Fazendo Hora

DENSA NEVOAPasso as madrugadas remendando a minha alma puída pela saudade, mágoas e tristezas, sentimentos masoquistas e tão humanos. No decorrer das horas mortas tento cerzir espaços menores, antes que se transformem em feridas incuráveis. Há um luto em mim que não finda, uma melancolia amarga que brinca de esconde-esconde.

Os que estão de fora elucubram não-razões através de afirmaçõezinhas idiotas: não há motivo pra isso, a vida dela é tão boa!  Quem poderá jamais penetrar no coração e mente de alguém para saber o que ali se passa? São searas impenetráveis aos forasteiros, mundos cujas margens são desconhecidas ao próprio dono.

Quem sabe palavras não ditas, beijos não dados, amores não declarados, flores não recebidas, sonhos irrealizados, projetos inacabados, desculpas não ouvidas, convites não recebidos, quem saberá o quanto, ao longo do tempo, esgarçaram o tecido da alma até rompê-lo? Quem sabe?

Dentre a névoa rala do alvorecer vou dando os últimos nós frágeis em fios invisíveis de pensamentos costureiros, mas é impossível juntar todos os retalhos desse eu que vai se perdendo aos poucos, em pequenas doses letais de amargura e tristeza. O tempo, locomotiva célere que não faz paradas, breve chegará nesta estação e dar-me-á o bilhete só de ida para um mundo sem dor.

 

Mudanças

 

Nostalgia_by_nighty

A semana passou tão rápido que levei o maior susto ao constatar que hoje já é sábado! Não me dei conta que o tempo havia corrido assim. Ainda há pouco era domingo e já será domingo novamente amanhã… Tenho ouvido as pessoas falarem que hoje os dias passam mais rápido. Há uma urgência nas coisas, que faz com que andemos igual ao Coelho Branco da história de Alice, no País das Maravilhas, repetindo a cantilena: “Oh
puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado!”.

Não se para mais para apreciar o voo das borboletas em torno dos canteiros. Nem sequer percebemos se há canteiros… Ninguém nota o suave murmurar da brisa sobre a copa das árvores, nem céu cheio de nuvens que se parecem com carneirinhos. Céu pedrento… Quando menina eu ouvia os adultos dizerem: “Céu pedrento chuva ou vento, ou qualquer outro tempo”. O céu de hoje é outro e de lá não vem apenas chuva, ou sol. Vêm bombas. Caem aviões.

Lembro que bem pequena ia sempre à praia. Era delicioso sentar ali na beirinha da água e ficar fazendo castelinhos de areia. Uma onda mais forte derrubava tudo e entre gritos e muitas risadas, nós crianças, refazíamos tudo. Os adultos, sob os guarda-sóis, ficavam conversando ou simplesmente aproveitando o momento. Vez por outro éramos convocados a tomar um sorvete, chupar um picolé.

A praia de hoje tem futivôlei,  cachorros, vendedores de todo tipo, pessoas que comem desesperadamente e comem de tudo: do pastel ao queijinho assado; da água de coco ao uísque; do peixe assado ao cachorro-quente. Um festival gastronômico regado à brisa marinha e muito lixo deixado na areia e no fundo do mar.

Ia-se às pracinhas, ao Jardim Zoológico, ao cinema do bairro nas deliciosas matinês de sábado. Os cinemas colocavam cartazes anunciando o vesperal do fim de semana e corríamos para ver qual seria a nova fita a ser exibida. E cinema tinha lanterninha. Oh, céus! Estou me sentindo um ser jurássico! Sou do tempo do lanterninha, dos beijos trocados no escurinho do cinema! Beijos hoje dão-se em shoppings, nas praças públicas às claras, sem pudores nem temores. O amor virou artigo raro, ninguém namora mais: “fica”. Não há sensualidade, há sexo.  Antes sexo era uma das consequências naturais do amor entre duas pessoas. Hoje primeiro se faz sexo e, se der sorte, pode até “pintar” o amor depois, mas é difícil acontecer. E como não há um sentimento forte unindo as pessoas, as relações são descartáveis.

Amanhã será mais uma vez domingo… Não foi só a semana que passou célere não, os anos dourados também se foram rápidos demais e não se pode ao menos pedir bis.

Tempo sem dono

tempo

— Quando crescer, vou ser o Homem de Ferro, mamãe!

O garotinho sorridente, de mãos dadas com a mãe, saía do cinema cheio de desejos e “certezas”. Olhei para aquele rostinho inocente e sonhador e lembrei de mim mesma e do tempo em que quis ser bailarina, psicóloga, morar em Ponderosa 1,, ser vizinha dos Beatles em Liverpool, namorada de Che Guevara e por aí vai. Quando se é criança e adolescente o mundo é tão pequeno! Tudo está praticamente ali na esquina mais próxima e conseguir realizar os desejos é apenas uma questão de tempo.  Talvez dentro de alguns dias, semanas, no máximo, dentro de alguns meses. Quem é que pensa em anos e décadas aos oito, dez, catorze anos?

“Vou ser o Homem de Ferro”… A gente cresce e uma metade dos sonhos a gente até esquece que sonhou. Da outra metade, a que a fica viva na lembrança, trinta por cento faz parte de tudo que começamos e não deu certo. Os vinte por cento que restam é a vida real – quase sempre inimaginável –, mas real. “Vou ser o Homem de Ferro”… Quem vai ter coragem de falar para aquele menino cheio de desejos e expectativas que o Homem de Ferro sequer existe?!  Abortar um sonho é como tirar de quem tem fome o pão que vai diminuir aquela dor aguda de estômago vazio. Esse acordar para o mundo real deve ser algo pessoal e intransferível.  Acelerar ou retardar o processo não é obrigação de ninguém.

Se há uma coisa nesse mundo que o ser humano jamais conseguiu controlar foi o tempo.  Ainda bem! Não consigo imaginar o que faríamos – ou deixaríamos de fazer – caso o tempo dependesse da nossa manipulação.  Ficaríamos aprisionados em mundos loucos sonhados alhures e algures por fanáticos poderosos, pois com certeza os senhores do tempo seriam os detentores da fortuna e do poder. E lunáticos que possuíam essas duas coisas a História registra vários, de Átila, rei dos Hunos, a Hitler a Bin Ladem, só para citar um trio de arrepiar. Graças a Deus que o tempo passou e eles também.

“Vou ser o Homem de Ferro”.  O que aquele menininho não sabe é que para dar conta de toda dor e alegria de viver, para lidar com o lado negro e o lado bom da vida só sendo mesmo de ferro. Atravessar o caminho que pertence a cada um de nós é como abrir portas de uma casa que nos deram de presente e não a conhecemos. Ao abri-las, tanto podemos encontrar o Jardim Encantado quanto o Inferno de Dante.  O duro é que jamais vamos saber o que nos espera sem que abramos as tais portas… Se nossa natureza humana fosse forjada no cristal, bastaria um o leve sopro para nos trincar e  virar caco em segundos. Porém formos forjados no ferro e só por isso suportamos esse caos e essa delícia que é viver.

 1. Rancho que aparecia no seriado Bonanza, série de sucesso nas décadas 60 e 70.

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