Céu de quase noite


Quando olho o céu de quase noite guardando um pouco de luz
Reconheço-me nesse instante, pois me sinto entre sonho e realidade.
O sonho é sempre luminoso, enche-me a alma de esperanças generosas.
Já a realidade é a certeza de que vivo entre mundos de mistério.
Não posso ter certeza em qual dos mundos estarei nesse ou naquele instante.
Posso dançar em jardins de primavera explodindo em cores,
Ou chorar silenciosamente em vãos de escadas sombrias.
Minha vida tem sido assim: um céu de quase noite guardando um pouco de luz.

Postado em 03/02/2013

labirintos


Perdida em labirintos cujos corredores eram arredondados, o pavor foi tão grande que me obriguei a despertar. No meio da aflição ainda sonhando, lembro que pensei claramente: “Estou sonhando, tenho que acordar!”. Saltei da cama com o coração aos pulos! O relógio marcava 4h. Totalmente esperta, resolvi sentar-me na varanda onde corria uma brisa fresca. Ainda estava escuro.

A rua dormia deserta, o silêncio era quase palpável. Aos poucos uma barra esbranquiçada começou a se formar e as estrelas antes exuberantes em seu brilho, começavam a ficar pálidas, desaparecendo à medida que o dia ia clareando.

O sol, sem nenhuma pressa, ia se espreguiçando por trás das montanhas espalhando seus raios em todas as direções. O ciclo da vida se renovava, e o mundo ia cumprindo seu destino, percorrendo seu caminho no universo. Nós os humanos, passageiros da nave Terra, íamos também cumprindo a nossa estrada pelos labirintos da vida.

Durante o sonho lembro que lamentei não ter feito o mesmo que Teseu: não levei meu novelo de linha para ir marcando o caminho de volta e acabei, portanto, perdendo o fio da meada que não me dei ao luxo de levar. Faltou-me uma Ariadne para lembrar-me deste detalhe.

A vida é também um labirinto. Começamos a percorrê-lo após o nascimento. Não temos ideia do que virá pela frente, cada dia é um corredor a vencer sem sabermos aonde vai dar. Por mais que planejemos e tracemos estratégias para o amanhã, não temos garantias de que tudo correrá conforme nossa vontade. Acasos, surpresas, incidentes e acidentes são nossos labirintos diários, sem mapa, sem guia, sem placas de sinalização. Mergulhamos no escuro a cada acordar. Aos poucos a trama diária da vida, vai tecendo nosso destino. Podemos, claro, mudar aqui e ali. Fazer e desfazer coisas. Construir uma base para que caminhemos numa estrada com menos altos e baixos.

Não sei por quanto tempo fiquei ali pensando nessas coisas. Os ruídos que vinham da rua, o cheiro de café fresco no ar, vozes que vinham de várias direções, anunciavam o início de um novo dia. Levantei-me preguiçosamente, afinal já era tempo de percorrer o meu labirinto de hoje. Se meus corredores iriam ser retos ou arredondados, não tinha a menor importância. Dentro mim ia a certeza de que sempre haveria um sol surgindo no final de cada noite escura.

Postado em 29/11/2011

Sonho, logo existo


Olhando a imensidão do mar, aquela linha quase invisível que separa água e céu, o pensamento era: o que haveria após? Talvez o deus Atlas sustentando o Mundo, o abismo de águas jorrantes, a escuridão total… Que bobagem… Se a gente deixar o pensamento nos leva a desvarios sem tamanho, loucuras disfarçadas usando o pseudônimo de imaginação.

Todavia, mesmo sabendo que além daquela linha tênue o que existe é apenas a continuação da água e do céu, é tão sem graça, tão óbvio, que melhor mesmo é imaginar coisas mirabolantes, estapafúrdias. Depois do infinito – veja que absurdo, se é infinito como pode existir algo além de –, mas depois do infinito há um mundo desconhecido, maravilhoso cheio de seres interessantes e belos. E novidade maior! O tempo não passa!

Para além daquele fiapo de quase nada, há o universo fantástico dos que sonham, criam, inventam. É a terra daqueles que fazem de conta que o céu é realmente azul cheio de carneirinhos brancos chamados nuvens. É o habitat de quem não perde a esperança e canta a plenos pulmões canções de amor, acalantos para bebês dormirem, hinos de gratidão a Deus.

Olhando a imensidão do mar, aquela marquinha separadora de água e céu, lâmina imperceptível aos olhos de quem olha, mas não vê, enxergo um caminho de luz, um brilho de paz, um chamamento de amor e, tranquila, serena, caminho lentamente por sobre as águas, inebriada de felicidade. Sonho, logo existo!
Postado em 07/08/2011
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