Entre linhas

solidao
Segui a linha da calçada, um pé na frente do outro. Não podia cambalear. Não podia cair. O segredo era seguir linhas.
Tentei seguir a linha da vida em minha mão. Era muito curta. Não tinha graça
Segui a linha do pensamento sano, insano, desvairado, retraído, pudico, imoral, com e sem sentido.
Segui a linha da obediência cega, temente, apavorante, libertadora e escravizante.
Segui a linha da paz e amor. Perdi a paz e com ela o amor.
Segui a linha da pauta musical, mas não produzi sonatas, blues, tampouco samba, nem sequer o de roda.
Segui a moda que estava em moda. Todas ou quase todas.
Segui a linha dos fios elétricos pela janela do ônibus. Segui a linha das cercas que passavam rápidas pela janela do trem.
Segui a linha de olhares apaixonados e a linha de contorno de lábios que beijei ora com doçura, ora com sofreguidão.
Segui a linha do horizonte colorido pelo sol que se escondia num exibicionismo exageradamente lindo, até meu olhar não enxergar nada mais.
Passei a vida seguindo linhas, traçando linhas e de quase todas dei conta. Algumas até apaguei. Mas há uma linha que sufoca e lacera a alma tirando a alegria e a vontade de viver que é a pior de todas, é a linha da solidão.

Ausência


Há quase duas semanas minha mãe nos deixou. Inesperadamente ela fez sua passagem para outro plano, quiçá maior, mais cheio de luz, paz e amor. Com certeza ela está feliz entre os anjos e seus cânticos maviosos. Não sentirá mais cansaço, nem dor, nem medo, tampouco tristeza. Eternamente desfrutará da presença e do amor de Jesus.

Mas o que eu faço com essa saudade que machuca meu coração todos os instantes? Como preencher esse vazio imenso que ficou sem sua presença ao meu lado? Não estou apenas órfã, estou desamparada, porque por mais que eu me afastasse, sabia que ela estava sempre lá a minha espera. Minha solidão é grande, perdi o rumo de minha vida.

Sinto-me como uma folha que se desprende do galho e a brisa vai levando para um lado, para outro até que caia em algum lugar. Como afirma Drummond as mães deveriam ser eternas. Meu sono é vazio, deixei de sonhar, entretanto sei que em algum momento há de vir do céu um sopro manso e suave que irá banir minha tristeza, um sopro que não será outra coisa que um beijo de mãe vindo de longe, porém mágico, doce, vivificador. Um beijo seu, minha mãe.

Postado em 18/11/2012

O Silêncio da Vida


As árvores do parque balançavam ao leve soprar da brisa. Naquele início de outono as folhas caíam mansamente sem fazer ruído. Havia uma leve névoa pairando sobre o lago de águas frias. Ainda era muito cedo. Apesar da leve claridade, o sol ainda não se levantara totalmente. Até mesmo os pássaros sempre tão madrugadores, não haviam saído dos ninhos, talvez com preguiça de abandonar aquele aconchego morno.

Sentada num banco úmido pelo ar da noite, envolta num agasalho branco, uma mulher olhava o parque silente, vazio. Parecia ser a única alma viva no mundo naquele instante. Não se ouvia um único som. Nem mesmo o bater de uma porta, o choro de uma criança, o latido de um cão, um rádio que tocava… Não havia cheiro de nada também… Nem de mato, ou de café fresco, ou de chão úmido, ou de flores. Sem som e sem odores. Um mundo atípico.

A luz, tão difusa, parecia ter sido aprisionada como se alguém tivesse apertado a tecla pause de algum controle remoto… O tempo não passava. O sol não nascia, as pessoas não acordavam, os pássaros não cantavam, a cidade não se libertava daquele torpor. Por que, meu Deus?

Somente aquele vulto ali perdido no banco de um parque morto, de uma cidade morta, de um mundo morto. Um vulto de mulher que não entendia por que o tempo havia parado, por que só ela se dera conta disso, por quê?

Momentos mais tarde, alguém tocou de leve o ombro daquela desconhecida. Lentamente o corpo queda para o lado. O mundo não tinha parado, nem a cidade, nem os pássaros, muito menos os outros. Somente ela é que havia parado na vida, nesta vida… e para sempre.
Postado em 16/07/2011
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