Mutações


Mergulhei em brumas cinza e frias, perdida em meio de fiapos de luz. Fiquei sem noção de tempo, espaço e lugar. Não estava em parte alguma e, sem relógios ou ampulhetas, minhas rotas não obedeciam aos princípios de começo e fim.

Nesse mundo atemporal, com pedras de cristal miúdo confeccionei a trama de um manto e com ele envolvi meus ombros cansados. Brilhei loucamente ofuscando o sol! Com assas nos pés voei por sobre cursos d’ água, vi estrelas caindo e as recolhi. Eram leves, etéreas, pura luz.

Deslizei no clarão do luar encharcando-me de prata. Cintilei. Fui deixando para trás todo fardo humano: não havia mais dores, mágoas, desejos, paixões. Tornei-me um halo púrpura e habito permanentemente nas auroras e poentes. Fiz-me eterna.

Postado 26/05/2012

labirintos


Perdida em labirintos cujos corredores eram arredondados, o pavor foi tão grande que me obriguei a despertar. No meio da aflição ainda sonhando, lembro que pensei claramente: “Estou sonhando, tenho que acordar!”. Saltei da cama com o coração aos pulos! O relógio marcava 4h. Totalmente esperta, resolvi sentar-me na varanda onde corria uma brisa fresca. Ainda estava escuro.

A rua dormia deserta, o silêncio era quase palpável. Aos poucos uma barra esbranquiçada começou a se formar e as estrelas antes exuberantes em seu brilho, começavam a ficar pálidas, desaparecendo à medida que o dia ia clareando.

O sol, sem nenhuma pressa, ia se espreguiçando por trás das montanhas espalhando seus raios em todas as direções. O ciclo da vida se renovava, e o mundo ia cumprindo seu destino, percorrendo seu caminho no universo. Nós os humanos, passageiros da nave Terra, íamos também cumprindo a nossa estrada pelos labirintos da vida.

Durante o sonho lembro que lamentei não ter feito o mesmo que Teseu: não levei meu novelo de linha para ir marcando o caminho de volta e acabei, portanto, perdendo o fio da meada que não me dei ao luxo de levar. Faltou-me uma Ariadne para lembrar-me deste detalhe.

A vida é também um labirinto. Começamos a percorrê-lo após o nascimento. Não temos ideia do que virá pela frente, cada dia é um corredor a vencer sem sabermos aonde vai dar. Por mais que planejemos e tracemos estratégias para o amanhã, não temos garantias de que tudo correrá conforme nossa vontade. Acasos, surpresas, incidentes e acidentes são nossos labirintos diários, sem mapa, sem guia, sem placas de sinalização. Mergulhamos no escuro a cada acordar. Aos poucos a trama diária da vida, vai tecendo nosso destino. Podemos, claro, mudar aqui e ali. Fazer e desfazer coisas. Construir uma base para que caminhemos numa estrada com menos altos e baixos.

Não sei por quanto tempo fiquei ali pensando nessas coisas. Os ruídos que vinham da rua, o cheiro de café fresco no ar, vozes que vinham de várias direções, anunciavam o início de um novo dia. Levantei-me preguiçosamente, afinal já era tempo de percorrer o meu labirinto de hoje. Se meus corredores iriam ser retos ou arredondados, não tinha a menor importância. Dentro mim ia a certeza de que sempre haveria um sol surgindo no final de cada noite escura.

Postado em 29/11/2011
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