Confetes

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Subindo a ladeira ia aquela mulher franzina, arrastando um saco de aniagem velho, meio puído, com alguns buracos pequenos por onde saiam fiapos coloridos. Parecia ser pesado, uma vez que o suor escorria pela testa e ela arfava provocando um ruído de animal que rosna quando vê o perigo. Aqui e ali parava deixando o saco pender molemente no chão, enquanto recuperava o fôlego e as forças. As poucas pessoas que passavam ao seu lado olhavam-na de soslaio, mais ninguém oferecia ajuda.

A ladeira íngreme era comprida e a pobre mulher não estava nem na metade. Fiquei com pena e resolvi ajudá-la. Assim que fui me aproximando, percebi que o saco era maior do que vira de longe e parecia também mais volumoso e, portanto, mais pesado. Notei também que de alguns buracos saía uma espécie de luz amarelada e fiquei bastante intrigada com isso. Imaginei que talvez fosse algum desses bastões de led ou pulseirinhas que usam em festas, uma vez ser impossível que dentro daquele saco houvesse alguma fonte de energia. Outra coisa que me causou espanto também é que a mulher tinha uma aparência cansada, porém tranquila, estava bem vestida e apesar de transpirar muito por conta do esforço, dela exalava um suave perfume.

­- Vou ajudá-la a carregar isso.

Ela recuou espantada, olhando-me atentamente:

– Não, obrigada! Esse é um fardo que só eu posso levar. Agradeço sua delicadeza, mas não posso aceitar sua ajuda.

– Mas falta ainda um bom pedaço para chegar lá em cima! Isto é, se a senhora for até o alto da ladeira, ainda…

– Sim, vou até o final. Mas está tudo bem. Entretanto, aceito sua companhia, porque conversando o tempo passa mais rápido e o esforço parece ser menor.

– É verdade. Vou acompanhá-la sim. Ah, e podemos conversar sobre o que a senhora quiser.

– Ótimo! Você mora aqui perto?

– Sim. Mas não me lembro de tê-la visto por aqui em nenhum…

– Não, não moro aqui. Pelo menos não nesse bairro. Estou aqui só por causa da ladeira. Onde moro é tudo plano. Essa é a ladeira mais alta da cidade, a mais inclinada também, perfeita, portanto, para o que tenho a fazer.

Nem de longe eu imaginava o que ela iria fazer. Por mais que pensasse não atinava com nada! Aliás, começava a achar que aquela mulher era meio amalucada. Onde já se viu sair arrastando um saco velho ladeira acima?!

– Pronto! Chegamos!

Lá do alto as casas e os prédios ficavam pequenos. Os bancos da praça eram pontinhos escuros em meio ao verde dos canteiros. As pessoas pareciam formiguinhas na sua azáfama de trabalho ininterrupto. Durante um breve momento esqueci o motivo que me levara até ali. A voz da mulher ao meu lado tirou-me dessa abstração.

– Sabe, durante minha vida toda carreguei comigo muitas coisas. Passei por situações de todo tipo que se possa imaginar. Tive momentos de alegria e de tristeza como todo mundo. Sonhei um monte de coisas! Muitos desses sonhos consegui realizar, outros não. Consegui sucesso em várias empreitadas e fracasso em outras tantas. Chorei, ri, amei, desamei, fui amada e desamada também… Fiz milhares de amigos, se fiz inimigos não sei, provavelmente deve ter muita gente que não gosta de mim, não vai com minha cara. Nem Jesus agradou a todos, portanto… Contudo, aprendi que nossas escolhas determinam o que somos. Há gente que opta pelo sofrimento e vai passar a vida sendo a pobre coitada ou o pobre coitado. Outros optam pela celebração da vida, mesmo quando está lhes passa a perna em duras rasteiras. A gente pode até ESTAR triste e deprimida, mas SER triste e deprimida é opção. Por isso, quando começo a ficar chorosa, entristecida, amargurada, escrevo tudo que atrai sentimentos negativos em papeis coloridos, nomeio todas as minhas tristezas, dores, raivas, frustrações em tiras de papel, pego um furador e transformo tudo em bolinhas miúdas, pequenos confetes. Coloco tudo num saco velho, procuro um lugar bem alto e jogo fora. Por isso não aceitei sua ajuda. O que tem aqui dentro são meus sentimentos ruins. É hora de me desfazer deles, deixá-los ir embora.

Ela se inclinou para o saco, abriu-o e dele voaram pequeninos confetes coloridos. Num minuto não havia mais nada. Aliás, o próprio saco desintegrou-se. Apenas uma luz suave pairava no alto da ladeira. Sem dizermos mais nenhuma palavra, fizemos o caminho de volta.

 

 

Cheirinho de vida


Uma das minhas lembranças mais remotas é o cheiro do mar da praia de Botafogo. Cheguei ao Rio de Janeiro numa madrugada do ano de 1958, tinha seis anos. Ao passar pela praia de Botafogo, as ondas esbranquiçadas e pálidas pelo adiantado da hora, pareciam um borrão que batia nas pedras. Aquele cheiro de água salgada fascinou-me! Lembro que inspirei várias vezes o ar que entrava pela janela do carro numa tentativa, inconsciente, é claro, de reter na memória aquele perfume. Se eu fosse perfumista tentaria criar um perfume com cheiro de madrugada e mar. Colocaria num frasco de tonalidade clara do gargalo até a metade, daí para baixo teria o tom do mar, escurecendo gradativamente até chegar num azul escuro. Quando eu o tomasse entre as mãos e o sacudisse lentamente, seria como ondas quebrando nas pedras de um mar noturno.

O cheiro são sentimentos em estado gasoso. Cada perfume desperta um sentimento diferente em mim. Os odores foram marcantes na minha vida, porque sempre estiveram embaralhados às minhas emoções. Para mim eles são assustadoramente indissociáveis. Confundem-se de tal forma que não sei onde começa um e termina o outro. Os cítricos trazem a alegria de minha adolescência, do tempo que tirava umbu do pé, chupava cajá e fazia limonada para servir nas festinhas de aniversário. Os florais evocam romance, beijo dado às escondidas, cafuné, palavras apaixonadas murmuradas pertinho do ouvido. Entretanto se prevalecer o toque de violeta, prevalece também a tristeza, porque lembra namoro acabado, solidão, dias sem luz.

Perfumes amadeirados, por exemplo, principalmente aqueles com toque de cedro me trazem uma sensação de segurança, organização. Despertam-me um sentimento de amor filial quase palpável. Transportam-me no tempo e deixam-me em frente a um guarda-roupa enorme de madeira escura, onde meu pai guardava sua roupa sempre muito bem arrumada nos cabides, em gavetas e prateleiras. Nada ficava fora do lugar. Sempre que eu o abria para pegar qualquer coisa ou apenas para olhar aquele mundo masculino, o odor da madeira penetrava em minhas narinas e eu ficava extremamente feliz. Era o cheiro de meu pai.

Alfazema representa inocência, ternura, maciez, vida. É o aroma da maternidade. Tem uma sutileza, uma candura especial, o perfume dos anjos. Lembra chorinho de bebê que a gente acalenta, cantando baixinho:

É tão tarde
A manhã já vem,
Todos dormem
A noite também,
Só eu velo
Por você, meu bem
Dorme anjo
O boi pega Neném…[1]

Postado em 28/02/2012

[1] Música Acalanto de Dorival Caymmi

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