedos pelo rosto, porém não senti meu toque. Embora as lágrimas rolassem mornas de meus olhos não conseguia sentir o gosto salgado delas. Sem alarde nem dor, fui me desfazendo e misturando-me àquela névoa estranha e calma. ‘Desesxisti’…

Postado em 05/01/2013

Entre luzes e cores


Bati a porta da frente e sem olhar para trás fui embora. Não me despedi de ninguém. Não levei nada comigo, nem mesmo uma bolsa de mão. Tudo que tinha ficou atrás daquela porta. Não me pertenciam mais. Ia começar uma nova vida, não podia levar junto o ranço de um passado em preto e branco.

Entrei na primeira loja que vi, comprei uma muda completa de roupa, saí deixando no provador até os sapatos velhos. Eu não existia mais. O que via refletido no espelho era o rosto de uma nova pessoa. Aquela outra eu deixara trancada e muda, assim que batera a porta do que fora minha casa.

A tarde quente de verão era só luz e cor. Andando pela calçada ao longo da praia um sentimento de liberdade ia enchendo cada pedacinho de mim. Tomada por uma onda de felicidade, percebi que a vida flertava comigo, e trêmula de paixão correspondi. Entretanto, mesmo caída de amor, decidi nunca mais aceitar mealhas. Doravante tudo teria que ser intenso, arrebatador. Aquela rotina comezinha, insossa, nunca mais!

Não iria mais economizar vida ou dividi-la em prestações. Joguei fora todos os pinceis sujos de cores frias e roubei a paleta quente de Cortès para pintar meu presente e futuro. A tarde ia caindo em adeuses dourados e lilases e nuvens cor-de-rosa. Olhei para o último raio de sol e deixei-me inundar por sua luz.

Postado em 13/02/2012

Caixa de Pandora


Abri aquela caixa amarelada pelo tempo e comecei a remexer o passado. Ali estava guardada uma parte de minha vida. Durante alguns instantes fiquei apenas olhando, não tinha certeza se queria remexer em lembranças já quase perdidas no tempo e na memória. Entretanto, um pequeno envelope azul chamou-me atenção. Não havia nada escrito. Ao abri-lo encontrei a fotografia de uma garota de mais ou menos oito anos. Parecia feliz, pelo menos havia um sorriso nos lábios e o brilho dos olhos transmitiam aquela serenidade só encontrada no olhar das crianças.

Em cada pedaço de papel havia o registro de acontecimentos passados. O cartão postal em preto e branco da cachoeira Véu da Noiva veio carregado de saudade. Lembro perfeitamente do dia em que o comprei. Tínhamos passado um dia maravilhoso e ao voltarmos paramos numa banca de revistas e lá estava o postal. Levei-o comigo.

Encontrei por baixo de um monte de cartas, um caderninho de endereços. A capa de cetim preto trazia um dragão vermelho e dourado pintado à mão… Meu Deus! Há mais de quarenta anos não via aquela agenda. Passei os dedos levemente no tecido tentando resgatar o passado por inteiro através desse toque. Aquelas páginas estavam povoadas por pessoas que em algum momento tiveram seus caminhos entrelaçados ao meu. Fechei os olhos e deixei as lágrimas rolarem livremente. O que mais doía era a certeza de que jamais teria de volta essa parte da minha vida.

Nesse momento decidi não olhar mais nada. Fui colocando tudo de volta na caixa. A menina da foto não tinha mais a pele acetinada, a beleza, o riso inocente. O tempo deixara suas marcas e fizera seus estragos. Apesar de tudo, foi com alívio que coloquei aquela parte da minha vida de volta no lugar onde deveria estar. Passado é passado. Tudo ali foi importante, claro, mas não era mais novidade. Melhor do que ficar chorando lembranças boas ou más era aguardar as surpresas e as novidades do amanhã.

Postado em 20/01/2012
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