Fazendo Hora

DENSA NEVOAPasso as madrugadas remendando a minha alma puída pela saudade, mágoas e tristezas, sentimentos masoquistas e tão humanos. No decorrer das horas mortas tento cerzir espaços menores, antes que se transformem em feridas incuráveis. Há um luto em mim que não finda, uma melancolia amarga que brinca de esconde-esconde.

Os que estão de fora elucubram não-razões através de afirmaçõezinhas idiotas: não há motivo pra isso, a vida dela é tão boa!  Quem poderá jamais penetrar no coração e mente de alguém para saber o que ali se passa? São searas impenetráveis aos forasteiros, mundos cujas margens são desconhecidas ao próprio dono.

Quem sabe palavras não ditas, beijos não dados, amores não declarados, flores não recebidas, sonhos irrealizados, projetos inacabados, desculpas não ouvidas, convites não recebidos, quem saberá o quanto, ao longo do tempo, esgarçaram o tecido da alma até rompê-lo? Quem sabe?

Dentre a névoa rala do alvorecer vou dando os últimos nós frágeis em fios invisíveis de pensamentos costureiros, mas é impossível juntar todos os retalhos desse eu que vai se perdendo aos poucos, em pequenas doses letais de amargura e tristeza. O tempo, locomotiva célere que não faz paradas, breve chegará nesta estação e dar-me-á o bilhete só de ida para um mundo sem dor.

 

Recortes

 

Fresta

 

Pela fresta da porta vejo teu vulto

Se é sonho ou realidade, não sei.

Pela fresta da porta vejo vários vultos

Passam sorrateiros, ofuscados

há uma bruma que desce sobre eles.

Pela fresta da porta vejo imagens borradas

misturadas, indefinidas, cinzentas.

Foram-se as cores, apagaram-se os contornos.

Pela fresta da porta passa minha vida.

Não consigo vê-la, mas posso senti-la.

Há um gosto amargo de saudade do que se foi.

Ausência


Há quase duas semanas minha mãe nos deixou. Inesperadamente ela fez sua passagem para outro plano, quiçá maior, mais cheio de luz, paz e amor. Com certeza ela está feliz entre os anjos e seus cânticos maviosos. Não sentirá mais cansaço, nem dor, nem medo, tampouco tristeza. Eternamente desfrutará da presença e do amor de Jesus.

Mas o que eu faço com essa saudade que machuca meu coração todos os instantes? Como preencher esse vazio imenso que ficou sem sua presença ao meu lado? Não estou apenas órfã, estou desamparada, porque por mais que eu me afastasse, sabia que ela estava sempre lá a minha espera. Minha solidão é grande, perdi o rumo de minha vida.

Sinto-me como uma folha que se desprende do galho e a brisa vai levando para um lado, para outro até que caia em algum lugar. Como afirma Drummond as mães deveriam ser eternas. Meu sono é vazio, deixei de sonhar, entretanto sei que em algum momento há de vir do céu um sopro manso e suave que irá banir minha tristeza, um sopro que não será outra coisa que um beijo de mãe vindo de longe, porém mágico, doce, vivificador. Um beijo seu, minha mãe.

Postado em 18/11/2012
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