Entre luzes e cores


Bati a porta da frente e sem olhar para trás fui embora. Não me despedi de ninguém. Não levei nada comigo, nem mesmo uma bolsa de mão. Tudo que tinha ficou atrás daquela porta. Não me pertenciam mais. Ia começar uma nova vida, não podia levar junto o ranço de um passado em preto e branco.

Entrei na primeira loja que vi, comprei uma muda completa de roupa, saí deixando no provador até os sapatos velhos. Eu não existia mais. O que via refletido no espelho era o rosto de uma nova pessoa. Aquela outra eu deixara trancada e muda, assim que batera a porta do que fora minha casa.

A tarde quente de verão era só luz e cor. Andando pela calçada ao longo da praia um sentimento de liberdade ia enchendo cada pedacinho de mim. Tomada por uma onda de felicidade, percebi que a vida flertava comigo, e trêmula de paixão correspondi. Entretanto, mesmo caída de amor, decidi nunca mais aceitar mealhas. Doravante tudo teria que ser intenso, arrebatador. Aquela rotina comezinha, insossa, nunca mais!

Não iria mais economizar vida ou dividi-la em prestações. Joguei fora todos os pinceis sujos de cores frias e roubei a paleta quente de Cortès para pintar meu presente e futuro. A tarde ia caindo em adeuses dourados e lilases e nuvens cor-de-rosa. Olhei para o último raio de sol e deixei-me inundar por sua luz.

Postado em 13/02/2012

Fiandeira das Palavras

O-Dom-de-Prof

Gosto de escrever ouvindo música. Parece que a música faz vibrar uma região do meu cérebro e as palavras fluem com mais facilidade. Ouvindo Claire de Lune, de Chopin meu espírito vaga e abstraio-me totalmente desse mundo físico. Dou-me conta apenas das letras que vão adquirindo forma, virando palavras.
Existe uma transcendentalidade na criação de um texto. Os limites a vencer nessa tênue linha que separa pensamento — abstração pura — e palavra escrita são fascinantes. Gosto de parir frases e depois ficar lendo tudo com certo orgulho mal disfarçado. Fico a lamber a cria num deleite por ver que sou capaz de juntar meia dúzia de termos carregados de sentido.

Claro que não há aqui nenhuma pretensão de colocar-me no panteão dos escritores. Não. Prefiro pensar em mim como fiandeira das palavras, que tecendo textos produz algo que alimenta a alma.O poder da palavra me fascina! Às vezes coleante como uma serpente, ela vem enroscar-se na ponta da língua, pronta a dar o bote fatal: é a palavra que magoa, fere, faz sangrar. Outras vezes, chega disfarçada, é bonita, elogiosa, mas traça a maldade, enreda a quem ouve numa teia de mal-entendidos.

Entretanto, gosto de pensar no lado belo da língua. A língua de Pessoa, que foi Alberto, Ricardo e Álvaro cada um fazendo uso da palavra a seu modo. Ou na língua de Guimarães Rosa, rica em neologismos. As palavras devem ser mel em nossa boca. Devem servir para edificar, agradar. Mesmo quando é necessário dizer a verdade — e a verdade sempre dói — devemos depois soprar a ferida deixada usando de doçuras como: amo você, quero seu bem, estarei sempre ao seu lado, sou sua(seu) amigo(a).
Deixo, pois, um pouco de açúcar para você que lê esta mensagem:

Que o seu futuro seja glorioso
Que o passado tenha servido
Para fortalecer o presente
E que o presente seja a porta
De acesso para o sucesso.

Postado em 02/08/2011

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