Não me ensinaram a botar o pé no freio…

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Apesar de a poliomielite ter sido erradicada do Brasil – no mundo  ainda é endêmica no sul da Ásia e na África, principalmente no Paquistão e na Nigéria –, o número de pessoas com problemas de locomoção é grande. Acidentes, má formação genética, paralisia cerebral estão aí para limitar os movimentos e a vida.

Tive poliomielite aos dois anos e quatro meses. Fiquei sem andar até os sete anos. A partir daí, depois de muita fisioterapia e quatro cirurgias pude me locomover, com sequelas, claro. Até os vinte e poucos anos andei sem apoio de nenhum tipo de aparelho, mas daí em diante, por  sentir-me mais segura, optei pela bengala. Com ela era mais fácil subir degraus, por exemplo.

Não vou aqui contar minha historinha sem graça não. O objetivo é outro e bem mais sério, porque cresci ouvindo as pessoas me dizerem que eu era igual a todo mundo, que era capaz de fazer tudo o que as demais pessoas “normais” faziam. E eu acreditei. Acontece que eu não era igual a todo mundo, portanto não era verdade essa história de poder fazer tudo que os outros fazem.

Por acreditar nesse lero-lero sem sentido, joguei-me de cabeça no mundo. Andei léguas e léguas a pé, trabalhei por mais de vinte anos como professora e por três turnos seguidos, cinco dias da semana. Ensinei em colégio situado no alto de uma ladeira íngreme por dois anos. Dois anos subindo e descendo duas vezes ao dia a maldita ladeira. E eu subia sem dizer um ai. O coração saindo pela boca, mas a boca calada. Afinal eu podia e devia fazer tudo como todo mundo.

Levada pela ideia de que tudo posso, exigi de meu corpo, principalmente, de minhas pernas o que não podia ser exigido. Não me poupei. Recebi muitos elogios por minha ‘coragem’, pela minha ‘normalidade’ forjada à custa de esforços musculares e músculos era tudo o que eu menos tinha. O resultado disso? Dores absurdas, insuportáveis. Diagnóstico do médico do Sarah, Hospital Referência para pessoas com limitações físicas: “D. Vera, para a senhora ter uma qualidade de vida melhor, não sentir mais dor, o único recurso é a cadeira de rodas”.  E fui para a cadeira de rodas há nove anos.

Aí, abro meu Facebook e vejo um rapaz sem braços, empurrando um carrinho de mão. Ele amarrou duas cordas no tal carrinho cheio de areia, passou-as pelos tocos de ombro e, dessa forma, empurrava-o. Os comentários eram de herói para cima. Olhei, li, e chorei. Vi-me naquele menino de 14, 15 anos.

Com este texto quero deixar claro um aviso importantíssimo, fruto de minha experiência de vida. Nós, portadores de qualquer limitação física não somos iguais às pessoas que não apresentam nenhuma limitação. Se não somos iguais, não podemos e nem devemos fazer as mesmas coisas que estas pessoas fazem. Somos iguais em direitos e deveres, devemos ser olhados com naturalidade, sem nenhum ranço de espanto ou piedade. Não somos coitadinhos. Entretanto temos que fazer o que o nosso corpo pode e aguenta fazer. Podemos realizar tudo sim, mas dentro da nossa limitação, dentro daquilo que nos é possível. O princípio da equidade tem que ser aplicado no nosso dia a dia, a toda hora e momento. Agindo assim, estaremos preservando um futuro com qualidade de vida senão excelente, mas pelo menos bom. Temos que aprender a botar o pé no freio. Infelizmente, essa lição não me foi ensinada.

Uma Vida em 60 Anos – Parte II


Há fatos ocorridos na minha vida durante a década de 50 – conhecida como anos dourados – dos quais tenho nítida lembrança e outros que vêm como flashes. Há momentos que eu nem sei mesmo se ocorreram ou se é fruto da minha imaginação. Do ano de 1952 não me recordo de absolutamente nada! Também com um ano de idade provavelmente nem Einstein lembraria. Mas fuçando milhares de arquivos na web, encontrei alguns dados interessantes.
Imaginem que por pouco escapei – diga-se de passagem, eu e o mundo escapamos – da morte certa, uma vez que em novembro do corrente ano os EUA anunciam que a bomba H estava pronta para ser usada! E como, pra variar, ele (os EUA) estava em guerra com a Coreia do Norte, nós ficamos em suspense, porque tudo é possível quando os americanos saem de seu país pra brigar mundo afora. Ainda bem que o bom senso era um artigo ainda na moda e a tal bomba nunca foi detonada.

Em contrapartida, Charles Chaplin, o doce Carlitos presenteava o mundo com um clown, jamais esquecido, em seu filme Luzes da Ribalta e encantava a parte pacífica do mundo. Em uma cena, um dos personagens recebe um troco a mais. Quando questionado por um colega por que não devolveu o excedente, sua resposta é memorável: “A fome não tem escrúpulos”. Aqui no Brasil os políticos aplicam muito essa máxima, mas em benefício próprio! As manchetes provam a todo instante as falcatruas de deputados, senadores, vereadores e afins, que passam mão do excedente e constroem castelos, ficam milionários da noite pro dia e curtem viagens aos paraísos ficais. Porém, mandam prender um daqueles 16,2 milhões de brasileiros que vivem na pobreza extrema, caso algum deles cometa o “ato ignóbil” de surrupiar uma lata de leite em pó de qualquer um dos Carrefour da vida.

De 1953 guardo a mais remota lembrança da minha vida, nada boa, por sinal. Foi nesse ano que o vírus da poliomielite olhou pra mim tão bonitinha, cheia de cachinhos, gorduchinha e deve ter pensado: “Que piteuzinho ! Vou fazer minha mudança pra cá…”. Veio de armas e bagagens e, sem pedir licença, instalou-se, o atrevido! Lembro da dor dos primeiros dias, da aflição. Só isso. Anos mais tarde é que recordo que não andava. Mas já mais pra frente. De 1953 lembro apenas disso.

O chato é que nem sequer posso me vangloriar de ter sido a única! Caso só eu tivesse sido contemplada com tamanha gracinha, teria rodado mundo contando como foi, como cresci, o que fiz pra superar e todo aquele blá, blá, blá… A poliomielite (Poliós: significa cinza, myelós refere a medula espinhal e íte é sufixo indicador de inflamação) é uma doença velha na história do mundo. Já existia na pré-história e os egípcios fizeram desenhos de pessoas com membros atrofiados e flácidos típicos da paralisia infantil. Teve um coleguinha meu, o imperador romano Claudius que teve paralisia numa das pernas e andava mancando. Daí surgiu o termo claudicar (de Claudio) e significa mancar. Hilário. Nero incendiou Roma, Tiberius foi terrorista, Gaius foi gigolô, Júlio César amou a bela Cleópatra e Claudius mancava…

Não quero me deter falando disso não, porque é dar muita importância ao que não é – ou pelo menos não deve ser – tão importante assim. Hoje tem o Zé Gotinha aí e esse sim, é que é O CARA, pois presta um serviço de valor inestimável à população.

Outra coisa que me chamou atenção é no mínimo bizarra: Burt Lancaster e Deborah Kerr formam o casal do filme A Um Passo da Eternidade, e causa furor na “recatada” sociedade americana, correndo o risco até de não ser exibido por conta de um beijo caliente, pero no mucho, na praia. Cinquenta e oito anos depois a gente assiste a cenas de sexo quase explícito na novela das oito, depara-se o tempo todo com uma Natalie Lamour seminua, e a recomendação é “para menores de 14” anos. Isso só pró forma, porque as famílias deixam as crianças na sala e quando elas pedem alguma coisa às mãe ainda levam bronca: “Fique quieto! Quero ver o que Leo vai aprontar agora”!

Por outro lado, Marilyn Monroe torna-se símbolo sexual e diva do cinema ao aparecer no filme “Os homens Preferem as Louras”, aos 27 anos. Causa um verdadeiro furor, virando a cabeça até do homem mais poderoso do mundo na época, Kennedy, presidente dos Estados Unidos. Nove anos depois é encontrada morta – segundo as especulações, vítima de overdose de barbitúricos. Vá entender uma coisa dessas! Marilyn passou parte da vida morando em casa de parentes e orfanatos, trabalhava em fábrica, comeu o pão que o diabo amassou. Depois de rica e famosa, dá cabo da vida… Só Freud pra explicar e olhe lá!

Eu não sou loura, nem bonita, nem rica, muito menos famosa. Tenho passado por cada coisa que só eu sei, mas overdose de barbitúrico? Tô fora! Quando a coisa aperta choro na cama que é lugar quente e vou bater um longo papo com Deus. Não tem como não melhorar.

Pra encerrar essa parte de minha vida, registro que em 53 a Petrobras foi criada pelo então presidente Getúlio Vargas. Essa sim tem subido que só rabo de foguete, graças a Deus! Com um pouco mais de meio século, é uma gigante petrolífera. Além do petróleo, a empresa produz biodiesel e etanol, com previsão de 1,9 bilhão de litros de biodiesel para esse ano. Isso sem falar no Pré-sal que mudará os rumos da produção de petróleo e combustíveis pesados no Brasil.

Essa história do petróleo no Brasil acaba interligando-se a minha vida, pois foi cavoucando o chão pensando que em Tucano-Ba (minha terra natal) havia petróleo, que a Petrobrás chegou por esses lados de cá. O que encontrou foi água termal em terras da Fazenda Macaco que pertencia a meu avô. Por falta absoluta de empreendedorismo e visão, meu avô DEU ao estado a parte da terra onde jorrava água . Isso foi o bastante para que o estado passasse mão de todo o resto e a família ficou a ver mandacaru, porque ver navios em pleno sertão só se for miragem provocada pelo calor causticante da caatinga. E eu que poderia ter sido uma rica herdeira, não sou dona nem de um jerico, quanto mais de terras e propriedades. Como diz o ditado: “Quem nasceu para quebrar licuri, morre com a pedra na mão”. Que venham os licuris, porque a pedra já colou na minha com Superbonder e já está bem gasta…

Até o próximo post!

Postado em 11/07/2011




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